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TESTAMENTO DE HYPÓLITO RUFINO PEIXOTO






Eu, Hypólito Rufino Peixoto, no gozo de meus direitos e de minhas plenas faculdades mentais, com o intuito de coibir litígios e desavenças acerca do meu espólio, venho de livre e espontânea vontade, por meio deste instrumento, deixar disposta a partilha a meu gosto, conforme abaixo descrito.

À Justina, companheira abnegada e fiel em minha longa enfermidade, deixo uma imensa gratidão, todo o meu afeto, o São Francisco de gesso que fica no corredor, o monóculo com a Nossa Senhora Aparecida, a certidão de casamento e o retrato da lua-de-mel em Poços de Caldas.

Ao meu cunhado Leléu, tido e havido nesta terra como um burro pronto e acabado, deixo minha sela e respectivo arreio, que lhe cairão bem sobre o lombo. À minha irmã Cinira, que gastou a vida a serviço desse viciado em truco, lego rédea e um par de esporas, já que um burro com livre arbítrio é a pior das ameaças à sociedade organizada.

À minha sogra, junto a quem tenho tantas dívidas morais e espirituais, transmito também as dívidas materiais – as já vencidas, as presentes e as que doravante venham a surgir em meu nome, seja como compromissário ou como avalista.

Não abandonarei à própria sorte aqueles que as más línguas chamam de “frutos de união carnal espúria”, ou seja, os bastardinhos que espalhei por essas plagas. Saibam todos que o seu genitor não lhes negará o amparo e o devido quinhão, ainda que hipotecado, na forma de um alqueire e meio de capim-napiê (Pennisetum purpureum), cultivados no sítio.
O celular pré-pago, juntamente com os R$ 4,36 de crédito remanescente, fica para meu capataz Onofre. Uma liberalidade de minha parte para recompensá-lo pelos valorosos préstimos ao longo de 38 anos. Ele que ouviu de mim tantos desaforos, xingamentos intempestivos e acusações levianas, agora merece falar um pouco.

Quanto ao aquário da sala, alvo certo de acirrada disputa, proponho aos herdeiros que amigavelmente se dêem mútua quitação da seguinte forma: Justina fica com os peixes ornamentais, Cinira com a bombinha de ar, Onofre com o filtro, Leléu com o recipiente de vidro e os bastardos com os pedriscos que ficam no fundo.


OUTROS BENS E HAVERES

Suínos e bovinos
Três gomos de linguiça (de procedência insuspeita e com carimbo do SIF), dois quilos e meio de carne de segunda e mais meia panela de coxão duro duplamente moído, que estão no gavetão de baixo do freezer. Façam disso o melhor e mais rápido proveito que puderem.

Aplicações
Inseticidas, fungicidas e fertilizantes devem continuar sendo aplicados na minha hortinha de almeirão e couve, à proporção de 1:1000. O pulverizador encontra-se na tulha, e não compõe este testamento por estar com a tampa do tanque girando em falso.

Ações
Tanto a ação de despejo, da qual minha família será vítima devido aos aluguéis atrasados, quanto as ações trabalhistas, provavelmente a serem movidas pelo Onofre e seus subordinados, deverão ser administradas pelo meu advogado – que para tanto será regiamente remunerado pela providência divina, em encarnação vindoura.

Grãos estocados em minha propriedade
Uma embalagem de milho para pipoca da marca Yoki, com prazo de validade a esgotar-se em 25 do corrente.
Um tupperware rachado transversalmente, acondicionado em geladeira, contendo feijão preparado na véspera da elaboração deste documento.
Ambos os bens serão partilhados igualmente entre meus herdeiros, legítimos e ilegítimos, em frações ideais de 1/35 (um trinta e cinco avos) para cada um, com escritura definitiva lavrada e registrada em cartório.

Coleções
Todos os meus gibis, do Carlos Zéfiro e do Cebolinha, as Seleções do Reader’s Digest de 1945 a 1961 e os Almanaques do Biotônico Fontoura deverão ser catalogados por bibliotecário habilitado e experiente. Em seguida, esse rico acervo deverá compor a “Fundação Hypólito Rufino Peixoto”, entidade que terá como missão o fomento cultural em nossa região.

Por fim, meu último porém não menos valioso bem: Edileuza, enteada do Zózimo da botica. Teúda e manteúda desde as quartas-de-final da Copa de 70, com casa montada e conta no armazém, não pode ficar à míngua de uma hora para outra. Todos os meus demais pertences, aqui não arrolados, passam com o meu falecimento às suas mãos.

Perdão, Justina, pela fabulosa e imerecida galharia que fiz brotar em sua cabeça, mas não soube refrear os meus instintos frente a tão roliça criatura. Agora está tudo às claras, não há mais nada a esconder. Mas assim como não se chuta cachorro morto, também não se estapeia defunto, Justina. Releve e viva em paz o resto dos seus dias.

© Direitos Reservados


Comentários

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Marco Antonio Rossi6:04 PM

    Bom dia e um ótimo final de semana!!
    Com esse testamento, é bem capaz de ser recebido de braços abertos, no fundo do caldeirão fervente......
    Abraço
    Rossi

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  3. Jorge Cortás Sader Filho6:07 PM

    Parece que o Marcelo tirou este trecho do Anais da Câmara dos Deputados, em tempos que Severino presidia o “baixo clero”. Não, não é plágio. Apenas questão de mera coincidência.
    Abraço.
    Jorge

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  4. Zezinha Lins6:08 PM

    E assim, Hipólyto descansa em paz, tirando a paz dos seus entes queridos, Mas depois desse testamento a recíproca não será verdadeira. Muto bom, Marcelo!!!!! Um abraço, amigo!!!

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  5. Clotilde Fascioni6:08 PM

    Ainda bem que não sou herdeira do Hipolyto, credo! Adorei Marcelo. Abrcs

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  6. Gina Soares6:09 PM

    Qualquer semelhança com fatos da vida real, não será mera coincidência….
    Excelente!!!

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  7. José Hamilton Brito6:09 PM

    Você por certo conhece um tal de EU LíRICO….não,.não é.
    Nada a ver.

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  8. Um testamento porreta, Marcelo, muito parecido com o meu, que é nada vezes nada a favor de ninguém. Meu abraço.

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  9. Celia Rangel6:15 PM

    > Em tempos de manifestos, até que esse espólio está dentro do
    > contexto das verdades que vêm à tona... Ressalvas à Justina que,
    > com sua "galharia", deve ter sofrido uma enxaqueca daquelas...
    > Quanto ao Hypólito Rufino, que se rufem os tambores com um
    > sonoro... já vai tarde...
    > [ ] Célia.

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  10. Claudete Amaral Bueno6:37 PM

    Esse Hypólito era bom mesmo, né? Bom de bico!

    Só vc mm, Marcelo...pra bolar esse personagem!!!!!!

    Bom FDS......Um abraço!

    Claudete

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  11. José Carlos Carneiro6:39 PM

    Tenho minhas dúvidas se um médico lúcido assinaria tal óbito e se um cartório idôneo registraria tal testamento. Por outro lado, independentemente das formalidades legais e burocráticas, a partilha de bens pareceu-me suficientemente fundamentada.
    Um abraço.

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  12. Meu God. Essa criatura será lembrada em vida, todos os dias vivos dos que acabaram de morrer, ao ter acesso ao belo testamento... adorei, Marcelo! Beijo.

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  13. Não??? gozador até na última esperança esse Hypólito! acho que o Céu precisa de um personagem desse. Vá Com Deus, Hypo!

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  14. Meu caro amigo Marcelo... Vejo que anda fazendo testamentos agora. Bem, deve dar um bom dinheiro. Diante do exposto, percebo que é mais vantajoso ganhar a vida como teúda e manteúda. como nos bons escritos de Jorge Amado. Pobre Justina que comeu a carne e roeu os ossos... Edileuza agora pode curtir sua herança em outros lençois, por exemplo os maranhenses, hehehe. Um beijo!

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  15. Luciana Sleiman12:20 AM

    SUas crônicas são sempre um alento para as vindouras Segundas-feiras! BJos

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  16. Clauduarte Sá12:21 AM

    Parabens por mais uma bela e bem humorada cronica.

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  17. Leda Valéria Suppa Basile12:22 AM

    Também adoro suas crônicas!!

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  18. Antonio Fonseca12:24 AM

    Aqui se tem o verdadeiro contraste.
    De um lado a riqueza literária do amigo Marcelo, e do outro a pobreza dos bens móveis, imóveis e sentimentais desse Hipólito Rufino Peixoto. Mas em matéria de inventário, só se reparte aquilo que se tem.
    Parabéns Marcelo!

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  19. Mara Narciso12:27 AM

    Humor-negro de alto escalão, do começo ao fim. Injustiças do morto, justiça ao morto e ao autor: para rir não se gasta dinheiro. Bom demais!

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