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AO MEU TATARANETO




Querido sei lá quem, sangue do meu sangue, obra de minha coautoria que leguei inadvertidamente à posteridade,

Espero que esta o encontre com saúde, se é que um dia irá encontrá-lo, e isso contando que você venha de fato a existir. Estava olhando umas fotos e de repente me pareceu interessante a possibilidade de comunicação entre mim, que há muito já estou morto, e você, que ainda está por nascer. São retratos da sua bisavó, desde os 3 meses até os 16 anos. Estão em porta-retratos de bronze, que enchem 2 prateleiras do meu escritório. Aliás, você não imagina o que essa veneranda senhora grisalha, de ares matriarcais e que seguramente implica com tudo aí na sua casa, vem aprontando agora que é novinha. Almoça e janta internet, algo que está para o seu cotidiano assim como o telégrafo está para o meu.

Talvez essas fotografias a que me refiro estejam aí no futuro, descoradas e quebradiças nos cantos, pegando mofo dentro de uma caixa de sapatos - embora essa seja uma forma de guardar recordações típica do século 20. Já os porta-retratos, é duvidoso que tenham atravessado gerações. Algum ascendente seu e descendente meu, mal intencionado ou mal das pernas, na certa há de ter transformado todo esse bronze em uns bons cobres.

São precisamente 23 horas e 17 minutos do dia 7 de julho de 2013. Os galos ainda cantam de manhã, 99,9% das pessoas têm que trabalhar duro pra sobreviver e até o momento não se têm provas definitivas da existência de seres extraterrestres. Muitos dos grandes dilemas da raça humana continuam insondáveis, como a vida após a morte, a influência dos duendes na pressão atmosférica e o que fez Ronaldinho amarelar na final da Copa de 98. Ainda não descobriram as curas da Aids e de todos os tipos de câncer. Mesmo passados doze anos, as pessoas guardam bem vivas as lembranças do atentado que derrubou as torres gêmeas de Nova York, em setembro de 2001.
Um assunto na ordem do dia é a clonagem. Em larga escala, entretanto, só existem as de cartão de crédito e placas de carro. Gerar clones com certeza é corriqueiro aí. As cidades todas devem ter lojas ou centros de clonagem, algumas até abertas 24 horas e com serviço de leva-e-traz. Aposto que nas casas de classe média proliferam forninhos que cozinham, assam, fritam, douram e clonam alimentos. Fico imaginando que maravilha para as donas de casa. Bife, por exemplo. É fazer uma vez e clonar para o ano todo. E se a moda pega isso vale pra tudo: Scotch 12 anos e caviar, inclusive. Uau! Expressão antiga essa, né? Até pra esse seu provecto tataravô isso soa velho.

É inverno, faz frio onde estou e escuto Os Tribalistas - um disco que já deve ter uns dez anos e que, espero, possa desafiar outras décadas e chegar também aos seus ouvidos. Quem sabe exista uma máquina aí em dois mil e oitenta e tanto, que viajando à velocidade da luz, possa voltar ao passado e trazer você aqui, de presente ao meu momento. De repente você pode até escolher este instante em que escrevo pra fazer isso. A propósito, que plataforma terá a escrita no seu tempo? Talvez já existam mixers de palavras e frases, eletrodomésticos que processem livros inteiros e em estilos diversos num passe de mágica. Mas não tenho esperança, não. Quando garoto, imaginava o ano 2000 com as pessoas movidas a foguetinhos autopropulsores e curtindo férias em Júpiter. Passamos por ele e nada de mais aconteceu, à exceção de algumas toneladas extras de fogos em Copacabana. Até o bug do milênio foi um fiasco, tão frustrante quanto a passagem do Cometa Halley, em 1986. O século 21 chegou e as roupas continuaram de pano, os carros continuaram saindo de fábrica com os motores a explosão da época de Henry Ford, o homem continuou sendo o que sempre foi: um tubo processador de cocô.

Vou ter que parar por aqui porque a campainha está tocando. Algo que agora não vai dar tempo de te explicar o que é. Ou melhor, o que era.



© Direitos Reservados


Comentários

  1. Deus do céu! Mais que crônica tão tudo de bem amarrada ao presente futuramente passado! Parabéns e um feliz dia dos pais ao Marcelo!

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  2. Marcela Romanin Sguassábia7:09 AM

    Pai… Rs…
    A primeira coisa que me veio à mente ao ler seu texto é: a bisavó seria eu? Se vc é o tataravô, a bisa sou eu! Então as fotos no porta-retrato de bronze são minhas! Há!!!
    Gostei muuuuito do texto, só fiquei triste com a possibilidade de vc só ter netos por enquanto, e gatos!!! :)
    Te amo muito, curti o texto!

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  3. Clotilde Fascioni7:10 AM

    Hahaha, muito bom, adoraria saber desse futuro também. O mais triste é saber que as mudanças básicas são muito lentas e mesmo após gerações e gerações tudo continua praticamente igual…
    Abraços Marcelo, e Feliz dia dos pais.

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  4. Marcelo7:10 AM

    Mano, aqui no futuro nós não nos preocupamos mais com o tempo até porque a pulseira do relógio quebrou e não temos a riqueza das nações para consertar. Adotamos a dieta dos Pandas e continuamos obesos. Quanto a queda de cabelo digo que continuamos calvos. Quanto ao membro viril ele diminuiu e aponta insistentemente para o centro do Planeta Terra. Quanto ao totô ele continua o mesmo companheiro inseparável e o único provedor de prazer. Conselho: seja feliz e viva a vida.

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  5. Claudete Amaral Bueno7:13 AM

    MUITO INTERESSANTE a sua imaginação!!!!! Gostei DEMAIS!!!!!!!!!!
    Só discordo de uma coisa que vc escreveu ao seu tataraneto: que até hoje permanece o enígma:
    Há vida depois da morte????? Meu Deus! Claro que há!!!!! Dois caminhos, na verdade!
    Sei disso, desde que nasci e, c/ 9 anos fiz m/ escolha e estou c/ a mala pronta p/ partir a qq momento,
    sabendo COM EXATIDÃO pra onde vou! Na maior tranquilidade! Sem sobressaltos!
    Espero que vc tb "descubra" o caminho.....a tempo!
    Um abração!
    Claudete

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  6. Marco Antonio Rossi7:15 AM

    meu querido amigo um otimo final de semana.
    tataraneto lembra família e assim me reporto ao tempo que era neto e sentava ao lado do VÔ na mesa do almoço/jantar, sempre em família e principalmente aos domingos.
    Coisa difícil de acontecer hoje, principalmente em FAMÍLIA.......
    abraço
    Rossi

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  7. Zezinha Lins7:19 AM

    Curti e muuuuito!!!! Parabéns!!!

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  8. Carlos Edu Bernardes7:19 AM

    Muito bom! Vai ver que na campainha era (ou é) ele.

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  9. Flutuei pelo espaço familiar de avós, bisavós e tataravós... Cheguei a conviver com meus bisavós... Era uma linda crônica familiar a cada encontro... 'causos e mais causos' eram contador por eles e, nós , os netos, bisnetos capetinhas... a tudo ouvíamos com incrível curiosidade. Hoje, no território familiar impera a tecnologia e afasta o sentimento, infelizmente... Difícil é a missão de congraçamento familiar! Novos tempos! Novos netos e bisnetos! Não planejo a vida de meus tataranetos... totalmente livres para com ela fazerem o que bem entenderem. The end.
    Bjs. Célia.

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  10. Alessandra Leles Rocha12:18 PM

    Oi, Marcelo!!!
    Como sempre: GENIAL!!!
    Tenha um excelente domingo (FELIZ DIA DOS PAIS) e uma semana mais e mais inspiradora!!!
    Abraços,
    Alessandra

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  11. Risomar Fasanaro3:12 PM

    Oi, Marcelo,
    Muito incrível pensar que um dia seu tataraneto irá ler este texto. Vai se deliciar com essas “novidades”…
    Beijos

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  12. Miriam Sales2:01 PM

    Bisneta já tenho,atrevida e ousada como a bisavó;se vierem os tataranetos ,espero q/ seus valores sejam os meus como liberdade,fidelidade a uma causa e distância de qualquer favor de governos constituídos;espero q/ as pessoas produzam livros em casa e mandem as livrarias,distribuidores e editores como eu p/ a p.q.p.
    Adoraria poder viajar no tempo e me pergunto:será q/ até lá teremos um Parlamento como o da Suíça?Ou,melhor,será que não teríamos governo?Porque,se tivermos,com anos – luz de antecedência ,te confesso,desde já sou contra.
    Bjks estelares

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  13. Maria Teresa Fornaciari2:23 PM

    Que delícia de texto!! Entre o lá e o cá, entre o ontem, o hoje e o amanhã, você fez piruetas cheias de ritmo e de música. Também adoro os Tribalistas que estavam tocando ao fundo.
    Parabéns, grande Marcelo!

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  14. Bell Pereira2:24 PM

    É sempre uma delícia ler suas crônicas. A leveza do texto nos remete a um tempo novo. Parabéns Marcelo. Grata por compartilhar conosco seus escritos.

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  15. Cristina Lerosa2:24 PM

    Delicioso....

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  16. Olá Marcelo,

    Belíssima cronica, recheada de Particularidade.
    Viajei nas asas da suas palavras.
    Muito bonita!
    Deixo um abraço!


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  17. Zezinha Lins4:53 PM

    Pc quebrado, agora um not novinho não vou mais deixar de vir aqui.
    > Estava com saudades dos seus textos. Dei boas rizadas lendo esta
    > carta e fiquei imaginando a resposta, mesmo que ela nunca chegasse
    > ao destinatário, claro. Mas como aqui, tudo é possível... Quem
    > sabe... Mais uma vez parabéns pela criatividade que tanto admiro.
    > Um abraço, amigo, Marcelo!!!!

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  18. José Hamilton Brito4:54 PM

    ainda bem que a campainha tocou, senão de tubo de produzir cocô, o
    > que mais vc poderia dizer. Affffffffffffffffffffffffffffffff

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  19. Jusciney Carvalho4:55 PM

    uauuuuuuuuu... que coisa mais gostosa de dizer, e tão antiga...
    > risos... mas, olha, eu adorei!!! Fiquei imaginando o quanto seria
    > difícil e engraçada alguém bem distante, fazendo a leitura dessa
    > carta... risos...
    > Parabéns, querido!! Beijão.

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  20. José Carlos Carneiro4:57 PM

    Você devia enviar o texto para os produtores de ficção científica que eles agradeceriam. E não deixe de designar parentes de gerações futuras para entregar uma cópia ao seu tataraneto ainda inexistente.
    Ótimo texto. Valeu, cara.
    Um abraço.

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  21. Celi Estrada5:52 AM

    Originalíssimo o conto!
    Celi

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  22. Maria Bonfá12:53 AM

    olá Marcelo..saudade imensa de te ler.. estive sem internet por
    > bastante tempo e de mudança..foi um caos.. adorei o seu texto.. me
    > fez pensar nos legados que deixaremos aos nossos
    > descendentes..quais serão os valores deles..já tão deturpados
    > hoje.. vc sempre me faz sorrir.parabéns..beijo

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  23. Antonio Fonseca2:35 AM

    É tudo ficção! Linda ficção!
    > A única coisa real é que somos um tubo processador de fezes.

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  24. Maria Adélia Horwath2:36 AM

    Parabéns! Amei o texto. A definição de Homem é a mais perfeita de
    > que eu tenho conhecimento...Como diria minha bisavó com seu sotaque
    > do leste europeu:ISSO MESMAAA...

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  25. Gina Soares7:43 AM

    Pensei sinceramente em deixar uma carta para minha neta,hoje com 1
    ano.... acho que tenho muito pra contar pra ela....
    Adorei!!!

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