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Mostrando postagens de Maio, 2015

MANÉ, SAUDOSO MANÉ

Lembro como se fosse hoje que passava um pouco de cinco e quinze da matina quando ele me ligou dizendo que tinha despertado com o lampejo, transformado em ideia tentadora, que logo virou desejo irrefreável de dar cabo de uma vez da sua vidinha sem atrativo. Queria ir pra junto do Flávio Cavalcanti, do Santos Dumont, do Jack Estripador, do Mussum e de todos os outros grandes que já tinham ido. Não via mais sentido em continuar ocupando seu invólucro castigado e tão sem atrativo, ainda mais vendo tanta gente melhor que ele abandonando precocemente o posto nesse ingrato campo de provas.

Dizia o Mané:

“Trabalho numa máquina de moer carne, minha mulher há muito deixou de exercer qualquer influência na minha libido e eu acho um saco fazer a barba todo dia. Isso sem falar das pombas que só aliviam sua diarreia no capô do meu carro, do jeito azedo do vizinho e da inesperada cobrança complementar do IPTU, referente ao puxadinho que construí sem autorização da prefeitura e que acabou virando depó…

MANUAL DE USO DO MANUAL

"Parabéns! Você acaba de adquirir o que há de mais avançado...". Se o seu Manual não começar assim, devolva o produto. Não o produto, o Manual dele, pois não é um Manual legítimo, como manda o figurino. Sua devolução ao redator responsável está prevista no Código de Defesa do Consumidor. Bem, se não está, deveria. 

Uma vez lido (pelo menos em suas principais partes) e estando o produto funcionando normalmente, use o Manual como calço de pé de mesa bamba ou outra utilidade do gênero. Isso porque já acabou a etapa em que você tinha que tê-lo à mão, ou seja, na instalação da geringonça. Se precisar de novo dele para alguma eventualidade, é mais fácil consultar na internet - que baixa no seu colo em PDF todos os manuais já redigidos pelo homem.

Há indústrias que alegam a obsolescência do Manual, e que a sua eliminação pura e simples como item constante na embalagem do produto poderia reduzir o preço final em até 3%. O argumento é que quase a totalidade dos consumidores lê e aplica…

MEU CARRASCO, MEU HERDEIRO

Ser o moleque de recados do maior agiota da cidade: o Criador não tinha posto ele no mundo para suportar essa vida por muito tempo. O boy de Villa Antiga montava em mula para as cobranças, e difícil era a vez que não voltava com o olho roxo ou o lábio cortado. Já andava cheio o embornal de desgostos, estava até a tampa de desaforo engolido. Não mais, agora é minha vez - decidiu. Entregou a mula e as promissórias resgatadas do dia ao tirano Tonzezão, que emprestava sem muita exigência de garantia, mas sabia buscar a mãe de quem não tinha mais nada. Chega de ser leva e traz, se entrasse em séria luta corporal com o destino poderia juntar para emprestar aos outros e ter o seu próprio moleque, correndo rua e dando a cara pra bater.

Só que não queria virar um Tonzezão mais novo, sem barriga, sem artrose e sem cabelo branco - tiraninho Tonzezinho metido a besta, coletor de suor alheio. Já conhecia bem a manha de ganhar dinheiro assim, mas não. Produzir e vender era mais decente que emprestar…

SOB HIPNOSE

Este texto é do Marcelo e não é. Escrevo em terceira pessoa porque aqui não é ele escrevendo e sim eu, seu analista, descrevendo. Ou melhor, anotando o que ele fala em transe hipnótico. Ideia dele, bem entendido. Sabia do risco que estava correndo, e mesmo assim quis a coisa em estado bruto.

Cinco... quatro... três... dois... um... Definitivamente, essa contagenzinha de relaxamento profundo em nada me inspira. Doutor, essa coisa desgastada não vai me dar um texto novo no sábado. Não sei por onde começar mas sei que não será por esse labirinto de hera, cheio de portas que não levam a lugar nenhum, cotovias flamejantes e areias movediças. 

Ao que parece, hoje ele está sem assunto. 

Problema seu amarrar tudo isso, Dr. Matos. Eu não tenho obrigação, aqui, de falar coisa com coisa. Agora, você sim, tem em costurar um sentido nessas associações que faço. Não vou dizer por onde vago agora. Você não acreditaria. Sujeito que escreve e faz análise dá nisso. Sujeito que escreve tem que ficar só na …

GRAMA AUTOCORTANTE E MATO AUTOELIMINANTE

"A imaginação é mais importante que o conhecimento", já dizia Einstein com a autoridade de quem sabia tudo desse mundo e de todos os outros, por mais que continue se expandindo esse Universo velho sem porteira.

Dois dos maiores estouros mercadológicos de que se tem notícia ilustram bem essa citação. Eles nasceram juntos em laboratório e não podem ser vendidos separadamente, até porque um complementa a ação do outro. Onde exista jardim, público ou privado, lá estão os gloriosos e insubstituíveis inventos de Alejandro Cortez de Calabares, que deram a ele fortuna e um lugar definitivo entre os grandes gênios da Catalunha.

Foi numa nebulosa manhã de julho que lhe veio à mente a redentora visão, que iria livrá-lo da dívida na mercearia e das seis parcelas em atraso no plano funerário. Profundamente sensibilizado por um drama pessoal vivido por Alícia Jimena, a dedicada governanta de sua tia-avó de Sevilha, Alejandro ergueu a ela um imaginário brinde com uma dose generosa de absinto…