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WAY OF LIFE



Frankfort, McKinsey Street, 609. Um “Donaldson” pintado a mão em letra serifada na caixa de correio. Dentro, uma proposta de assinatura de Seleções e outra do Saturday Evening Post. É claro que a casa é em estilo clapboard, como todas as outras a léguas ao redor. Dois pavimentos, sótão, nada de muro na frente. Mais tradicionalmente norte-americano que isso, só se for isso no Dia de Ação de Graças. E é.

A paz reinante parece tão inabalável quanto a liquidez das companhias de seguros e das ações da Pan Air. Talvez o mais fiel retrato dessa mansidão seja o pequeno Carl, que tem sua atenção dividida entre os bonecos do Forte Apache e um gigantesco pote de sorvete sabor baunilha. A televisão está ligada e uma garota-propaganda apresenta uma nova marca de cereal de milho, seguida por uma chamada para o Ed Sullivan Show.

Father na sala de estar de dois ambientes e seu costumeiro bourbon whiskey das manhãs de sábado. Serve de porta-copos uma edição capa-dura de “Como fazer amigos e influenciar pessoas”, do velho e bom Dale Carnegie. Ninguém no Estado de Kentucky poderia adivinhar onde estaria seu pensamento agora. Nas metas da empresa para 1958, no sonhado rancho em Sunset Village, nas pernas bem torneadas de Jeannie Johnson. A mulher que jamais teria, melhor amiga da esposa. An affair to remember, canta Nathaniel Cole na eletrola pé-de-palito RCA Victor, relembrando o caso que não houve.

Há uma cerca a pintar, galhos a podar e grama a cortar no jardim da frente. Ben, o filho mais velho, está aí para isso mesmo. Lucille Huppert, da Associação de Moradores, se aproxima com seu basset na coleira. Troca com Ben um olhar mais cúmplice do que o que seria moralmente tolerado entre uma respeitável balzaqueana de 38 e um rapazinho de 17.

Na casa em frente, um certo Jim Bob observa com o binóculo Peggy Sue ao espelho, ajeitando o sutiã. Dessa vez aquele trouxa do Edward avança o sinal, ah se avança. Ou não me chamo Peggy Sue!, pensa a líder de torcida, fazendo caras e bocas.

A América laboriosa e protestante recende a estrógeno e testosterona nos escritórios e high schools, nas ruas e parques de diversões. A mesma América que não hesita em ir à guerra pelas tradições que finge cultuar.

Mamãe arregimenta o marido e a prole para o almoço festivo, badalando o sininho de bronze dos tempos da matriarca Katherine. É servido o peru de Thanksgiving, guarnecido por rodelas de laranja.
- A asa não. A asa é do papai, Carl!
Sim, dê-me asas. É só o que quero nesse momento, pensa o pai enquanto diz:
- Querida, sempre tão gentil. Tudo bem, Carl, pode ficar com a asa. Acho que hoje vou preferir a sobrecoxa.
- Mommy, estão batendo na porta.
- Quem será? Agora que íamos começar a comer...

Lá fora Mary Reynolds aperta mais uma vez a campainha, passa um lenço umedecido nos cabelinhos da nuca, ajeita a blusa para dentro da saia e saca da bolsa a edição de Natal do catálogo de cosméticos. Meio-dia e meia, o sol nunca esteve tão forte nessa época do ano, mas ninguém é próspero o bastante para deixar de prosperar, ainda que seja sábado na maior economia do mundo.
É Avon que chama. É mamãe que atende com um sorriso nos lábios e um convite para entrar.




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Comentários

  1. Cristini Sguassabia2:53 AM

    Beleza Americana...

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  2. Comecei 'lendo' um filme... vi cenas... liguei a minha RCA Victor... fiquei entre asas e coxas... mas que marketing, hein amigo? Quando esperava um happy end romantizado... Avon Chama? kkkk... perdi até a fome!
    Abraço.

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  3. E tem no Brasil um pessoal que bate na porta sempre em horas impróprias para "entregar revistinhas" também, principalmente nos domingos de manhã.
    Cada País com suas peculiaridades e propagandas.
    Muito bom, entrei na história com real prazer, muito bom.
    Abraços e bom domingo Marcelo.

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  4. O filme que vimos muitas vezes desfila palavra a palavra diante de nossa memória emocional. A família certinha parece não permitir uma folha fora do lugar. E a vida segue, correta e com graça,seguindo o ritual do país que deu certo.

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  5. Meu caro amigo Marcelo! Que bom estar de volta com um texto assim ambientado em minha infância, mesmo que em outro país... Lembrei-me da vendedora da Avon (em algum lugar do passado do TP tenho um post para ela) com seus óculos de gatinha e vestido de gola espacial, din dong! Manhêêêê! Eu posso comprar um batom vermelho? Não... Você vai crescer (doce ilusão) e usar muitos ainda...
    Gostei de ler os termos tão comuns no mundo televisivo e cinematográfico de minha vida, mas fiquei encucada com essa tal de Peg Sue... Se o Edward cair na tentação dela, vai se ver comigo!!! rsrsrsrs
    Beijo!

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  6. An affair to remember....havia me esquecido deste filme, de linda trilha musical.Realmente, uma cena americana

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  7. Marco Antonio Rossi10:17 PM

    bom dia e uma otima semana.
    entrei em ferias e de saida esse texto retorna as ferias da minha já VELHA juventude.......
    Abraço

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  8. Jorge Cortás Sader Filho11:19 PM

    Marcelo, comentei o blog, mas não estou vendo.

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  9. André Albuquerque11:20 PM

    Também comentei no blog,mas não visualizo.

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  10. Mara Narciso11:20 PM

    Mas que belo país!

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  11. Marieta Pirajá Sguassábia Domingues11:21 PM

    Adorei e viajei...

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  12. Leda Valéria Suppa Basile11:23 PM

    Bárbara, Marcelo, a " divina perfeição americana invejada pelo resto do mundo e por todas as galáxias". Beijos.

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  13. Claudete Amaral Bueno9:46 PM

    Caminho da vida.......bem ao estilo americano mesmo! Um sarro! kkkkkk

    Um abraço,

    Claudete

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  14. Aquele abraço Marcelo!

    Bela magia Americana.

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  15. Adorei!!! Saudade de escrever assim, com leveza! Um abraço, querido!

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