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CVVSV - CENTRO DE VALORIZAÇÃO DA VIDA DO SALVA-VIDAS




- Pronto, Centro de Valorização da Vida do Salva-Vidas – CVVSV. Por favor, seja breve pois nossas linhas estão congestionadas.
- Tô sem vidas pra salvar. Antes tivesse cem vidas pra salvar, tá me entendendo?
- Entendo sim. E como entendo. Você é o décimo sexto que liga hoje. Ontem foram trinta e cinco.
- Ninguém tá precisando ter a vida salva, moça. Mar calmo, banhistas felizes com Sundown 45 besuntado até no cofrinho, nenhum desavisado se debatendo na rebentação. Um tédio. Gosto de viver perigosamente, pra isso escolhi essa vida de salvar a vida dos outros.
- Relaxe, pense que poderia ser pior. E se tivesse que resgatar dez vovôs gordos e sem preparo físico se afogando ao mesmo tempo? Daqueles que levam melancia, torta de sardinha e papagaio pra praia, já pensou?
- Mas pelo menos eu me sentiria útil, ainda que conseguisse salvar um gordo só. Bem ou mal estaria honrando o salário no fim do mês. O duro é ficar tomando sol o dia todo naquela cadeira em cima da escada. Me sinto um usurpador, um verme sem serventia, um chupim do orçamento da prefeitura. A senhora, como contribuinte, não se sente explorada? Por favor, me ajude, faça alguma coisa.
- Meu amigo, por acaso a culpa é sua se está tudo bem? Você saberá cumprir o seu dever, caso aconteça alguma coisa. Por que você não faz um curso de aperfeiçoamento, um módulo mais avançado pra sua função? Sei lá, ou então abra-se a novas possibilidades de relacionamento... uma respiração boca-a-boca com alguém atraente do sexo oposto, sabe como é, salva-vidas também é gente.
- Sei, sei. Vem ver as coisas que me aparecem pra salvar, vem ver. Isso quando aparece, né. A praia aqui é de periferia, minha filha. É a maior relação dentadura por banhista da América Latina.
- Você também podia pedir transferência pra algum lugar com mar mais agitado, tipo aquelas praias de surfistas em Saquarema.
- Mais alguma alternativa?
- Temos sugerido com frequência a pintura de paisagens marinhas em aquarela. O único problema é o salva-vidas se distrair demais com o hobby e não prestar atenção ao serviço.
- Chega, essa foi sua última chance. Não me convenceu, o buraco no meu caso é mais embaixo.
- Pelo amor de Deus, mude de ideia. Se não por você, pelo menos por mim.
- Como assim?
- Nosso índice de reversão das tentativas de suicídio nos últimos seis meses é de apenas 4,9%. Caso não consigamos melhorar esta estatística, nossa equipe toda será demitida. Você não está mesmo querendo salvar vidas? Pois então, sua oportunidade é agora. Salve a nossa, moço!
- Jura que é verdade? Não está dizendo isso só pra dar uma levantada na minha autoestima? Este argumento está me cheirando a script decorado aí da equipe de atendimento.
- Onde você está no momento?
- Estou aqui, no meu posto de observação, falando do celular. Mas com um cano de revólver enfiado no outro ouvido. Tem até um pessoal lá embaixo olhando desconfiado pra mim.
- Calma, segura a onda.
- Bom, isso é tudo o que eu queria, se houvesse alguma pra segurar.
- Moço, olhe pra trás. Guardas-noturnos, ex-boxeadores, enroladores de bobinas de transformador, mulheres barbadas de circo e outros suicidas contumazes bem que gostariam de estar no seu lugar, só aí, de frente pro mar... considere-se um privilegiado.
- Poupe o seu latim para um caso menos perdido que o meu. Além do mais, meu crédito está acabando.
- Me dá seu número que eu ligo!
- Vai dar caixa postal.


© Direitos Reservados

Comentários

  1. Nunca estamos satisfeitos com o que conseguimos. Eternos insatisfeitos!
    Quantos achariam um boa ficar diante do mar sem nada pra fazer...
    Abraço.

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  2. Antonio C. de S. Antoniazi4:53 PM

    Cidadão ia completar 35 anos de trabalho (faltavam três dias), que, resumindo, era, rodeando, quatro vezes por dia, as quatro composições de trens que paravam naquela pequena Estação de uma cidadezinha do interior, efetuar, com uma pequena marreta, três pancadas em cada uma das rodas. Foi lhe apresentado um "rapaz", 18 anos de idade, para que lhe fosse ensinado o serviço, pois iria substituí-lo naquele serviço. Com a parada da primeira composição o "velho" efetuou aquele trabalho rotineiro, acompanhado do "rapaz", que "assistiu", então, qual seria a sua atividade. Mas perguntou o "rapaz" ao "velho", ao final daquela primeira demonstração: "Tudo bem. Três pancadas em cada uma das rodas. Mas e daí? Para quê? E o "velho" falou: "Curioso heim garoto. Nem começou o serviço e já quer saber? Pois vão fazer 35 anos que faço isso e nunca me interessei em saber o "porquê".". O PORQUÊ: Um ruído "xoxo" que fosse provocado pelas marteladas revelaria que aquela roda estaria "trincada". Não se sabe quantas "rodas trincadas" passaram, apesar de "batidas", também "batidas" por aquela estação. E continuaram passando "batidas".

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  3. As pessas andam insatisfeitas e desesperadas, precisando encontrar o sentido davida.bo suicidio NUNCA é a melhor saida, pra nada. Texto interessante, dá o que pensar. Abraços e boa semana, Marcelo.

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  4. Quem salva quem salva? Qual o sentido da vida? Desistir é fácil. Bacana é procurar novos horizontes, novas ondas e novas braçadas. Gostei, me fez ficar pensando na eterna insatisfação do ser humano!
    Um bêjo procê!

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  5. Nunca imaginei que fosse ler um relato melancólico da vida de um salva-vidas. Metáfora de primeira grandeza. Quantas vidas são salvas por heróis que choram calados? Quantos palhaços promovem o riso tendo o coração recheado de tristeza e de fome?...é para pensar... é para pensar...

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  6. Que bom voltar aqui e me divertir como sempre acontece. Um forte abraço, amigo!!

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  7. Que desespero... quando os meus créditos estão acabando eu penso logo em me jogar no mar... vai que... um salva-vidas com dentes brancos e lindos me seria útil.. adorei Marcelo!!! Beijooo

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  8. Rose Sousa Lima9:22 AM

    A eterna insatisfação do ser humano...Gostei muito do seu texto, Marcelo.

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  9. Marco Antonio Rossi9:26 AM

    meu amigo, boa tarde e uma otima semana

    Esse é da praia e na terra firme para nos salvar dessa politica maluca?????
    grande abraço
    Rossi

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  10. Claudete Amaral Bueno9:28 AM

    Engraçado! Nunca vi essa profissão sob esse ângulo!
    Mas tb n/ precisa se matar, por causa disso, né?
    Acho que a segunda opção dela foi boa: pedir transferência p/ mares mais agitados! Enfim....
    Acabaram-se os créditos.....e o que foi.....foi!
    Um abraço!
    Claudete

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  11. Mara Narciso10:55 PM

    Muitas risadas do começo ao fim. Ótima maneira de falar da tragédia da inutilidade alheia. Lembrei-me de um meu amigo salva-vidas em Canavieiras, BA, que foi atropelado na semana passada por uma moto e teve a perna quebrada em três partes, precisando colocar pinos. Também um caso a ser repensado. Receio de que ele terá de se aposentar.

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