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ANA LÓGICA




Logicamente, Ana levanta-se naquele dia do mesmo jeito que nos outros todos, maldizendo o cuco de madeira capenga que lá da sala diz que é tempo, que a vida urge e exige Ana de pé e de prontidão, a postos para matar o leão da vez.

De frente pra urna eletrônica, saca do sutiã a colinha que trouxe de casa com os nomes dos cabras menos ruins. Acha que aquilo é voto, tenta encontrar uma fenda na geringonça para enfiar o papel.

- Como é que é isso, seu mesário?

Feito o dever cívico, passa pela padaria em frente à igreja, com suas duas televisões de cachorro e dezenas de frangos girando. Lembra do dezembro à porta e seus piscas nos pinheiros, Ana dos gorros tricotados de Noel, logo só se vê e só se fala nessas festas de exageros, nesses tempos de advento onde o que menos importa é o menino redentor desse mundo de pecados.

As cartas atrasadas a remeter, as tampas de margarina a envelopar e enviar ao sorteio com a pergunta respondida, as agulhas de costura agora quase tão raras quanto as de vitrola, os lençóis no quarador, o necessário acato aos filhos que Deus manda (todos com a mecha de cabelinho guardada na gaveta da penteadeira). Ana e a lógica das palavras cruzadas na sala de espera e no aguardo do tempo de tintura no cabelo. Vai treinando, Ana, a sua menina mais velha nas prendas do lar, leva ela com você ao açougue e revela passo a passo o segredo do sucesso do seu lendário picadinho, o melhor do quarteirão - a começar pela alcatra moída duas vezes, sem um tiquinho de gordura, à moda da velha vó.

Acontecesse o que fosse, ela continuaria desse jeito – Ana de células, fluidos, anáguas, aquário de peixes na sala e fichas de orelhão no porta-níqueis. Tão analógica quanto o moinho do homem da garapa, a agenda da Tilibra e a fita cassete. Aquela que ainda pensa e vai morrer cismando que boleto sem autenticação mecânica não é boleto pago. Que pendura chumaço de bombril na antena da TV de tubo catódico um pouco antes da novela das seis, enquanto mexe o doce da vida amarga.


© Direitos Reservados

Comentários

  1. Que vida amarga, hein! Quem não se atualiza vira museu mesmo! Agora, motivo de risos aqui foi ANA querer enfiar a cola do voto na urna eletrônica! Divino!
    Abração.

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  2. Antoniazi8:27 AM

    Muito diferente essa, Marcelo, da minha prima Ana, que mora ao lado de Nova Iorque.

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  3. Mas nem a Eva é como a Ana. Não existem mais anas que não saibam digitar num celular - De onde veio a Ana? da casa de algum senhor de engenho? Lógico, só podia mesmo dar nisso: patológica!

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  4. E Ana votou, certamente seguindo a indicação de algum político municipal a quem ela admira. Essa é a lógica do voto de Ana. Tem muitas Anas por ai. Um abraço, amigo! E PARABÉNS!

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  5. Giovana Ferreira2:17 AM

    genial

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  6. claudete amaral bueno2:18 AM

    Sou bem parecida com essa Ana! à antiga....
    Sem muita lógica........rssss
    Bom fim de semana
    Claudete

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  7. Luciana Sleiman12:38 AM

    E ai dos mais lógicos que compararem a Ana daqui com as tantas outras possibilidades de Annas, Hannas e Anns de outras fronteiras. Não é?

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  8. Marco Antonio Rossi12:39 AM

    Bom dia e um otimo final de semana, meu amigo.
    obrigado por toda semana nos enviar um texto que nos faz refletir, rir e as vezes dá até um nó na garganta.
    Um grande abraço
    Rossi

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  9. Nicete Campos12:40 AM

    Meu novo site (abaixo). Para conhecimento e, se quiserem, divulgação.
    Obrigada e abraços

    Nicete Campos/Anita Cimirro
    http://www.opusdissonus.com.br/anitacimirro/
    Jornalista, escritora e educomunicadora

    "A Ética como norteadora do SER" (Haspásio)

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  10. Análise de conteúdo, e de Ana, logicamente.
    Neste mundo novo, e às vezes nem tanto admirável, Ana e tantas e tantos como qual Ana, ameaçados e humilhados nem mais procuram seu lugar, acomodando-se onde param. Pensa e pensam arroz com feijão, praquê mais?
    Usam cartões eletrônicos bancários sem compreender direito como funcionam, votam da mesma forma, mas com menos compreensão ainda. O progresso fica como ficção, pra esta classe de cidadão não é conquista e sim acaso.
    A grande dor do reconhecimento das rotinas é que Anas, Marias, etc., e seus correspondentes de outro gênero, são e somos, quando não nos reconhecemos indivíduos, replicantes em um sistema que prima em clonar personalidades ou doutrinar classes subalternas à servidão.
    Claro, há o fator humano, e alguma vez encontramos pessoas que renunciam o crescimento pessoal e elegem motivos para tal.
    Este tema é delicioso e dá pra viajar muito, mas será que vale a pena?

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  11. Espetacular esta crônica.bração caro Marcelo.

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  12. Muito bom Marcelo! Adorei!! Beijo

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  13. Acho que muitos dos problemas atuais, e neste momento falo de eleições mesmo, é que existem muitas Anas Lógicas como a sua; vão agindo sem saber o que está acontecendo direito, pararam no tempo e estão vivendo no piloto automático sob o comando das forças que estão no poder...

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  14. Creio que há tantas Anas tão lógicas como a própria, daí você ter encontrado a sua, Marcelo. Meu abraço.

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  15. Bela inspiração, Marcelo. Mas mexer o doce da vida amarga foi a melhor parte. Eu conheço algumas pessoas que insistem nesta lógica analógica. Pessoas para as quais a vida não urge e sim ruge, para quem o cuco é a lei, e o mundo não entra em entendimento com seu ritmo de vida... Gostei muito!
    Beijo procê!

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  16. Marcelo, minha Ana, mãe, como a sua Ana, personagem, foi muito sempre de antanho, sistemática em algumas coisas. Hoje, a minha Ana, que é também Maria, trafega com desenvoltura nas trilhas virtuais. Como sempre, minha reverência à sua lavra. abs.

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  17. Mara Narciso1:15 AM

    Melancólico retorno ao passado, ainda dobrando a esquina das nossas vidas. Nos acostumamos de forma veloz a tudo que é bom, ainda que Ana não queira fazer isso.

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