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DE MARCA MAIOR



O que será que faz o M do Mc Donald's, a curvinha da Nike, o jacarezinho da Lacoste serem o M do Mc Donald's, a curvinha da Nike e o jacarezinho da Lacoste? Na busca de uma resposta, homens de marketing divergirão de sociólogos. Que não necessariamente terão as mesmas convicções dos filósofos, cujos argumentos jamais convencerão os religiosos, que inspirados em seus dogmas travarão discussões acaloradas com os cientistas políticos. A celeuma se aprofundaria, ganharia a mídia e se transformaria num grande fórum de debates, certamente com o patrocínio da Coca-Cola, da Vivo ou da Volkswagen.

O fato é que as marcas estão aí, colossais e reluzentes, explícita ou subliminarmente a fincar suas bandeiras nas frágeis massas cinzentas.
Tenho um amigo, publicitário, que arranca todas as etiquetas visíveis de suas roupas. Entende ele que essa é uma forma de propaganda e, até onde sabe, jamais será remunerado pela veiculação. Então, tesoura nelas. Nem bem saem das lojas e as roupinhas de grife viram genérico. "Ainda se a roupa saísse de graça, vá lá, tudo bem. Até toparia a permuta" – diz ele. "Eles me dariam as calças, camisas e sapatos e eu sairia pra rua desfilando as marcas deles".

Tá certo que esse meu amigo é um tanto radical. Mas tão xiita quanto ele é aquele cara no extremo oposto, que compra a etiqueta e só depois é que repara no produto em volta dela. "Grifado" da cabeça aos piercings, o talzinho é um verdadeiro anúncio ambulante. Veste o que veste não pelo valor que atribui à indumentária, mas pelo status que supostamente darão a ele por se exibir com aquilo tudo.

O poder da marca é um caso muito sério. E vale tudo para garantir que ela abocanhe mais mercado. Até mesmo recorrer a obras-primas em domínio público, que à revelia de seus autores acabam virando sinônimo de marca. O que será que Beethoven pensaria se soubesse que aquela curta e genial sequência de notas, que alicerça sua Quinta Sinfonia, se transformaria no "pão pão pão pão" da Wickbold? Ou da sua "Pour Elise", comendo solta nas esperas telefônicas e nos caminhões de entrega de gás? Quando é que iria passar pela cabeça do autor de "O Sole Mio" que sua canção imortal viraria comercial de Cornetto? E por aí vai. "As Quatro Estrações", de Vivaldi, vendendo sabonete. O célebre "Aleluia" de Haendel, que já apregoou até remédio para prisão de ventre. A solene "Pompa e Circunstância", de Edward Elgar, por décadas reduzida à musiquinha do "Boa Noite Cinderela", antigo quadro do Programa Silvio Santos. A lista é interminável. Se bobear, "Águas de Março" daqui a pouco vira jingle de guarda-chuva, pra desespero do meu amigo xiita. Que, aliás, anda sumido. Deve estar desempregado.

© Direitos Reservados


Comentários

  1. Gente Humilde, , do Chico, virar comercial para venda de Bíblia. Você é doida demais, pra vender pózinho. Nossos momentos, da Gal, pra vender suite de motel. Eu nao sou cachorro não, candidatos contra o pT ...e por aí, vai. Quer saber, to com o seu amigo xiita: quer promoção: pague

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  2. Antoniazi8:15 AM

    O Silvio Santos desembolsar cerca de dois milhões de reais para o autor de seu "Lá, lá, lá, lá", o renomado compositor Archimedes Messina, sem que tenha se apercebido de que esse "Lá, lá, lá, lá", se gravado em 78 rotações (rpm), e ouvido em 33 rotações (rpm), é na realidade uma pequena parte de uma ópera de um autor italiano. Esse "plágio camuflado" eu já havia constatado na década de 60, curtindo alguns clássicos na discoteca da Rádio Piratininga, quando nela trabalhando, em São João da Boa Vista.

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  3. Agora então... as trilhas sonoras utilizadas no "horário político"... os senhores marqueteiros estão atônitos criando para cada perfil... um Titanic razoável... De tudo isso, o pior ainda, é a musiquinha das urnas eletrônicas, com estridente "pirilim..." rubricando a "Geni, do Chico"... que acabamos de empregar com toda mordomia possível... Isso é MARCA MAIOR jogada em nosso ventilador!
    Abraço.

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  4. Adorei, adorei. Como sempre!!!
    Grande abraço.

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  5. Clauduarte Sá10:08 AM

    E ai meu grande amigo grande escritor Marcelo Pirajá Sguassábia Um grande abraco, sucesso...

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  6. Bem... Eu estou com seu amigo Xiita 1. Me recuso a fazer propaganda grátis. A não ser do Lysoform (hahahah). Mas seria uma boa se nos pagassem... Eu acho que os logos são sinais extraterrestres que implantaram em nossas mentes para consumirmos seus produtos. Hahaha viajei novamente.
    Adorei! Beijo.

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  7. Subliminarmente falando, você pegou pesado, meu amigo Marcelo. Nesse campo eu sou xiita desde criancinha, mas nem assim deixamos de ser vítimas das marcas, elas nos vencem pelo cansaço. Meu abraço.

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  8. E por falar nisso você já notou quanto simbolismo está explícito e subliminarmente contido na marca Jota Effe Esse, com seu trio de quatro letras formando doze? Mas, coitado de mim, cadê talento pra transformá-la numa coca cola?

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  9. Paulo8:55 AM

    Caríssimo,
    vejamos bem, quem quer deixar sua marca não deixa marca outros.
    Parece muito agressivo, não é? Não é.
    Fazer parte de uma tribo, mesmo parecendo um porta etiquetas faz alguns felizes.
    Pelo que queremos ser lembrados?
    Grosseiramente: pessoas vazias se enchem de coisas vãs.
    Algumas fardas estiveram cheias de medalhas, mas sem homens dentro delas.
    Pessoas com alguma profundidade usam uma marca sem se preocupar com ela.
    Mas o que de verdade faz alguém usar uma grife é ter tido dinheiro para pagá-la.
    Antes do Haiti cair em desgraça frente aos deuses, grandes marcar do mundo, ou mundanas, tinham ali muitas fábricas que usavam trabalho escravo. Há de se refletir que, às vezes, alguns logos que andam por aí são cheios de símbolos incompreendidos.

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  10. Marco Antonio Rossi2:23 PM

    boa tarde e uma otima semana.
    obrigado pela homenagem....pensei que era o R de Rossi....
    grande abraço

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  11. claudete Amaral Bueno2:24 PM

    Às x, o porco é maior do que o chiqueiro!!!!!!!!

    Bom FDS, amigo!
    Claudete

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  12. Paulo Marsiglio Neto2:27 PM

    Falou o especialista!!

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  13. Maria da Graça Ciccarelli2:29 PM

    Marcelo Pirajá Sguassábia, uma vez mais genial! Obrigada!

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  14. André Albuquerque2:30 PM

    Excelente.Na verdade,paga-se pela marca.Quem costurou foi algum chines ou boliviano, trabalhando em regime de semi-escravidão

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  15. Lauro Augusto Bitencourt Borges2:31 PM

    Bom dia, meu caro, refletindo sobre o seu métier? E tem camisetas com marcas absurdamente ostensivas. Se tem um grafismo bacana, vá lá, mas a marca pura e simples em tamanhos garrafais... Águas de Março sonorizou algumas peças da Coca em 1986; até o Tom aparece em alguns. Comerciais bem bacanas. Espia só: https://m.youtube.com/watch?v=Ua_h5KOHOc4&autoplay=1

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  16. Olá, Marcelo!
    Concordo com seu amigo que diz que não é pago pra exibir marcas, também falo isso. É sempre um prazer passar por aqui. Um abraço!

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  17. "Jesus Cristo! Jesus Cristo! Jesus Cristo! eu estou aqui!" Graças a Deus que eu estou aqui para ler isso.
    abração.

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  18. olá Marcelo.. adorei seu texto conheço gente que se mata para comprar roupa de marca e exibir a etiqueta .é status..vc como sempre criativo e original..adoro te ler.. bom final de semana..bjs

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  19. Sou bem parecida com seu amigo que corta etiqueta!! Só faço propaganda de ideias e de textos geniais, como esse. Parabéns!! Beijo

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