Pular para o conteúdo principal

A HEROICA TRAJETÓRIA DE UM JORNAL






A um bom jornal compete informar, denunciar, ser voz e guardião dos justos anseios da comunidade. Até aí todo mundo concorda. Mas um jornal pode ter outros papéis. Bem menos nobres, é verdade, mas bastante oportunos dependendo da ocasião.

O fato é que um exemplar de jornal nem sempre tem comportamento exemplar. Não que ele se comporte mal – as pessoas é que geralmente se comportam mal com ele. E aí me refiro ao jornal como objeto de estranhas e incontáveis serventias, ou seja, ao que ele é capaz de se prestar depois de lido.

Marcador de livro, por exemplo. Prendedor de porta, tapa-goteira, embalador de copo em caminhão de mudança, aparador de vazamento de óleo no carro, tampa de panela, forro de casinha de cachorro e de gaiola de passarinho. Até pra cobrir defunto ele serve.

E que dizer daquela sua tia-avó, que faz o coitadinho de leque durante aquela visita rápida de 7 horas e meia em pleno sábado?

Acender fogo de churrasqueira é outro emprego comum. O primeiro caderno você encharca de álcool, o segundo você usa para abanar o braseiro.

Alguém leva o jornal para a mesa do escritório, ao lado do telefone. Pronto. É o que basta para que o abnegado matutino ganhe indecifráveis rabiscos. Anotações de telefones, endereços de sites e e-mails, rubricas, declarações de amor e até receitas de bolo anotadas em suas margens. Há os que prefiram preencher com caneta ou lápis as letras “O” das manchetes e subtítulos, enquanto em intermináveis conversas com a namorada.

Atire a primeira pedra quem nunca usou um jornal dobrado em oito pra servir de calço de mesa. Lembro do tempo de faculdade em que morava sozinho, numa quitinete. Meu calço era um José Sarney com bigodes ainda negros, então no auge da popularidade com o redentor “Plano Cruzado”. Nunca tive alguém tão poderoso aos meus pés, servindo-me gratuitamente durante anos.

E quando tem serviço de pintura em casa? O pintor chega de manhãzinha e, com ele, o aguardado jornal. Ele pede jornal velho pra forrar o chão. Velho não tem. Só o do dia, que você ainda não leu. Por eliminação, você fica com as partes das notícias, artigos, crônicas e classificados. E entrega a ele os balanços de empresas, editais de convocação, avisos de licitação e os obituários. Pronto, já dá pra ele se divertir enquanto você devora o que mais interessa. Na varanda ou no quintal, evidentemente, porque não dá pra suportar nem o cheiro da tinta nem o pagode que ele assobia.

Há de convir o leitor que é de praxe o jornal do fim de semana – ou o que restou dele – pernoitar de domingo para segunda no sofá da sala. E segunda é dia que a faxineira vem. Espana pó aqui, limpa azulejo ali e eis que o ás da piaçava vê um ser rastejante entre a copa e a cozinha. Corre pra sala, passa a mão no jornal e Paf !. Errou. Outro Paf. Quase. Mais um, uhhhh por pouco. Até que acerta na mosca, quer dizer, na barata. As vísceras da bichinha se estendem por todo o terceiro parágrafo das notas policiais. Lá vai o jornal amigo para a lixeira da lavanderia. A escala ali é de umas poucas horas para então cair no sacão preto do lixo do quintal, em meio a toda sorte de resíduos, orgânicos ou não.

No dia seguinte o jornal é recolhido, vai para reciclagem e volta para a porta da sua casa em forma de outras notícias, todas extremamente desagradáveis: os boletos de conta de água, de luz, de telefone. É quando você amaldiçoa o mandatário supremo que aparece todo dia no jornal. E sente até saudade do Sarney, estimado calço do pé da mesa.


© Direitos Reservados


Comentários

  1. Claudete Amaral Bueno12:14 PM

    Oi!
    Vc se esqueceu de uma grande utilidade do jornal...(lembrança de infância da casa de m/ tia, esposa de Porfírio Valim,
    muito conhecido em S.João da Boa Vista!)
    Ele ia, bem cortadinho em quadrados, p/ servir à gente....no banheiro!!!! (ou melhor, na fossa!)...rssssssss
    Mas...gostei mto das inúmeras utilidades do jornal! Antigamente, se usava tb p/ embrulhar coisas na "venda"!!!!
    Lembranças de gente antiga! rsssssss
    Bom final de semana!
    Claudete

    ResponderExcluir
  2. Alessandra Leles Rocha1:49 PM

    Marcelo,
    dizer o quê?! Apenas: SENSACIONAL!!!
    Parabéns por mais uma gota de genuína criatividade e talento para escrever!!!
    Tenha um EXCELENTE fim de semana!!!
    Bjos. Alê

    ResponderExcluir
  3. Sonia Alcalde2:34 PM

    Ótima crônica, Marcello. Como sempre.
    Lia e não encontrava a famosa serventia - mata mosca/ou barata. Qual o quê, lá estava no penúltimo parágrafo.
    Posso acrescentar: preenche frestras de janela nos friiios do sul; in natura, como cobertor de pobre ou serve como enchimento para acolchoados; espirrar com o cheiro da tinta...
    Abs,
    Sonia Alcalde
    Bagé

    ResponderExcluir
  4. Jusciney Carvalho7:22 AM

    Maravilhosa a sua crônica. Precisa publicá-la no jornal de domingo, o mais lido.... Parabéns!

    ResponderExcluir
  5. Silvia Aguiar7:22 AM

    Parabéns , Marcelo , por toda cultura que emana....

    ResponderExcluir
  6. Clotilde Fascioni7:26 AM

    Oi, vc esqueceu dos tradicionais embrulhos de peixe e camarões feitos de jornais e que ao chegar em casa com os devidos pacotes ainda dá umas “pescadinhas” nas noticias molhadas cheirando a maresia, velhas ou não. Abraços meu amigo Marcelo. Bom fim de semana. E viva a Independência!

    ResponderExcluir
  7. Rosa Pena7:26 AM

    eu rindo aqui… Sarney calço de mesa é um final brilhante pra trajetória.Marcelo, estou com a casa pintando e me achei geral em “Por eliminação, você fica com as partes das notícias, artigos, crônicas e classificados.”….beijos mil

    ResponderExcluir
  8. Jorge Cortás Sader Filho7:27 AM

    Exatamente todas as funções que um bom jornal pode desempenhar vem descritas pelo Marcelo. Além de ler as notícias, claro.

    ResponderExcluir
  9. Risomar Fasanaro7:27 AM

    Dise tudo, Marcelo…Adorei! Beijos

    ResponderExcluir
  10. Risomar Fasanaro7:28 AM

    Corrigindo: disse ( não deu tempo de corrigir na mensagem).
    Abraços

    ResponderExcluir
  11. Quando era seu companheiro de página n'O Municipio, um amigo, o Cuaiada, sapecou: "tava no sítio, perto do paiol, e a dor de barriga veio fulminante... peguei sua crônica pra limpar a minha bunda"... acho que foi a maior utilidade para um texto meu. abs

    ResponderExcluir
  12. Marco Antonio Rossi1:59 PM

    Bom dia, bom final de semana!!!
    bom mesmo é fazer as palavras cruzadas, resolver os sete erros e acertar as charadas.......
    O de domingo ainda serve para proteger vidros em mudança e de cama de cachorro no frio.......
    abraço
    Rossi

    ResponderExcluir
  13. José hamilton2:34 PM

    Mas nao disse tudo mesmo. Pera, vou ler de novo.
    Não falou mesmo.
    Tem gente que,pacientemente, corta o jornal em pequenos retângulos ou mesmo quadrados. Faz um buraco numa das extremidades, enfia em um arame curvado e coloca no banheiro para limpar o….o….óculos.
    Em fazendas, naqueles banheiros de buraco, quebram o galho. Dizem que… ….que…que óculos de peão não vê diferença

    ResponderExcluir
  14. Zezinha Lins2:36 PM

    Também já ouvi dizer que, com álcool, serve para limpar vidros, nunca fiz isso, não sei se dá certo. O jornal então além de cumprir o seu “papel”, ainda tem mil e uma utilidades. Muito bom, Marcelo!!! Um abraço!!

    ResponderExcluir
  15. Há há há ! Quantas utilidades ainda tem o jornal. Zezinha Lins, já fiz isso, passar jornal no espelho com álcool, o álcool tira as letras pretas do jornal e mancha a mão da gente! há há !
    Abração em todos !

    ResponderExcluir
  16. Maria Inês Prado2:50 AM

    MUITO BOM O "SEU JORNAL". COMO NOSSAS IDEIAS SE CRUZARAM, LEIA O "JORNAL NOSSO DE CADA DIA" - PUBLICAÇÃO EM 7/9/13 - EDIÇÃO EXTRA

    ResponderExcluir
  17. Gina Soares8:01 AM

    1001 utilidades!!!! rssss
    Adorei

    ResponderExcluir
  18. Achei estranho você não ter citado o uso do jornal como papel higiênico. No tempo em que trabalhei em construção civil ele era de uso comum nos banheiros. No mais o texto está legal, querer que você lembre de tudo é querer demais. Meu abraço.

    ResponderExcluir
  19. Paulo Braga Silveira1:54 AM

    Muito bom, Marcelo... Um orgulho para nós as suas matérias!!

    ResponderExcluir
  20. Antonio Fonseca2:15 AM

    Eu também, no decorrer da leitura, imaginei que você falaria do uso dele como papel higiênico. E me lembrei de um colega de trabalho que quando tinha que colher fezes para exame, defecava sobre uma folha de jornal (possivelmente na cara do Sarney ou do Aécio ou do Zé Dirceu – ou seria da Dilma?), para depois, com aquela pazinha que vem no recipiente, pegar como se pega um sorvete, e introduzir no vidrinho de plástico.
    Eca! Que nojo!
    Infelizmente jornal, também, serve pra isso.

    ResponderExcluir
  21. Meu caro amigo Marcelo! Adorei!!!
    Olha que mesmo com tarefas menos nobres, há grandessíssima importância para cobrir um corpo... Senão ninguém cantaria: "Tá lá o corpo estendido no chão, em vez de rosto a foto de um gol"... E ainda, na nossa infância, quem poderia cantar o Jingle Bells, acabou o papel??? Ora, além de muito bem escrito (como é de costume aqui), seu texto é uma grande homenagem ao nobre e indispensável jornal!!!
    Beijão!

    ResponderExcluir
  22. Antonio Fonseca5:41 PM

    Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  23. Maria Teresa Fornaciari5:43 PM

    > Pena que essas utilidades todas vão sentir falta dele logo mais...
    > Pelo menos, hoje, fora os cadernos e anúncios, o resto está
    > fininho, quase transparente, deixando ver o ipad descansando com
    > cara atrevida do outro lado. Abração.
    >

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…