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MANIFESTO PELA VOLTA DO TEMPO





O sujeito que assina este mal-arrumado desabafo, em nome de toda a humanidade (à exceção talvez dos anciãos com mais de 100, bem servidos de saúde e paradoxalmente fartos de viver), vem a público exigir que o tempo volte o mais rápido que puder. E que fique claro que não me refiro à volta no tempo; o que reivindico é o retorno do próprio tempo, calmo e humilde, à vida das pessoas.

É espantoso como tudo, há uns poucos anos, levava muito mais tempo para ser feito. E quanto mais vagaroso era o processo, mais tempo, estranhamente, sobrava para o cidadão.

Criava-se o porco no quintal. Matava-se o bicho. Jogava-se água fervente sobre o pelo, a ser raspado na navalha. Abria-se a barrigada, separava-se as partes, temperava-se e deixava-se, da noite para o dia, o leitão esquartejado submerso em marinada. Providenciava-se a lenha, acendia-se o fogo, cozinhava-se lentamente e degustava-se mais lentamente ainda. Era um tempo de sobra que não acabava nunca mais, de enjoar de fazer nada. De botar cadeira na calçada, chamar o vizinho pra uma breja e fomentar o diz-que-diz-que. O tempo era artigo barato, era preciso arrumar um jeito de se livrar dele. Matá-lo de alguma forma antes que ele matasse a todos de tédio. Tempo havia para debruçar na janela, jogar paciência, montar quebra-cabeça. Fazia-se a sesta, lia-se pela satisfação de ler, não pela urgência de manter-se up-to-date.

Voltando à feijoada, dessa vez à rala, insípida e inodora versão de hoje – em lata e aquecida no microondas. Não presta-se atenção no que se está comendo, pois no tempo em que se engole a gororoba ao molho de flavorizantes vê-se a TV, fala-se ao celular, confere-se o extrato, pensa-se nos termos do relatório a ser entregue o mais tardar às 12h30. E são 12h20, meu Deus do céu.

Se aqui é assim, imagine lá, do outro lado do mundo. Valorizar o tempo é com os japoneses. Ninguém tem know-how mais apurado. Por algum mecanismo ancestral, sabem os nipônicos desde tenra idade que tempo é recurso não-renovável, e consequentemente precisam consumi-lo da mais produtiva maneira. Lá na placenta, enquanto espera ficar pronto pra vir ao mundo, o japonesinho deve aproveitar o líquido amniótico pra cultivar algum legume hidropônico. Ou já reserva aquela água que o rodeia pra abrir sua lavanderia quando nascer. Talvez ache oportuno estudar a anatomia da mãe e já ir se afiando para o vestibular de medicina.

Melhor ainda que voltar, amigo tempo, seria ver você parado. Isso mesmo. Nem correr, nem andar, nem se arrastar. Simplesmente parar, perder a função de tempo e eternizar-nos a todos.

E vamos ficar por aqui, porque o tempo do leitor é curto e seria uma lástima continuar a desperdiçá-lo. Ainda mais comigo.



© Direitos Reservados

Obs: crônica de 2006, republicada hoje por ter faltado tempo para escrever uma nova.


Comentários

  1. Carlos Edu Bernardes11:02 AM

    Ah ah ah, sensacional, Marcelo!
    Ainda melhor pelo fato de você não ter tido tempo de escrever uma crônica nova!

    Com suas crônicas/historietas/depoimentos sensacionais eu ganho o coroamento dos 'aproveitar o tempo' dos sábados!

    E como dizia Paulo Mendes Campos:

    o relógio no pulso
    voltado para fora
    marca o tempo e o traz -
    escravo - para perto

    mas é do lado de dentro
    passeando nas vias vivas e fugazes
    que ele - límpido - está certo.

    4FABraços!

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  2. José Carlos Carneiro11:07 AM

    Excelente! De fácil leitura, sem rodeios, objetivo e divertido. E não é só isso: leva-nos a uma reflexão sobre as diferenças entre o reinado do tempo sobre o ser humano no passado e no presente.

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  3. Jorge Cortás Sader Filho11:34 AM

    Desculpe, amigo Marcelo, mas estou sem tempo para comentar alguma coisa sobre este texto.
    Grande abraço. Jorge

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  4. Jusciney Carvalho11:36 AM

    Não consegui registrar meu comentário no blog! Mas antes que me falte tempo, deixa eu te dizer algo: nunca perco tempo ao parar pra te ler, aos sábados. É um prazer sempre novo. Beijo!

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  5. André Albuquerque11:36 AM

    Um texto ágil e bem humorado.Parabéns.

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  6. Interessante Marcelo que, mesmo sendo uma crônica de 2006... e o tempo não parou... está atualizadíssima! Afinal, massacramos a tudo e a todos, para "termos tempo" de... sempre mais alguma coisa! Talvez, assim mesmo como a imagem acima: tirarmos os ponteiros que encurtam cada vez mais o nosso "menos tempo"...
    Abraço, Célia.

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  7. Não perdi tempo algum lendo este texto não sobre o tempo. Aliás, falamos sempre sobre a falta de tempo, mas nem tempo nós temos dado ao tempo. De fato, ele, o tempo, é tão obediente que anda de acordo com as nossas pernas, não com os ponteiros do relógio. Somos nós a pilha do nosso passar. Cada vez mais , dando-nos a ela a nossa energia. Consumimo-nos conosco mesmos para abastecermos de nós, insistentemente, culpando aquilo sobre o qual não conseguimos ter controle: o tempo.

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  8. Élide Camargo Signorelli2:40 AM

    Falar com humor e ironia sobre a angústia diante do tempo, é uma das saídas que você conhece bem. Parabéns pelo texto.

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  9. Alessandra Leles Rocha12:51 AM

    Marcelo,
    SENSACIONAL!!! Só não se preocupe com os leitores, porque ler os seus textos é sempre um tempo muito bem empregado!!!
    Tenha uma semana repleta de muita INSPIRAÇÃO e, quem sabe, um bocadinho a mais de tempo!!!
    Bjocas., Alê

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  10. Clotilde Fascioni12:52 AM

    Olá amigo, para mim ler você é da maior produtividade, jamais perda de tempo.. Abrçs.

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  11. Bel Bruno12:53 AM

    Amei! Adoro escrever sobre o tempo, Marcelo.E adoro ler sobre tb.
    O TEMPO
    Se o tempo não tivesse passado
    tão célere, tão descompassado,
    eu ainda teria cachos nos cabelos,
    e flores, emoldurando-os.
    Ouviria Lennon, junto a outros adeptos
    e sorriria, cheia de esperança
    em dias amenos…
    Se o tempo não fosse esse senhor implacável
    eu ainda teria tantos sorrisos, afagos…
    O que me aniquila é não aceitar
    o tempo tal como ele é.
    Belvedere
    Bjs, querido Marcelo.

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  12. Gina Soares12:53 AM

    To no manifesto.
    Jamais considero ler seus artigos perda de tempo…
    Adorei.
    Bj

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  13. Amigo querido, a falta de tempo, às vezes, tem algumas vantagens. Por exemplo, fiquei conhecendo este texto de 2006, escrito num tempo em que não o lia... Mas eu ando encucada com isso. Tenho procurado fazer o que fazia antes e não dá tempo. Estou de férias e pensando em tudo o que queria fazer e não vou ter t$mpo e tempo... A velocidade de informações gera uma aceleração em progressão geométrica de nossas ansiedades, toda a praticidade moderna nos faz mais ávidos a querer tudo mais e mais rápido...
    Um dos motivos de ter me mudado do centro para o pé da montanha foi isso. A cidade ficou mais longe, mas o verde que me acolhe na varanda de manhã já é um bálsamo.
    O texto é de 2006, incrivelmente atual. Será que o tempo parou nisso?
    Eu também gostaria muito de voltar a ter tempo de ter tempo...
    Um beijo e adorei o texto!

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  14. Oi Marcelo,

    Boa noite meu caro Cronista,

    Que delicia isso, me vi lendo com água na boca pensando naquele torresminho frito na hora, risoss... No sitio da minha família ainda se mata um porco assim, e quando vou pra lá a gente se diverte por demais, até esquece-se do tempo, o relógio parece que anda devagar, e o divertimento agradece...
    Mas ultimamente tenho pensado muito na velocidade do tempo, realmente estamos em outros tempos, o relógio anda mais acelerado, a gente não consegue dá conta do compromisso que antes a gente fazia bem mais devagar... Quem dera pudéssemos controlar nosso tempo.

    "Uma das grandes desvantagens de termos pressa é o tempo que nos faz perder."
    ( G. K. Chesterton )

    Adorei a crônica, pra mim continua recente e deliciosa de ler, não perdi tempo, acho que ganhei...
    Deixo um abraço!
    Ótima quinta!
    Passa La quando puder já atualizei.

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  15. Fábio Murilo11:51 PM

    A gente deveria deixar de envelhecer fisicamente aos 20, não ter doença alguma a vida inteira, nem uma dorzinha de cabeça sequer, nadinha. E um dia na rua, trabalhando, no meio de uma festa... desfalecer, como o apagar de uma lâmpada, morrer sem saber.

    http://apoesiaestamorrendo.blogspot.com.br/

    Leia Mais: http://nanquin.blogspot.com/2013/07/manifesto-pela-volta-do-tempo.html#ixzz2ahZDrR00
    Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives

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  16. Marcelo, desde quando ler você é perda de tempo? Deixa disso, meu camarada! Mas isso que você quer é facílimo: Basta parar de pensar, meu caro! Ou então de desejar! Meu abraço.

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  17. Maria Teresa Fornaciari11:56 PM

    Quero assinar o manifesto, Marcelo, como quero! Até os sonhos entram no embrulho e são obrigados a servir para alguma coisa útil no dia seguinte. Tempo carrasco. Agora, uma coisa que não deixo de fazer é parar um pouquinho pra ler você. Mesmo com o dedo do tempo em riste no nariz.
    Abração

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  18. Mara Narciso5:37 PM

    Ah, logo agora que eu estava gostando? Somos escravos do tempo devido ao relógio. Caso os jogássemos fora, haveria mais tempo?

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  19. slow life! um manifesto que não envelhece! fantástico e deprimente lê-lo na noite de domingo, já na ansiedade da apressada segundona chegando aí. abs

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