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A CLAQUE SE REVOLTA







Prosseguem em todo o país as passeatas e atos de protesto exigindo assistência médica para as claques de teatro, televisão, eventos e comícios.

Em Osasco, representantes dos movimentos reivindicatórios das claques foram saudados com aplausos pela população. Entretanto, alguns grupos de aposentados, que jogavam pega-varetas nas imediações, suspeitam que aqueles que aplaudiam seriam na verdade membros das próprias claques, numa demonstração forjada e fraudulenta de apoio. Confirmada a hipótese, teríamos o que se poderia chamar de claque da claque.

Polêmicas à parte, o fato é que os manifestantes distribuíram panfletos com as principais pautas do movimento, elencando os males a que estão sujeitos e contra os quais não contam com a mínima assistência:

. LER (Lesão por Esforços Repetitivos), ocasionada pelas sessões contínuas de salvas de palmas. Esta é a mais comum das moléstias enfrentadas pela classe.
. Afonia, provocada pelos gritos e exclamações nos programas de auditório, sendo os principais deles, por ordem de ocorrência: "ÊÊÊ", "Mais um" e "Lindooooooo". Esse esforço é redobrado sempre que a claque é incitada a abafar vaias. O que não é incomum nos quadros de calouros, em geral com transmissões ao vivo para todo o território nacional.
. Alergias diversas, em decorrência da infestação de fungos e bactérias nas mal-higienizadas poltronas dos estúdios de TV.
. Inanição. Alguns partidos políticos, por exemplo, alimentam suas numerosas claques de comício com apenas um croissant e um copo de limonada por pessoa, ao longo de jornadas que se arrastam por dezoito a vinte horas.

Além disso, o recrutamento informal de mão-de-obra e a não-regulamentação da atividade levam a expedientes abusivos, que comprometem inclusive o futuro do ofício. Por não mais que 99 centavos, qualquer cidadão leva para casa um CD coreano contendo um menu variado de palmas, urros, coros e gritos de guerra. Alguns desses CDs contêm até backgrounds de carpideiras aos prantos, para utilização em velórios. Ainda que o efeito desses templates vagabundos não se compare à performance de uma claque de verdade, o consumidor tende a preferi-lo, por aliar praticidade a um custo quase zero. Resultado: milhares de famílias à míngua e à margem da seguridade social, pelo desemprego em massa dos nossos queridos batedores de palmas.

A continuidade desta situação levará, certamente, a consequências desastrosas. Um dos participantes do protesto desabafa: "A claque existe desde que o mundo é mundo, e há relatos de sua decisiva influência na Roma Antiga como instrumento de manipulação das massas pelos imperadores. Teve ainda papel de relevo em importantes eventos no Coliseu e em festinhas privê do alto escalão - como a formatura do filho caçula de Nero, ocasião em que não menos de 600 claqueiros foram contratados para dar vivas à conquista do garoto.

Finalizando, afirmou que, caso não sejam atendidos em suas reivindicações, os claqueiros cruzarão os braços a partir do próximo dia 07. Já no dia 09, os manifestantes se dividirão em grupos de 50 pessoas para promover o que chamam de “Grande Vaião - 24 horas ininterruptas de vaias” dentro dos principais hospitais públicos do país.


© Direitos Reservados


Comentários

  1. Jorge Cortás Sader Filho11:45 AM

    Fala nesse assunto não. Fui aplaudir os médicos cubanos, no desagravo, e quase fui preso por assédio sexual, só porque na frente do grupo havia uma cubana linda. Tão me perseguindo, Marcelo!
    Dá uma ajudinha aí.

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  2. Clotilde Fascioni11:46 AM

    Clap,clap,clap, ótimo texto meu amigo. Abçs Marcelo.♥

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  3. Mara Narciso11:48 AM

    Não os espinhos, mas as palmadas do ofício dos claqueiros não são fáceis de suportar.

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  4. cristina siqueira11:49 AM

    Sempre ótimo !!!!!!!!!!!!!!! gosto muito...Lindo amigo,beijos

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  5. Carlos Edu Bernardes11:49 AM

    Os sábados sempre começam bem com os textos do Marcelo! Já é tradição! 4FABraços!

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  6. Arlete Gudolle Lopes11:50 AM

    Adoro os teus textos, Marcelo. Leio todos e, relapsa e sempre com pressa, arrependo-me sempre de não fazer comentários sob a postagem. Por aqui, é mais rápido. Um abração.

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  7. Antonio Carlos Antoniazzi12:57 AM

    Marcelo: Com todo o respeito às opiniões de terceiros, mesmo porque entendo (aqui falando na primeira pessoa do singular) que "as pessoas podem não apoiar as minhas ideias, mas devem apoiar o meu direito de expressá-las", não apoio quaisquer manifestações que venham a ferir os direitos de terceiros. E essas estão ficando muito comuns nos últimos tempos. De que prisma você vê esse assunto?
    Antoniazi.

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  8. Claudete Amaral Bueno12:58 AM

    Oi!
    Desculpe a ignorância do macaco, mas nunca ouvi a palavra CLAQUE.......
    Mesmo assim..... continuo sua fã!
    Abraços,
    Claudete

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  9. Muitas palmas pra você, amigo inventivo e divertido! Adorei!!!! Beijão.

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  10. Claudinha Almeida6:02 PM

    Olá Marcelo!

    Desde ontem, não consigo comentar em seu blog. Não abre o link de comentários.

    Então vai por aqui mêsss...

    Bom, gostei do texto como sempre e acho que com a moda das reivindicações bombando, no bom e no mau sentidos, a claque tem mais é que fazer o grande Vaião, e pode até terminar num grande Baião de dois, seja de comer ou de dançar... (Ai, ai, acho que esta minha foi fraquinha... rsrsrs)
    No mais, está de parabéns, como sempre. Beijos das montanhas de ipês!

    --
    .:: Claudinha ::.

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  11. Celia Rangel6:03 PM

    Hum... sei não... Estão alugando o Brasil, e importando tudo quanto
    > é mão de obra, pois os 'obreiros' daqui... não fazem mer...
    > nenhuma... Acredito que para a greve dos 'claqueiros' já
    > programaram a chegada de substitutos ainda que temporários, mas na
    > certa com direito a voto em 2014!!
    > Abraço,
    > Célia.

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  12. Mario Jacoud6:05 PM

    Dia 9, né? Estaremos lá, em apoio incondicional aos claqueiros. Em
    > hospitais, escolas, Câmaras, Assembléias, Senado, STF (na fala
    > levandosquiana) e, claro, no jogo do Palmeiras.
    > Abraço

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  13. Alessandra Leles Rocha6:09 PM

    Marcelo,
    obrigado por deixar o meu domingo bem mais interessante, através das suas ESPETACULARES considerações!!!
    Longe dos aplausos 'comprados' e totalmente impensados, eu o reverencio solenemente por seu talento e criatividade inquestionáveis!!!
    Com votos de uma excelente semana,
    Alê

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  14. Antonio Fonseca6:10 PM

    Não quero ter LER e nem ficar afônico. Por isso fico na plateia calado e sem bater palmas. Na cabeça uma mistura de palavrões impublicáveis.
    Estou indignado com os últimos acontecimentos.

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  15. Marco Antonio Rossi8:28 AM

    Obrigado!!!
    valeu
    portanto 1000 claqueteiros para te aplaudir!!!!
    clap,clap,clap............
    Rossi

    ResponderExcluir
  16. Giovana Ferreira8:30 AM

    Você estava inspirado no sarcasmo. Gostei muito! Ri muito!

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  17. Rita Lavoyer9:19 AM

    não consegui comentar no blog, não achei o campo do comentário, acho que desaprendi kkkkkkkkkkk enfim... abro os braços e aplaudo o manifesto !!! Que a claque continue craque no que faz k

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  18. Mara Narciso11:43 PM

    Do aplauso a vaia é um pulo. Os humores da população são instáveis, e o povo difícil de agradar. Gostei do termo "claqueiros". Uma nova profissão se avizinha. Palmas (verdadeiras) para o autor.

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  19. sua lavra genial não carece de claque pra ser aplaudida... abs... e o choro convulsivo dos norte-coreanos claquéticos quando o véinho maluco morreu!!!!!

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  20. Sandra Nogueira5:43 PM

    > aplausos Marcelo, sempre.As vaias vão para os serviços públicos e classe política.
    > abração
    > sandra

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