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SÃO DEMAIS OS PERIGOS DO PASSADO

Foto: http://fabiotrancolin.blogspot.com.br/2013/09/voce-ja-foi-na-pecuaria_16.html


Desafinando o coro dos saudosos, eu digo que nem tudo foi de se guardar em álbum de retratos. Nem todos aqueles anos foram de coisas e gentes que justificassem lugar nos quadrantes nobres da cachola, lá onde a nostalgia fermenta, entorpece o senso prático e debilita a saúde do indivíduo.

A fila da vida anda. Aquela história de que “bom mesmo era no meu tempo” é tudo chorumela de maricas, nhém-nhém-nhém de quem não sabe enxergar o quanto ser astronauta é melhor que ser troglodita.

Saudosismo faz sentido se há do que sentir saudade. Mil vezes os racing games dos PS4 que os insalubres carrinhos de tábuas de caixote, rolemãs e pregos cheios de tétano. Esse negócio todo é muito romântico e bucólico até você imaginar o seu filho cercado desses perigos. Sem o selo Abrinq. Sem o carimbo do Inmetro. Sem o aval da vigilância sanitária e uma viatura do SAMU a postos em caso de emergência.

Me chegam pelo olfato umas coisas que não são de agora, nem de Deus. Milho verde, mato depois da chuva, flor de laranjeira. Se tudo isso fosse de Deus não vinha do mesmo lugar que a esquistossomose, a Doença de Chagas, o amarelão, a maleita, a dengue e suas variantes. Você pode achar divertido empinar papagaio até que o seu menino enrosque a rabiola da pandorga num fio de alta tensão. Ou que chamem você às pressas para reconhecer a cabeça dele no IML - decapitada por uma linha de cerol sem dono conhecido.

Melhor, bem melhor é tocar a vidinha seguro e trancafiado no condomínio. Aproveitar as tardes de sábado besuntando álcool gel nas mãos, protegido por benditos e bem erguidos muros com cerca elétrica. Da cidade pequena, lá de onde eu vim (não espalhe), quero exorcizar suas esquinas tacanhas, suas conversas de comadre, aquele sol que castiga o seu coreto inútil, o sol que descora a cal dos postes, que mata cozidas as lagartas nos quintais e não dá trégua aos meninos que voltam famintos da escola às suas casas com suspeitas de desidratação.

Aí você me vem com “saudadinha” do velho que vendia raspadinha na praça, que bom que era, etc. Mas aí eu lembro você da água de torneira que ele devia usar pra fazer a barra de gelo e dos coliformes fecais que muito provavelmente infestavam aquele xarope de groselha - de procedência ignorada e lotes não-rastreados. Meu Pai Amado, que perigo. Que perigo.

© Direitos Reservados


Comentários

  1. Ah, Marcelo! Não lhe aguento! E eu que escrevo o tempo todo sobre essas saudades... Rs
    Você arrasou comigo... Rs
    Grande abraço

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  2. Ufa! Vivo imersa em saudade, Marcelo. Bjs

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  3. Realmente a nossa imunidade não é mais aquela, né não.
    Você me fez voltar ao passado, mas prefiro hoje os meus computadores esterilizados e sem "vírus".

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  4. Coisas que se foram e não voltam... Mas não havia o comutador!
    Abraço.

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  5. então somos evolucionistas, por isso sofremos de intermináveis avanços que, de tantos, bem poucos conhecemos. por isso falamos das coisas do passado,- por serem poucas , gravaram-se em nós -, enquanto que as coisas do presente duram tão pouco, são tão passageiras e descartáveis que nem ficam nas nossas memórias para delas termos lembranças, sentindo saudade. Para a geração de hoje, ainda bem que há o computador com memória avançadíssima,. Façamos dessa ferramenta um instrumento de viagem ao passado inimaginável. Eu gosto de estar aqui e estar lá atrás.

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  6. Só eu reparei a ironia ou reparei errado, Marcelo? Adorei, como sempre... Me deu uma vontade enorme do Dulcora e do Chucola que devorava nos cinemas antigos e maravilhosos de outrora... :)

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  7. Não sou saudosista.
    O que passou?
    Algumas carrego na lembrança.
    Um abraço Marcelo.

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  8. Tranquilize-se Marcelo... "as perebas do passado" também se modernizaram... e vivem em torno de nós... Muito mais resistentes! Haja prazo de validade para se conferir...
    Abraço.

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  9. Anônimo5:41 AM

    Para muitos, caro Marcelo, o passado ainda não existe. E, no meu caso, e de muitos outros, e outras, "temos mais passado do que futuro". Vamos então, pelo menos um pouco, viver o passado, ou do passado. Grande abraço. ANTONIAZI.

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  10. Você não fez uma crônica e sim um poema à nossa saudade. Ainda há pouco, li uma lista das tragédias dos anos 1980. As de hoje são muito piores, e até mais perigosas. Foi uma divertida viagem ao "antigamente". Parabéns, Marcelo!

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  11. Fiz uma viagem no tempo. Que legal que era, vivia subindo em árvores e tomando banho de rio e de sobra pegando com a mão um peixe escuro que parecia uma cobra e escorregava demais. Mas fiquei apavorada quando certo dia vi meu filho em cima de uma árvore, depois do susto e de tê-lo em segurança, sorri pra mim mesma lembrando de como era bom fazer aquilo. Um forte abraço, Marcelo!

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  12. Meu saudosismo faz muito sentido. Adoro meu passado "perigoso" e amo meu presente com muita periculosidade. Aliás, altíssima, pois me aconselham (ainda!!!) a andar nas ruas, desconfiando de meu semelhante, a me enjaular em meu lar....Certo é mesmo que o agradável, em algum tempo, vira saudades.Grande abraço.

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  13. Adriano Neves3:29 PM

    que lindo isso!!!! Eu sou desses idiotas saudosistas..que bom!!! Abs!!

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  14. Marilia Cotomacci3:32 PM

    Eu adorei, marcelinho.

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  15. André Albuquerque3:34 PM

    E o pulso ainda pulsa...kkkkkk Excelente texto, Marcelo.

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  16. Alberto Francisco do Carmo3:41 PM

    Essa máquina de sorvete produzia uma massa estranha, mas quebrava o galho de quem queria um sorvete de consistência cremosa e barata.Mas o assunto dessa crônica em geral é coisa que realmente já pensei muito: como a gente comia porcaria por falta de opção.Quando passava férias em São Paulo,sempre mais adiantado o estado, e mais ainda, a cidade, era como ir ao exterior.Nem no RIo se encontravam coisas tão gostosas,de primeira e limpas.Fora de São Paulo e do Sul, bares, padarias, confeitarias, restaurantes, armazéns,MERCADOS, eram muito sujos.As coisas só começaram a mudar aí pela década de 70, quando MULHERES começaram a assumir a direção (ou propriedade) desses estabelecimentos.Aí elas trouxeram aqueles hábitos de higiene de suas casas para o comércio.Antes, tudo na mão de homens, eram lugares muito sujos.A saudosa Dona Elizabeth Aichinger,do saudosos Restaurante Alpino, ou Dona Derna BIadi do Fontana di Trevi em BH, são exemplos.A antiga Gruta Metrópole na Rua da Bahia tinha, quase como charme,uma fedentina insuportável que exalava dos mictórios, que nunca aguentei.Mas era ponto de boêmios beberrões,intelectuais e "intelectuais".Não sei como aguentavam beber,e muito. E ainda por cima comer aquelas coisas:linguiça, queijo,torresmos com o nariz tão agredido.O hoje glamurizado Mercado Central de Belo Horizonte era de uma imundície incrível. Foi graças a ele que soube do significado da palavra "filthy" (imundo) dita por uma americana que o visitou e assim se referiu a ele.Jornais velhos eram usados como papel de embrulho, até de carnes.Montes de lixo, moscas varejeiras.Um cara com TOC severo, desses que ficam maníacos por limpeza,tipo Howard Hughes, surtaria para sempre, na hora, se visitasse o Brasil dos anos dourados e década de 60.

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  17. Ana Christina Victorelli3:48 PM

    Bom mesmo são o ar condicionado e a tv 60´... Santo e bom progresso, ahahah. Bjos, boa semana.

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  18. Claudete Amaral Bueno3:49 PM

    Sabe....que eu prefiro correr riscos.....e ter saudades de S. João da Boa Vista....
    santa terrinha da m/ mãe tb....que ela amava....embora eu ame muito mais
    Santa Bárbara d'Oeste....e tenho saudades....oh! quantas! ....dos tempos idos!
    Isso é coisa de velho, sabia? Jovem n/ pensa assim!
    Um abraço! Bom fim de semana...mas eu te entendo! Afinal, tb já fui jovem, oras!
    Claudete

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  19. Edmilson Siqueira3:53 PM

    Boa Marcelo.
    Senti uma pontinha de desdém típica das uvas verdes da fábula, mas já puxei muita discussão em boteco discordando daqueles que, depois do terceiro copo, começam a dizer que hoje não tem música mais, filme é tudo uma bosta, essa moçada que taí... terminando com a inevitável “bom era no nosso tempo, né?”. Discordo e sempre digo que no nosso tempo era a mesma merda, a diferença éramos nós, jovens, sonhadores, conquistadores e comedores.
    Abs.
    Edmilson.

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