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ALEXANDERPLATZ




I

Me diz: quando é que eu ia imaginar topar contigo em Berlim, se na 
minha cabeça aquele você de ontem, com gosto  amanhecido de cerveja e 
de preguiça, ainda estava lá onde havia te deixado, montando cavalo 
de carrossel e de aparelho nos dentes? Como é que pode me aparecer 
assim, sem me dar chance de aparar a barba, re-nata de sítio extinto?


II

Meio fêmea-fúria, meio mulher-nirvana, contigo no carro roubado. A 
cada troca de marcha a minha mão roçando o vestido, do joelho para a 
coxa. Sentia que te levava às nuvens que inexistiam no céu daquele 
dia, doida varrida envolta em pouca vergonha. À falta de boas moitas, 
ia no acostamento mesmo, o sol sem pena fervendo a lata. A carne 
exposta. O almíscar vencido.


III

Brincou comigo, te encontrar tão fora de contexto. Alta, linda, 
senhora da vida. Sem lembrança nenhuma da mão boba do câmbio e dos 
cavalos do parque. Agora, os dois defronte, querendo se livrar da 
falta do que dizer. E o teu quase sorriso, de esquálido protocolo, 
feria o meu desajeito. Estátuas em Alexanderplatz.



© Direitos Reservados


Comentários

  1. Ufa, fôlego suspenso! Em nada estatuetas de ontem... O "muito do hoje" revive mentes e mãos espertas como nunca! E, dizer pra quê? Entre a teoria e a prática, essa última vale muito mais!
    Abraço.

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  2. Das lembranças e memórias mais absurdas e surreais. Um abraço, meu querido, sem almíscar vencido.

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  3. UAU! Uma situação de tremer a carne, envolver a alma e surrupiar toda a confiança que se formou em anos...
    Amei, imaginei a cena. Ela de vestido vermelho (claro) e ele jeans e camiseta branca, despojado. Mas , embora estátuas, atentos aos pombos, armadilhas da vida, para que não lhes manchem a roupagem...
    Ótimo, meu amigo! Beijos!

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  4. Jorge Cortás Sader Filho11:06 PM

    Situações quase sempre muito embaraçosas que a vida nos prega sem estarmos preparados. O melhor é mesmo se entender com a Renata.
    Abraço.
    Jorge

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  5. Clotilde Fascioni11:07 PM

    Você me fez recordar minha visita à Berlin.
    Abraços Marcelo e bom domingo.♥

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  6. José Hamilton Brito11:07 PM

    situação embaraçosa….manda um monte pra mim

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  7. Rita Lavoyer11:08 PM

    Marcelo, não consegui acessar o seu blog consoantesreticentes. Não vivi uma cena parecida kkkk mas já assisti a muitas kkk, li também, mas a sua forma de separar as situações foi ótima, melhor do que as cenas assistidas e outras leituras.

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  8. Rosa Pena11:08 PM

    Vivi uma situação muito parecida no museu de cera frente a frente com Steve_McQueen. O cara é ( nesse contexto, rs) muito gato/ beijos/ adorei

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  9. André Albuquerque11:15 PM

    Dessa vez, você botou pra arrombar, como dizem por aqui.Direto,na jugular.Lírico .Lembrei de Berlim Alexanderplatz, de Alfred Dobbin, filmado por Fassbinder para a TV alemã ,nos anos 80 e exibido pela finada TV Manchete.Abraço.

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  10. Claudete Amaral Bueno11:20 PM

    Muito bom texto, Marcelo! Como sempre, PARABÉNS!
    Abraços,
    Claudete

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  11. Edson Maciel11:21 PM

    Obrigado pelo texto Marcelo.

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  12. Marco Antonio Rossi11:23 PM

    Meu amigo, espero que tenhas um otimo final de semana chuvoso.
    quanto a cronica de hoje, profunda,não???
    Valeu!!!
    Abraço
    Rossi

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  13. Antonio Fonseca12:48 AM

    Cine Brasil – Praça Sete – BH, antes da reforma. Entrei sozinho para ver um filme. Saí acompanhado e nem sei que filme estava passando.
    São as oportunidades que a vida nos dá.

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  14. Mara Narciso12:14 PM

    Na falta do que dizer, até que disse o suficiente. Bons momentos foram aqueles prazeres incompletos!

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  15. josé Carlos Carneiro3:17 AM

    Prova inequívoca de que realmente você é um exímio praticante do nonsense verdadeiro.
    Um abraço.

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