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VASCAÍNA




Na capitania hereditária de Vasco Herculano Machado do Aleijão aconteciam coisas um tanto esdrúxulas. A greve dos sacis, reivindicando fumo de boa procedência para seus cachimbos, talvez seja a ocorrência mais conhecida, pela repercussão alcançada nos pasquins da época. O levante resultou, inclusive, na intervenção da Coroa Portuguesa para aplacar os exaltados ânimos dos Pererês, reunidos aos milhares em ruidosas passeatas sobre uma perna só.

Mas o incidente está longe de ter sido o único a merecer nota nos anais da história. Muito provavelmente, o maior de todos os rebus já registrados naquelas plagas coloniais se deu quando a referida capitania teve finalmente de tornar-se hereditária - por ocasião da
morte de seu donatário, o tal Vasco. A faixa de terra, que se estendia do litoral até a linha de Tordesilhas, era para o herdeiro um pepino maior que a Faixa de Gaza dos dias de hoje.

Financeiramente deficitária e atacada pelos índios caxinauás a cada oito dias, a extensa tripa era um matagal de fora a fora e exalava um odor incessante de carniça pela ausência de urubus na região, abatidos em massa pelo desalmado Vasco nas suas práticas de tiro ao pombo (como os pombos eram difíceis de acertar, Vasco achou por bem trocar de ave para facilitar-lhe a pontaria, daí a opção pelos urubus). Vasco Jr., em resumo, iria herdar um verdadeiro nó cego, o que o levou a abdicar da hereditariedade sobre a capitania. Não havendo outro português que se habilitasse a ficar com a encrenca, Juninho resolveu legar seus milhares de hectares à menos hostil das caxinauás que conhecia, uma tal Cunhapora Ceci, que há tempos lançava sobre ele uns olhares cheios de segundas intenções.

Cunhapora, flagrada após a caça vespertina cheirando lança em sua oca, agradeceu a Vasquinho o fato de lembrar-se do seu nome mas rejeitou a oferta. Entretanto, sugeriu a ele que propusesse a Inhauaterê e seus irmãos um bem fornido carregamento de espelhinhos em troca de serviços vitalícios de capina do território. Pelo menos assim manteria roçados os seus domínios enquanto, com um pouco mais de calma, engenhava uma solução adequada ao seu dilema.

Embora alguns dos irmãos de Inhauaterê demonstrassem sincero interesse na permuta, esta foi formalmente rejeitada pela maioria, que preferiu não trocar a rede pela enxada. Inconsolado e descrente da boa vontade humana, Vasco Jr. não vislumbrava outra saída a não ser repartir a capitania em pequenas sesmarias para cultivo de hortifrutigranjeiros.

Pelo tratado estabelecido, se suas terras não fossem lucrativas após determinado prazo, a Coroa Portuguesa poderia reaver a posse e mandá-lo à forca por justa causa.
Temendo essa possibilidade, Vasco Jr. retornou à mesa de negociações com Inhauaterê e Inhauaterê Mirim, seu filho, para elaborarem o estatuto da Alfamel, a Cooperativa de Produtores de Alfaces e Melões, a ser gerida por trinta mil japoneses dispostos a ganhar a vida a qualquer custo nas capitanias brasileiras. O que os nipônicos de então não imaginavam é que a maleita dizimaria, em apenas 17 meses, quase todos eles, enquanto a praga denominada Mandruvá da Alface faria o mesmo com suas hortas.

Vasquinho faleceu após duas outras tentativas fracassadas de fazer dinheiro com suas terras. E de arrumar um herdeiro para sua Capitania.




© Direitos Reservados


Comentários

  1. Marcelo, de onde tira tantas ideias? Deus meu, que imaginação fértil!
    Valeu. Bjs

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  2. O pior é que nem deu tempo para a elaboração de uma horta orgânica... E, essas terras... nem conseguiram explorar a camada de pré- sal... (dos hipertensos) ou a riqueza das usinas, pelos usineiros diários (os diabéticos)... e tudo já era... É, Marcelo, quando o "possuído" crava nossa ficha... adeus herança! E, pensar que sofri feito condenada em ter que decorar "capitanias hereditárias e seus donatários"...
    Abraço.

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  3. danadinho;;; sou vascaina..VASCOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO.. amei /beijos

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  4. É, naquele tempo receber uma capitania hereditária era um tremendo presente de grego, mas teve muito vivaldino que se deu bem, e criou latifúndios que perduram até hoje. Parabéns, Marcelo, pelo seu imaginário!

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  5. Paulo2:02 PM

    MARCELO.
    VÁRIOS ENSINAMENTOS ESTÃO NESTE CAUSO CONTADO.
    EM VÉSPERA DE ELEIÇÕES ESTAMOS VENDO COISAS ESTRANHAS.
    ALGUNS DE NOSSOS GOVERNANTES ESTÃO COM PROBLEMAS PARECIDOS.
    SINCERAMENTE, NÃO TENHO VOCAÇÃO OU PRA MELÃO OU PRA ALFACE.

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  6. claudete amaral bueno4:44 PM

    PÔ!
    Que baita diferença dos dias de hoje, hein???????
    N/ havia SEM-TERRA naquele tempo????? Já pensou????
    Seria: A INVASÃO DAS CAPITANIAS!
    Um abraço! Bom FDS
    Claudete

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  7. Carlos Edu Bernardes4:45 PM

    caçada aos urubus! (se tivesse rede globo e comissão de arbitragem na época isso não seria possível).
    rá!

    Vasco!

    4FABraços!

    (~()

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  8. Marco Antonio Rossi4:46 PM

    Bom dia!!
    Um ótimo final de semana!!
    Essas terras foram usadas para fazer o Maracanã no rio de Janeiro e no primeiro clássico em homenagem ao Vasco, o time que adotou o nome, perdeu de 4 para o Flamengo time do urubú.
    Abraços
    Rossi

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  9. Alexandre Vicente4:48 PM

    Bom dia, Marcelo.

    Cara gosto muito dos seus textos.
    Vc gostaria de colaborar com o nosso blog?
    O curta cronicas tem visualização diaria perto de 1000 e vem crescendo a cada mês.
    É uma otima janela para vc mostrar seu trabalho.
    Isso é tudo que podemos oferecer, já que o blog não tem fins lucrativos.
    Somos um grupo de escritores que se conheceram em uma oficina e que aos poucos foi abraçando outros bons escritores. Vc terá uma data quase mensal e poderá escrever sobre o q quiser. Aconselhamos não abordar assuntos como religião e politica de forma parcial, pois estes são valores muito caros às pessoas.

    O convite esta feito, caso esteja interessado é só dizer.

    Abs Alexandre Vicente.

    Ps. Não sou dono do blog, apenas gerencio.

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  10. José Carlos Carneiro4:50 PM

    Suas crônicas são irretocáveis em conteúdo, atualidade - e quem disse que não podemos trazer o tal passado ao presente? - nonsense para qualquer gosto, malabarismo com verbos, palavras, orações, frases, períodos e coisas mais da arte de escrever. E quem não gostar que vá reclamar com o Papa. Ou mande-os procurar agulhas de ouro nas areias do deserto do Saara. Estilo é estilo e fim de papo.
    Um abraço.

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  11. Vera Neves4:56 PM

    Bela imaginação...Abraços!

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  12. André Albuquerque4:58 PM

    "O levante das Mães Dágua" contra a poluição dos rios.Parabéns.Forte abraço.

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  13. Lauro Augusto Bittencourt Borges4:58 PM

    Boa! Na capitania também seria possível um levante dos curupiras reivindicando botas ortopédicas da Nenê Pirassol. Abs

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  14. Samuel Aflalo4:59 PM

    Parabéns Marcelo, gosto muito de ler seus textos

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  15. Adorei; como sempre admiro muito a sua forma de escrever, uma aula. ;) Abraços Marcelo. ♥

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  16. Pois poderia esperar mais um pouco e deixaria a Capitania aos Capitães de Areia- que bem sabiam eles o que fazer com ela, não sobraria uma pena das lendas hereditárias

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  17. Mara Narciso5:05 AM

    A divisão de terras será para sempre uma discussão inútil. O rio corre para o mar, mas a graça pode ser para todos.

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