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Mostrando postagens de Janeiro, 2015

SÃO DEMAIS OS PERIGOS DO PASSADO

Foto: http://fabiotrancolin.blogspot.com.br/2013/09/voce-ja-foi-na-pecuaria_16.html


Desafinando o coro dos saudosos, eu digo que nem tudo foi de se guardar em álbum de retratos. Nem todos aqueles anos foram de coisas e gentes que justificassem lugar nos quadrantes nobres da cachola, lá onde a nostalgia fermenta, entorpece o senso prático e debilita a saúde do indivíduo.
A fila da vida anda. Aquela história de que “bom mesmo era no meu tempo” é tudo chorumela de maricas, nhém-nhém-nhém de quem não sabe enxergar o quanto ser astronauta é melhor que ser troglodita.
Saudosismo faz sentido se há do que sentir saudade. Mil vezes os racing games dos PS4 que os insalubres carrinhos de tábuas de caixote, rolemãs e pregos cheios de tétano. Esse negócio todo é muito romântico e bucólico até você imaginar o seu filho cercado desses perigos. Sem o selo Abrinq. Sem o carimbo do Inmetro. Sem o aval da vigilância sanitária e uma viatura do SAMU a postos em caso de emergência.
Me chegam pelo olfato umas…

WAY OF LIFE

Frankfort, McKinsey Street, 609. Um “Donaldson” pintado a mão em letra serifada na caixa de correio. Dentro, uma proposta de assinatura de Seleções e outra do Saturday Evening Post. É claro que a casa é em estilo clapboard, como todas as outras a léguas ao redor. Dois pavimentos, sótão, nada de muro na frente. Mais tradicionalmente norte-americano que isso, só se for isso no Dia de Ação de Graças. E é.

A paz reinante parece tão inabalável quanto a liquidez das companhias de seguros e das ações da Pan Air. Talvez o mais fiel retrato dessa mansidão seja o pequeno Carl, que tem sua atenção dividida entre os bonecos do Forte Apache e um gigantesco pote de sorvete sabor baunilha. A televisão está ligada e uma garota-propaganda apresenta uma nova marca de cereal de milho, seguida por uma chamada para o Ed Sullivan Show.

Father na sala de estar de dois ambientes e seu costumeiro bourbon whiskey das manhãs de sábado. Serve de porta-copos uma edição capa-dura de “Como fazer amigos e influenciar …

ILUSTRES DE PÈRE LACHAISE

Maior cemitério de Paris e um dos mais famosos do mundo, o Père Lachaise notabiliza-se pelo grande número de celebridades ali sepultadas - entre artistas, cientistas, políticos e filósofos. Algumas delas não tão enaltecidas pela mídia, porém merecidamente lembradas pelos seus grandes feitos.
Huguenote François Legrand, injustiçado expoente da chamada baixa gastronomia francesa, criador da melancia flambada e de outras receitas de dificílima execução e forte apelo popular. Todo 17 de maio, dezenas de crepes de nutella são depositados sobre sua lápide para marcar o aniversário de nascimento dessa figura ímpar em seu métier, cujo desaparecimento precoce até hoje provoca sentido pranto e colapsos nervosos entre seus companheiros de sauna.
Carcamonde Etoile des Trèsjolie, pioneira nos serviços de varrição noturna no décimo quinto arrondissement e vizinhanças, regiões parisienses onde, em sua época, concentravam-se bancas de mariscos, patos selvagens e escargots de linhagens variadas. Seu …

CALA-TE BOCA

- Um doce pra quem me disser quando vamos poder conversar tranquilamente, como nos velhos tempos. - Ah, que tolinho... você e eu temos telhado de vidro. Pra tudo que a gente disser, vai ter alguém na escuta. O pior é que não dá pra confiar 100% em varredura. Muito menos em quem varre. - Pelo Higino eu ponho a mão no fogo, está comigo desde que comecei na vida pública. Era varredor na minha cidade e não deixava passar um pelo de sobrancelha sem varrer. - Mas ele é um varredor de rua, não um perito em espionagem. - O princípio é o mesmo. O homem é um cão farejador. Está lotado no gabinete como assessor especial e arrumei emprego pra família toda dele no almoxarifado do Itamaraty. Eu desconfio da minha mãe mas não desconfio do Higino. - Não sei, pra mim todo mundo é suspeito até que se prove o contrário. - Como fazemos, então? Sinal de fumaça, pombo-correio, telepatia... - Não vejo saída. Telefone é grampeado, email deixa rastro, agora inventaram essa história de quebra de sigilo eletrô…

PRONUNCIAMENTO DUÑESCO DE ANO NOVO

“Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Melhor o meio termo, ou seja, a lama. A do Dalai ou a de Araxá, que tem poderes comprovadamente rejuvenescedores para a pele e reabilita em oito meses a função do apêndice”. Ante olhares pasmos de alguns poucos criadores de bichos-da-seda e de quatorze mochileiros que por ali colhiam cogumelos, assim iniciou sua preleção o Venerável Duña, em aparição relâmpago ocorrida ontem, por volta das nove da noite, no cume de uma montanha mantiqueira.

Teólogos e teóricos das mais díspares correntes esotéricas concluem que o inusitado pronunciamento revela um Duña menos extremado em suas exortações, um líder messiânico mais disposto a valorizar o equilíbrio e a ponderação em detrimento do fundamentalismo inflexível de algumas seitas – que caracterizaram inclusive a sua própria Ordem em outros tempos.

“A segunda década do século 21 que ora vivenciamos será certamente marcada pela concórdia entre os homens. E isso não é sandice profética ou retórica de ocasião. T…