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Mostrando postagens de Novembro, 2013

NECRÓPOLE NEWS

VENDO JAZIGO LINDO DE MORRER Vista privilegiada. De frente para o mausoléu dos três anjinhos barrocos (família Ponce de Lutierre), sol da manhã, bela área de jazer para descanso eterno. Capelinha com varanda e gavetas com capacidade para 16 defuntos em decomposição simultânea. Financiamento CEF - Caixão Econômico Federal, em 30 anos, com recursos do Programa "Minha cova, minha vida".
GALINHA MORTA NO CEMITÉRIO DE ANIMAIS. SÓ HOJE! Na quadra dos tamanduás. Lugar tranquilo, floricultura a 50 metros. Morra perto de tudo o que você precisa. Visite decorado, confira as facilidades e feche negócio antes que seja tarde demais.
ALÇAS DE CAIXÃO SOBRESSALENTES Para aqueles entes queridos mais queridos que a média. Não deixe faltar alguns pares a mais, especialmente para os advogados que chegam ao velório doidos para pegar, além da alça, o inventário do finado. Disponíveis em bronze e prata maciça.
e-PÊSAMES Com o corre-corre do dia-a-dia, é impossível estar em vários enterros ao mesmo tempo…

ALEXANDERPLATZ

I

Me diz: quando é que eu ia imaginar topar contigo em Berlim, se na 
minha cabeça aquele você de ontem, com gosto  amanhecido de cerveja e 
de preguiça, ainda estava lá onde havia te deixado, montando cavalo 
de carrossel e de aparelho nos dentes? Como é que pode me aparecer 
assim, sem me dar chance de aparar a barba, re-nata de sítio extinto?


II

Meio fêmea-fúria, meio mulher-nirvana, contigo no carro roubado. A 
cada troca de marcha a minha mão roçando o vestido, do joelho para a 
coxa. Sentia que te levava às nuvens que inexistiam no céu daquele 
dia, doida varrida envolta em pouca vergonha. À falta de boas moitas, 
ia no acostamento mesmo, o sol sem pena fervendo a lata. A carne 
exposta. O almíscar vencido.

III

Brincou comigo, te encontrar tão fora de contexto. Alta, linda, 
senhora da vida. Sem lembrança nenhuma da mão boba do câmbio e dos 
cavalos do parque. Agora, os dois defronte, querendo se livrar da 
falta do que dizer. E o teu quase sorriso, de esquálido protocolo, 
feri…

O NÃO SER

Eu sei que foi mais ou menos desse jeito, querendo jogar uma água sanitária no mofo acumulado, que saí pra rua sem rumo nenhum. Pensando em não pensar em nada, só ouvindo um ou outro estalinho de graveto no caminho e deduzindo: isso é um estalinho de graveto no caminho. Eu sei que a intenção era boa e honestamente me empenhei, mas ao primeiro graveto estalado me chega sorrateiro o chato interrogativo e suas vãs divagações. E me fala do abismo entre a finitude do ser e a infinitude do tempo/espaço, diz que é da natureza humana colocar termo, ordem e dimensão a tudo. Argumenta sobre o cabimento, pois tudo há de “caber” em ensaios demonstráveis. Eu sei do inapelável desalento desse ponto de vista. Considerando-se que a vida seja mesmo uma só, ela é um ridículo intervalo entre a eternidade que passamos não sendo e a eternidade vindoura onde continuaremos a não ser. Ao invés de seres, na verdade somos “não seres”, a não ser por algumas décadas. E tem gente que não aproveita essa rara exceção…

O LIVRO DOS SEGREDOS DO TACO

O título da obra, ao contrário do que o senso comum poderia supor, não é uma compilação de receitas baseadas na iguaria mexicana. Muito menos trata-se de um manual de regras e jogadas ensaiadas daquele jogo de rua, tão comum nos anos 60 e 70. Temos aqui uma publicação única e de valor incalculável, através da qual a humanidade finalmente tem acesso a um dos mais impenetráveis mistérios de todos os tempos: a 12ª profecia de Mazzaropi, tida como perdida há muitas décadas, a despeito das inúmeras expedições empreendidas por arqueólogos do mundo inteiro a Taubaté, onde o genial caipira passou boa parte da vida.
Deu-se a descoberta por acaso, com um golpe de picareta no chão da casa em que vivia o ilustre cômico. A residência passava por uma reforma geral, e a equipe que removia os tacos do living para trocá-los por carpete de madeira descobriu, cuidadosamente acondicionado abaixo de um deles, o precioso documento dobrado em oito, assinado e autenticado por Mazzaropi no ano de 1967. Isolada…

COMPANHEIRA SOLITÁRIA

Cumprida a pena de 35 anos na solitária, pelo assassinato coletivo de 48 velhotas cambojanas, Emiliano Skud, também conhecido como O Perverso do Marrocos, surpreendeu a mídia mundial com a insólita decisão de não abandonar seu cubículo escuro.
“Por estranho que possa parecer, a solidão me proporcionou encontros memoráveis”, disse ele, comunicando-se de dentro da cela para uma multidão de repórteres com os ouvidos grudados à porta. “Fui finalmente apresentado a mim mesmo, e não estou disposto a abrir mão do autoconhecimento que ganhei nesses anos todos. Nos primeiros tempos, cada risquinho que fazia mentalmente nas paredes do meu cérebro eram os dias já vencidos cumprindo pena. Depois, esses mesmos risquinhos ganharam outro significado. Passaram a ser os dias ganhos nos meus mergulhos interiores de regeneração. Foram momentos de proveitoso tédio, que jamais serão esquecidos.A vida devassa que levei e os crimes que pratiquei nada mais eram que tentativas de fugir da minha verdade e ouvir…