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FALCON NO CANTAREIRA

Fonte: bonecofalconestrela.blogspot.com



- É ele, eu tenho certeza. Tem aqui as iniciais do meu nome, que o saudoso Tio Zezo marcou a ponta de faca nas costas do boneco. Ter um Falcon, naquele tempo, era o sonho de consumo da molecada. Com essa marquinha aqui, se me roubassem na escola eu poderia provar que era meu. Velho Tio Zezo, era uma criança junto com a gente.

- Tá me zoando, meu. Não pode ser o mesmo boneco.

- Te juro. Olha, tá me vindo a cena toda na cabeça. Eu estava ali, perto daquele pneu de trator. O Rodriguinho, pentelho como sempre, me deu um empurrão, querendo me jogar pra dentro d'água. Eu consegui segurar o tranco, mas o Falcon acabou caindo e submergiu pra nunca mais. Quer dizer, até hoje, né. Eu tinha ganho de presente no Dia das Crianças, e o mergulho fatídico foi uns dois meses depois, num domingo quente perto do Natal. Meu pai estava pescando com o Motorádio do carro ligado, e me lembro daquele jingle tocando: "Quero ver você não chorar, não olhar pra trás..."

- Por essa época vocês tinham um Corcel II branco, né?

- Isso, e no painel tinha um imã, escrito "Papai não corra, não morra". Era começo dos 80, mas o imãzinho era dos 70, quando os carros eram inteiros de ferro. Se fosse nos carros de hoje, o imã não ia parar no painel. Acho que seria mais fácil eu ganhar 100 vezes na Megasena do que reencontrar meu amiguinho barbudo.

- Concordo. Inacreditável, e olha que o pescador nem era você. Olhando toda essa terra rachada, a impressão que dá é que abriram o ralo da represa. Achar carro, barco, sofá submerso, vá lá... Mas um bonequinho desse tamanho é demais. O que te fez pensar que ele estaria aqui, no mesmo lugar?

- Meu sexto sentido arqueológico, talvez. Além disso, estamos falando de um tanque, onde as coisas jogadas nele não podem ir pra outro lugar.

- O triste é ter que tirar a poeira dele, quando o mais lógico seria colocá-lo pra secar... Falcon da Estrela: o resgate. Que saga, heim?

- Nossa, olha lá. Um Aquaplay.

- Onde?

- Melhor dizendo, acho que tá mais pra Terraplay...





© Direitos Reservados

Comentários

  1. Sensacional!!! Enquanto você curtia seu "Falcon"... eu a minha boneca da Estrela que andava e falava... Só que bem longe da Cantareira... Nascente do Tietê e a mesma foi salva desse "barraco todo" e doada a uma criança pobre que nunca ganhara nada em seu "natais"... O carro? Ah! Era o "Zé do Caixão"... Hoje, apelam para "meu banho minha vida"... Chegamos a um tempo em que a água tem mais valor que qualquer aplicação financeira!
    Abraços.

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  2. Sexto sentido arqueológico.. risos... o meu é geográfico.... risos... beijo!

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  3. Marco Antonio Rossi7:52 AM

    Meu amigo boa noite.
    Uma otima semana.
    Até quando o Terraplay vai durar???
    Abraço
    Rossi

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  4. Claudete Amaral Bueno7:53 AM

    Bem bolado, Marcelo!
    Muita coisa será encontrada lá.
    Bom FDS....(vote certinho, hein?).........45!
    Claudete

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  5. Tem gente por aqui, nas barrancas do Tietê sequinho, achando aliança de casamento, dentadura de ouro, carro "roubado" que a seguradora já tinha indenizado o proprietário. Há muito mais a ser encontrado debaixo desse tapete de agua seca. Que São Pedro tenha piedade do Planeta e nos abençoe a todos com boas chuvas.

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  6. Antonio Carlos de S. Antoniazi11:44 AM

    Dentro de algumas décadas, isso mesmo, parece-me que está bem próximo, irão, nas esquinas da vida, comentar que no passado existia algo que era "líquido", e chamavam de "água".

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  7. Ah, Marcelo! Hoje você me fez viajar no tempo! Eu era desta época, ia pescar obrigada, 'amarrada' dentro do carro, emburrada brincando com meu aquaplay... Sim, sempre detestei bonecas e bonecos. O carro do meu pai? Um corcel II GT branco com listras pretas, uma máquina daquele início dos oitenta. Orgulho do meu velho... Mas uma boneca tinha seu lugar. A Susie. Ela servia de modelo para as roupas de crochet e tricot que eu fazia. E eu a escondi no casarão, debaixo do piso de madeira que saía do chão do meu quarto. Anos se passaram e meu pai foi transferido um dia para Indaiatuba-SP. Entrei em desespero lá, quando percebi ter esquecido coisas da infância no assoalho.Por sorte, voltamos quinze dias depois para resolver umas coisas e lá estavam meus guardados. Mas, mais que a boneca, estavam lá aquele bilhete e aquela carteirinha de clube com foto, do primeiro amor... Seu Falcon, seu texto, me transportou ao melhor de mim. Obrigada! Beijos!

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  8. Boas lembranças de infância sempre nos comovem mesmo numa ficção. Boa semana amigo Marcelo. ☼

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  9. Gustavo Carmo11:14 PM

    Conto muito bom.

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  10. Muito bem bolado, Marcelo! A Cantareira tá mostrando que nem só de gasolina vive o homem! Meu abraço.

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  11. Beth - Entrementes6:52 AM

    Marcelo me identifico com o que escreve….bom demais!

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