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Mostrando postagens de Setembro, 2014

O CHULÉ NOSSO DE CADA DIA

Public Domain Image

O chulé anda escasso, e não é de hoje. A culpa não é do governo, nem da sociedade organizada, nem dos anões inadimplentes e muito menos dos ambientalistas. Estes últimos, inclusive, há tempos vêm alertando que, se nada for feito, tudo o que nos restará será o mortal oxigênio. Alguns são mais pessimistas e dão o jogo por perdido, afirmando que agora é tarde e já não há mais nada a fazer, a não ser esperarmos, conformados, a morte por sufocamento.

Os bancos de chulé, quem diria, estão exalando lavanda, com a triste falta de doadores. É desanimador, mas compreensível. Quem, em sã consciência, vai renunciar a uma cafungada profunda na meia podre para doá-la a quem mais necessita? Ainda mais sabendo que a chance de ver o próprio elixir fedorento sendo desviado para contrabando é sempre muito grande...

Junto com o contrabando, seu irmão mais perigoso: o tráfico. Mais do que o crack, o ecstasy e a coca juntos, o estrago causado pelas quadrilhas de chulé é apavorante. Se até …

ANGU À MODA DE DALI

Ah, como foi flácido o fluir dos flocos de nuvens pagãs, ficar de joelhos e estalar artelhos dentro da redoma. Quis um cafuné despido de intenção para comer com pão no café da manhã. Mas não estava são, como nunca estarei - apenas maldizia em régua derretida e compasso de espera.
A cara metade a léguas daqui. A cara metida em downloads de lá. Teimo rabiscando sem mãos a medir nem pés a amparar, mesmo sabendo que nada restará exceto o jasmim de raras consoantes. Brancas, fofas, sem serifas que machuquem. Caem flutuando no texto e deixam-se ficar, sem mais o que fazer e dóceis de lidar.
Que nada, quimera, que sina, pintassilgos de resina nessa piscina de esperanto. Regrido aos idos das lascadas pedras, desvãos, lodos e escaninhos por toda a inadequada geografia. Acesso de riso no acesso da estrada, recém-asfaltada com pasta de anis e raspas de misericórdia.
É quando, de repente, tudo passa a destoar de Dostoievski. Incensa e chora, lamenta e geme. À beira do Sena, a chanson se esvai em ac…

VASCAÍNA

Na capitania hereditária de Vasco Herculano Machado do Aleijão aconteciam coisas um tanto esdrúxulas. A greve dos sacis, reivindicando fumo de boa procedência para seus cachimbos, talvez seja a ocorrência mais conhecida, pela repercussão alcançada nos pasquins da época. O levante resultou, inclusive, na intervenção da Coroa Portuguesa para aplacar os exaltados ânimos dos Pererês, reunidos aos milhares em ruidosas passeatas sobre uma perna só.

Mas o incidente está longe de ter sido o único a merecer nota nos anais da história. Muito provavelmente, o maior de todos os rebus já registrados naquelas plagas coloniais se deu quando a referida capitania teve finalmente de tornar-se hereditária - por ocasião da
morte de seu donatário, o tal Vasco. A faixa de terra, que se estendia do litoral até a linha de Tordesilhas, era para o herdeiro um pepino maior que a Faixa de Gaza dos dias de hoje.

Financeiramente deficitária e atacada pelos índios caxinauás a cada oito dias, a extensa tripa era um mat…

DE MARCA MAIOR

O que será que faz o M do Mc Donald's, a curvinha da Nike, o jacarezinho da Lacoste serem o M do Mc Donald's, a curvinha da Nike e o jacarezinho da Lacoste? Na busca de uma resposta, homens de marketing divergirão de sociólogos. Que não necessariamente terão as mesmas convicções dos filósofos, cujos argumentos jamais convencerão os religiosos, que inspirados em seus dogmas travarão discussões acaloradas com os cientistas políticos. A celeuma se aprofundaria, ganharia a mídia e se transformaria num grande fórum de debates, certamente com o patrocínio da Coca-Cola, da Vivo ou da Volkswagen.

O fato é que as marcas estão aí, colossais e reluzentes, explícita ou subliminarmente a fincar suas bandeiras nas frágeis massas cinzentas.
Tenho um amigo, publicitário, que arranca todas as etiquetas visíveis de suas roupas. Entende ele que essa é uma forma de propaganda e, até onde sabe, jamais será remunerado pela veiculação. Então, tesoura nelas. Nem bem saem das lojas e as roupinhas de gri…