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ANGU À MODA DE DALI



Ah, como foi flácido o fluir dos flocos de nuvens pagãs, ficar de joelhos e estalar artelhos dentro da redoma. Quis um cafuné despido de intenção para comer com pão no café da manhã. Mas não estava são, como nunca estarei - apenas maldizia em régua derretida e compasso de espera.

A cara metade a léguas daqui. A cara metida em downloads de lá. Teimo rabiscando sem mãos a medir nem pés a amparar, mesmo sabendo que nada restará exceto o jasmim de raras consoantes. Brancas, fofas, sem serifas que machuquem. Caem flutuando no texto e deixam-se ficar, sem mais o que fazer e dóceis de lidar.

Que nada, quimera, que sina, pintassilgos de resina nessa piscina de esperanto. Regrido aos idos das lascadas pedras, desvãos, lodos e escaninhos por toda a inadequada geografia. Acesso de riso no acesso da estrada, recém-asfaltada com pasta de anis e raspas de misericórdia.

É quando, de repente, tudo passa a destoar de Dostoievski. Incensa e chora, lamenta e geme. À beira do Sena, a chanson se esvai em acordes lácteos. Espana, gira em falso. Espanha, falsos Mirós. Descem carradas de mouses de esgoto a farejarem rotos e a soltarem arrotos sobre outros ratos. Entrementes, há mulheres lusas ainda muito quentes, moídas por engano na bacalhoada. Uma soneca no vinco do teu jeans, sob o embalo cômodo de Brothers in Arms. Sem mais delongas, estimo melhoras.

© Direitos Reservados



Comentários

  1. Brothers in arms... acabo de ouvi-la... que coisa! Adorei, Marcelo!

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  2. Antonio Carlos de Souza Antoniazi9:00 AM

    "O homem está sempre pronto para distorcer aquilo que dizem seus sentidos, simplesmente para justificar a sua lógica.". - DOSTOIEVSKI.

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  3. É, Marcelo, bem à moda Dali. Meu abraço.

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  4. O "Angu" ou "viradão" serve como alimento para nossa cultura.... Chance exclusiva de se conhecer um acervo maravilhoso e mergulhar em um mundo de sonhos do autor, porque além de conhecer uma exposição de muito peso e muita consistência, você também tem a oportunidade de mergulhar na vida do mestre do surrealismo... Atualíssimo! Ainda que "anguzado"...
    Abraço.

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  5. Distorcidas letras, sentimentos e mensagem, como aqueles relógios derretidos pelo calor do olhar... Gostei, meu caro amigo! Você sempre se supera! Um beijo!

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  6. Dá-lhe Dali.
    Entre os flocos flácidos de uma massa falida e cinzenta, de uma idéia que escorre.
    Teu texto é um sacode, rs.
    É bom ter este ritmo.
    E no oito, símbolo do universo que volta si, o bigode de apresenta.
    A não linear idéia de idéia nos faz imaginar e faz o cérebro trabalhar.
    Grato!

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  7. Marco Antonio Rossi12:15 AM

    Caro amigo um otimo final de semana.
    Esse bigode ao infinito só acompanhado do sem lenço sem documento do Caetano.....
    Abraço
    Rossi

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  8. Fernando Entratice12:21 AM

    O grande texto do Marcelo Pirajá Sguassábia.

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  9. Carlos Edu Bernardes12:22 AM

    Rá! Joyce adoraria!

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  10. Lauro Augusto Bittencourt Borges12:23 AM

    Que estrada sinuosa de lirismo e metáforas, meu caro. Fui na onda e curti a trilha surreal. Abs e sempre a reverência tereziânica deste escriba de pés vermelhos.

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  11. Lou Magalhães12:24 AM

    Texto dali-ciosamente poético!

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  12. Mara Narciso3:58 PM

    Um angu digestivo e danado de difícil. Uma faceta que era desconhecida para mim. Relendo...

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  13. Palavras românticas para um final de semana cinzento.
    Bom domingo, meu amigo ensolarado Marcelo.

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  14. Genial. Sou seu vizinho de crônica no “O Pinhalense”. Perfeita na forma e conteúdo literário. Parabéns.
    Independente da crônica, você tem algum parentesco com a família Pirajá de São João da Boa Vista?
    Um abraço.

    Carlos Florence

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