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O CHULÉ NOSSO DE CADA DIA

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O chulé anda escasso, e não é de hoje. A culpa não é do governo, nem da sociedade organizada, nem dos anões inadimplentes e muito menos dos ambientalistas. Estes últimos, inclusive, há tempos vêm alertando que, se nada for feito, tudo o que nos restará será o mortal oxigênio. Alguns são mais pessimistas e dão o jogo por perdido, afirmando que agora é tarde e já não há mais nada a fazer, a não ser esperarmos, conformados, a morte por sufocamento.

Os bancos de chulé, quem diria, estão exalando lavanda, com a triste falta de doadores. É desanimador, mas compreensível. Quem, em sã consciência, vai renunciar a uma cafungada profunda na meia podre para doá-la a quem mais necessita? Ainda mais sabendo que a chance de ver o próprio elixir fedorento sendo desviado para contrabando é sempre muito grande...

Junto com o contrabando, seu irmão mais perigoso: o tráfico. Mais do que o crack, o ecstasy e a coca juntos, o estrago causado pelas quadrilhas de chulé é apavorante. Se até há poucos anos era comum encontrarmos, em toda família de classe média, pelo menos uns três chulezentos em plena e farta produção, hoje a realidade é bem outra. A falta do insumo faz surgir carradas de fornecedores vindos de miseráveis favelas, que não hesitam em matar ou morrer para para manter girando a bilionária indústria da contravenção.

O desabastecimento, na entressafra de inverno, veio complicar ainda mais a situação. Evidente que a produção de chulé cai junto com a temperatura, e essa constatação levou as autoridades a criarem a Funghi Run 20K – Grande Caminhada pela volta do Chulé. Mais de 44.326 pessoas participaram do evento, em desabalada carreira sob sol abrasador, num esforço sobre-humano para a geração de quantidades colossais de chulé de qualidade. Concluída a prova, os participantes arremessaram seus tênis e meias usados numa grande caçamba, próxima ao pódio. Entretanto, a quantidade de chulé coletada foi inexpressiva – justamente por conta do clima ameno demais.

A verdade é que caminhamos a passos largos para o racionamento, a menos que as pesquisas em andamento sobre o enxerto de glândulas sudoríparas nos pés traga resultados animadores em curtíssimo prazo. Confirmada essa perspectiva otimista, o projeto do governo é implementar algo parecido com os mutirões da catarata, onde são realizadas cirurgias em massa nos grandes centros urbanos.

Paralelamente, temos de reconhecer que a polícia tem feito sua parte. Na terça-feira última, desbaratou uma gangue de larápios que vinha aplicando o velho e manjado golpe do velório. Em choro fingido, os delinquentes iam percorrendo sucessivos velórios para afanar as meias dos defuntos. E ali mesmo, no local do crime, consumiam vorazmente o chulé do finado.

Cães farejadores também têm sido adestrados para rastrearem chulé em expedições de busca, com resultados satisfatórios. O que não isenta a polícia de alarmes falsos como o ocorrido ontem, quando uma matilha de pastores alemães confundiu o que seria um grande depósito clandestino de chulé com uma fábrica de queijo gorgonzola.



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Comentários

  1. Em tempos de ódio, rir faz muito bem.

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  2. Muito bom para quem está meio dodói como eu neste final de semana hahahah. Abraços Marcelo....

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  3. Conheço uma que cai como uma luva neste exemplar e perfumado texto. Mas envolve um japonês e sua esposa em lua de mel, e assim fico impedido de contar, para não ofender o povo daquela terrinha.
    Eita!

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  4. Ai, Marcelo.., tomara que todos os maus odores sejam eliminados para todo o sempre, AMÉM. ;)

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  5. Há uns e outros que, não satisfeitos com o odor do chulé, detonam um hálito... que ninguém aguenta... sequer os traficantes odoríferos!! Ainda com a "falta d'água"... como ficaremos? Volume mortinho da silva!!
    Abraços.

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  6. Marcelo, pra mim você é um gênio! Como pode ser sempre excepcional em suas crônicas pinçando temas que a maioria de nós jamais escreveria? Eu sempre me declarei fã e não ler você seria um atestado de birutice total. Beijo!

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  7. Anônimo5:23 PM

    No passado, não sei se hoje ainda persiste, Mogi Guaçu, com aquela indústria à sua porta de entrada, era chamada de "cidade do pum livre".

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  8. Ahahaha, meu amigo, eu acho que também contribuí um pouco com esta escassez. Creio que se lembra de minhas indicações medicamentosas. Parei com elas. Fiz o maior sucesso como garota propaganda e não ganhei nadica de cachê. Veja só! Mas é um problema sério mesmo.
    Os adolescentes tem se dedicado mais à internet e ficam mais tempo parados e descalços. Os sabonetes tornaram-se mais eficazes, as palmilhas contém substâncias antichuleísticas... Mas confesso, que não sinto a menor saudade do cheirinho do Ki Chute do meu irmão. Sei que é trauma de infância, preciso conseguir vencer. Graças a Deus que não vai ter mais como. E viva o Oxigênio!
    Ótimo texto, como sempre! Beijo!

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  9. Meu desejo é que tudo que cheira mal vá para o inferno! Meu abraço, Marcelo.

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  10. José Carlos Carneiro9:21 AM

    Aí vai uma piadinha bem velha sobre o dito-cujo chulé e o mau-hálito, creio que é essa que um dos seus contatos comentou, mas não contou. Foi assim.
    No tempo em que o namoro só ia pra cama depois do casório de papel passado e muitas testemunha, um casal enganava o outro sobre algo que tinha de indesejável. A moça disfarçava o mau-hálito chupando bala de hortelã antes dos encontros e o rapaz não tirava os sapatos de modo algum perto dela, mesmo se um bicho de pé estivesse azucrinando seu pé e dando uma vontade danada de coçar o local. Um dia se casaram, né? Então não havia mais o que disfarçar e a garota, logo no primeiro dia de lua-de-mel, estava com aquele "bafo de jiboia" e o garoto com os pés que cheiravam carniça. O cara foi beijar a moça e... Surpresa! Sem muito pensar ele diz a ela:
    - Benzinho, você engoliu minha meia?
    Putz! Pano rápido - como diria o Millôr.

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  11. Lauro Augusto Bitencourt Borges9:25 AM

    Meu amigo, eu estava lendo o texto e entabulando um comentário linkado com o gorgonzola. Eis que o último vocábulo é o tal queijo, tão saboroso quanto, não diria fedorento, de odor marcante. Só me resta sugerir que para sanar essa escassez chulezenta, equipes munidas de roquefort e camembert invadam vestiários de clubes e indústrias e coloque em cada sapato porções destes queijos. O cheiro derivado daí vai inverter a corrente que pode desgraçar a humanidade.

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  12. André Albuquerque9:26 AM

    Hilário.Olfatória e literalmente inesquecível.

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  13. Marco Antonio Rossi9:28 AM

    BOm dia, meu amigo e uma otima semana.....
    Polvilho antiséptico granado nelas!!!!!
    Abraço
    Rossi

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  14. Claudete Amaral Bueno9:30 AM

    Engano bem compreensível: gorgonzola c/ chulé!

    Parabéns! Um abraço!

    Claudete

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  15. Bem, essa de correr atrás de chulé é hilária. Escreva sobre a sobrecarga de cabelos brancos. Pra que servem, heim??

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  16. Mara Narciso12:31 AM

    Curiosa comparação de chulé com queijo gorgonzola, Marcelo. Houve um tempo em que Jorge Amado comparava outra parte do corpo com bacalhau. Quanto ao motivo de haver chulé, é a falta de higiene e proliferação de bactérias. Em meu trabalho, no qual peço às pessoas que dispam seus pés, ainda me deparo com quantidades colossais de mau-cheiro nos pés. Caso de polícia.

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