Pular para o conteúdo principal

INFERNO NO CÉU



Viver muito pode ser um privilégio, mas também um castigo pós-morte. A menos que alguma religião tenha opinião diversa a esse respeito, é de se supor que os mortos cheguem ao paraíso com a idade cronológica do óbito. Se conservarem a última forma física que tinham aqui na Terra quando baterem as botas, então o céu deve ser um asilo. E o asilo celeste ganha gente cada vez mais velha, conforme aumenta a expectativa de vida do ser humano.

Ora, dentro dessa lógica, quanto mais miserável e socialmente desassistido um país, mais interessante será sua versão espiritual. Por mais incoerente que isso possa parecer. Como esses infelizes morrem cedo, a probabilidade de um paraíso povoado por defuntos na flor da idade aumenta bastante.

Mortos cheios de vida também não devem faltar no purgatório e no inferno, pois os devassos tendem a ir dessa pra melhor em pleno vigor físico, com a maioria dos dentes na boca e sem sinal de calvície ou de cabelos brancos. Triste injustiça, já que quem cuida direitinho da carcaça por aqui acaba indo um bagaço pra lá, de tanta hora extra que acabou fazendo...

Essas constatações levam a crer que, se a juventude é algo supervalorizado entre os encarnados, no reino dos fantasmas ela tende a ser ainda mais prestigiada. Imagine o sucesso que deve fazer um Jim Morrison ou um James Dean em meio a milhares de octogenárias desdentadas que certamente os abordam a todo instante em busca de autógrafos. Note que essas mesmas velhinhas teriam sido contemporâneas de Jim e de James aqui no planeta - tietes de seus discos e de seus filmes enquanto garotas de carne e osso. A diferença é que os dois ídolos, no caso, foram embora mais cedo, enquanto suas fãs ficaram vagando inconsoláveis pela Terra décadas a mais que eles. 

Ainda que as dores e limitações da carne deixem de existir quando se passa para o lado de lá, não é nada animadora a perspectiva de encarar a eternidade na condição de idoso. A menos que se aguarde ansiosamente lá em cima a chegada do Pitanguy, com seus bisturis redentores e alguma nova técnica trazida da Europa.

Para resolver, ou ao menos minimizar o problema, alguns expoentes da geriatria apontam possíveis caminhos. Um deles seria o enxerto de células-tronco na face, na pele e no couro cabeludo de forma preventiva, já a partir dos 50 anos, a fim de que o decujo chegue apresentável ao reino dos céus. Uma outra corrente de cientistas trabalha numa solução mais prática, econômica e emergencial, propondo aplicações de botox alguns dias antes do previsto desenlace. Esta segunda alternativa, embora mais barata, contempla o risco do botox perder seu efeito logo no decorrer dos primeiros meses de vida eterna, para desespero dos anciãos - que passarão séculos e séculos atrás de uma clínica celestial de estética que lhes forneça uma segunda e milagrosa aplicação. 

Entretanto, quaisquer das duas opções esbarram numa limitação de ordem terrena, nem um pouco fácil de equacionar: os planos de saúde. Muitos deles desde já consideram inviável a cobertura tanto do implante das células-tronco quanto do botox pré-óbito. A não ser que o governo autorize um reajuste nas mensalidades para a inclusão dos procedimentos.


© Direitos Reservados

Comentários

  1. Não inventa! O Céu é ótimo! Você toma um porre de 51, não faz besteira como o amigo inseparável dela, um tal de Lula, não tem ressaca. Come uma feijoada completa, fuma horrores e tudo bem. Já morreu mesmo...

    ResponderExcluir
  2. kkkkkk... adorei! Eu, viajando pelaszoropa descobri que não há nada de técnica nova... o que há mesmo é gente que não pega trânsito e os cremes la roche são realmente funcionais em climas de inverno... risos... adorei Marcelo! Quero muito morrer bem pra encontrar com Airton Senna e aquele veloz e furioso que morreu também de acidente de carro. Espero que os dois tenham encontrado cirurgiões melhores que o Pitanguy... risos..

    ResponderExcluir
  3. Abaixo a ditadura da beleza... No prazo final da validade... deteriora mesmo... não há como!
    Abraço.

    ResponderExcluir
  4. Muito bom. Fiquei imaginando aquele bando de velhinhas desdentadas correndo (correndo metafóricamente, evidentemente) atrás dos seus ídolos!

    E me lembrei que ouvi em algum lugar que o José Rico usou óculos escuros a vida toda por que tinha a mesma deformidade do Cerveró. Já pensou o choque nas finadas fãs que não teriam, sequer, como morrer de susto? He, he, he.

    ResponderExcluir
  5. Anônimo8:10 AM

    Rss.... ah... a eterna veneração à juventude. Mas, na tentativa de uma aparência melhor, deixaria de lado os caderninhos e lápis para os autógrafos e correria atrás dos dermatologistas e cirurgiões plásticos, os quais possivelmente também vão para o outro lado.

    ResponderExcluir
  6. Anônimo2:26 PM

    nem todas as transformações da beleza leva aos céus: exceto se houver mesmo cirurgiões plásticos celestiais... =)


    ResponderExcluir
  7. Mas... menino inteligente, esse negócio de botox e células tronco pré-óbito tem que ter o aval dos vermes. E se esses produtos forem tóxicos e matarem os vermes que têm que trabalhar para eliminar a matéria humana, como vai ficar? Sei não... se isso pega será uma revolução doida, vai-se o espírito e o corpo fica intacto, aí o espírito quer voltar para aquele corpo que o verme não comeu ... Menino do céu, vai ser uma revolução nos planos terrestre e celeste. Melhor irmos com Deus e as "purgas!... purgastório! vai doer menos kkk

    ResponderExcluir
  8. Paulo Marsiglio Neto12:13 PM

    Este é o Marcelo Pirajá Sguassábia em ótima forma literária!!

    ResponderExcluir
  9. Gislene Grazioli12:14 PM

    Sempre excelente você, Marcelo!! Ri com tua crônica , vou compartilhar! Um abraço,

    ResponderExcluir
  10. Sonia Maria Grisi12:15 PM

    Kkk boa comédia!

    ResponderExcluir
  11. Maria Helena Dix Carneiro12:16 PM

    Ótimo texto! compartilhando....

    ResponderExcluir
  12. Eduardo Balth12:16 PM

    Marcelo para de cheirar orégano com bicarbonato de sodio antes de postar ou escrever por favor, a idade é do corpo e não da alma, lembre que em quase todas as religiões a alma e eterna e feita de energia, logo sempre existiu e sempre vai existir, portanto no outro lado deve ser mesmo tudo velhinho e de cabeça branca.Pense tambem que se la a maioridade penal for de 18 como aqui deve ter um monte de menor deliquente, visto o numero de mortos na atualidade.

    ResponderExcluir
  13. Sonia Maria Grisi12:17 PM

    É verdade Eduardo Balth, a alma não tem idade, ela é eterna. Mas o texto é uma brincadeira, uma licença poética. Assim eu penso.

    ResponderExcluir
  14. Eduardo Balth12:18 PM

    Mas Sonia Maria Grisi voce tem de concordar que pelo menos do oregano ele abusou.

    ResponderExcluir
  15. Sonia Maria Grisi12:18 PM

    Kkk

    ResponderExcluir
  16. André Albuquerque12:19 PM

    A morte está virando uma "inimiga" da vida, ao invés de seu termo inevitável, graças a essa parafernália que ajeita o reboco sem alterar o alicerce.Ótimo texto, Marcelo Pirajá Sguassábia,forte abraço.

    ResponderExcluir
  17. Desculpe, Eduardo Balth, mas você literalmente não pegou o espírito da coisa...rsrsrsrsrs. Fiz um texto de humor, não um tratado religioso.

    ResponderExcluir
  18. Sandra Romanin12:20 PM

    Muito engraçado !!!! Vc se supera a cada texto !! Bjoo

    ResponderExcluir
  19. Leda Valéria Suppa Basile12:22 PM

    Eu sempre digo o que a Sandra Romanin escreveu acima: o Marcelo Pirajá Sguassábia se supera a cada texto. Na minha opinião, ele necessita de um reconhecimento mundial! Adoro

    ResponderExcluir
  20. Solange Mota12:22 PM

    Mirian Momesso de Moraes para você rir um pouco.

    ResponderExcluir
  21. Lauro Augusto Bittencourt Borges12:23 PM

    Marcelo, genial e fazendo links surpreendentes como sempre. Impressionante como um texto deliciosamente engraçado, e leve, pode suscitar controvérsia. Não creio!

    ResponderExcluir
  22. Maria Helena Dix Carneiro12:24 PM

    Você escreve tão bem, o tema foi tão original e irônico
    que não poderia
    deixar de compartilhar!

    ResponderExcluir
  23. Wagner Gomes Reis12:25 PM

    Texto divertido mas sem qualquer sintonia com a Doutrina Espírita. Gostei de ler. Curioso.

    ResponderExcluir
  24. Paulo Marsiglio Neto12:26 PM

    Brincadeira, Reis! Só besteirol!

    ResponderExcluir
  25. Paulo Marsiglio Neto12:27 PM

    Guilherme, o Jim Morrison e o James Dean devem sair correndo das velhinhas, rs, rs...

    ResponderExcluir
  26. Guilherme Duarte Costa12:28 PM

    Kkk são os Riders on the Storm do Umbral! Kkkkk

    ResponderExcluir
  27. Carlos Florence9:51 AM

    Marcelo

    Delícia de crônica. Parabéns e obrigado.

    Carlos Florence.

    ResponderExcluir
  28. Celi Estrada10:02 AM

    Pena não!... A 3a. idade precisa de uma faxina total!... Como chegar aos céus ???
    AH! AH! AH!
    Obrigada,
    Celi

    ResponderExcluir
  29. Marco Antonio Rossi10:03 AM

    Grande Marcelo, bom dia!!!
    depois de 1 semana de gripe e uso constante do plano de saúde, voce, excelente como sempre nos faz divertir com esse belo texto.
    Um grande abraço
    Rossi

    ResponderExcluir
  30. Claudete Amaral Bueno10:04 AM

    Marcelo. Vc escolheu bem a foto p/ representar o céu! kkkkkk
    Até que enfim, recebi a crônica da semana, imaginativa como sempre!
    Bom FDS p/ vc.
    Obrigada,
    Claudete

    ResponderExcluir
  31. José Carlos Carneiro6:02 PM

    Da crônica "Inferno ou céu", abordando o tema de forma peculiar, sui generis, inusitada, inovadora, coisas do tipo e etc. Valeu, cara!
    Abraço e bom fim de semana.

    ResponderExcluir
  32. Mara Narciso4:02 PM

    Nem me fale em reajuste de plano de saúde. O meu subiu, logo após um aumento normal, mais 50% em um mês. É que o grupo paga pelos gastos do grupo, e houve um furo monumental. Quanto ao texto, houve um avanço e tanto, quanto as preocupações pós-morten, sobre a aparência e não o sexo, antes, a única interrogação sobre os anjos.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…