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MANÉ, SAUDOSO MANÉ




Lembro como se fosse hoje que passava um pouco de cinco e quinze da matina quando ele me ligou dizendo que tinha despertado com o lampejo, transformado em ideia tentadora, que logo virou desejo irrefreável de dar cabo de uma vez da sua vidinha sem atrativo. Queria ir pra junto do Flávio Cavalcanti, do Santos Dumont, do Jack Estripador, do Mussum e de todos os outros grandes que já tinham ido. Não via mais sentido em continuar ocupando seu invólucro castigado e tão sem atrativo, ainda mais vendo tanta gente melhor que ele abandonando precocemente o posto nesse ingrato campo de provas.

Dizia o Mané:

“Trabalho numa máquina de moer carne, minha mulher há muito deixou de exercer qualquer influência na minha libido e eu acho um saco fazer a barba todo dia. Isso sem falar das pombas que só aliviam sua diarreia no capô do meu carro, do jeito azedo do vizinho e da inesperada cobrança complementar do IPTU, referente ao puxadinho que construí sem autorização da prefeitura e que acabou virando depósito para as tralhas de pesca do Lourencinho, primo desgraçado que ronca, fuça e é perito em aparecer de supetão pra filar a janta.

Já falei pra mim mesmo: olha pra trás, meninão. Conta até dez, chupa um halls daquele trinca guela. Nada como um halls extra forte bem chupado, se possível acompanhado de água geladíssima por cima, pra nos demover de decisões irrefletidas. Isso já dizia Danny F.Chesterfield, aliás com propriedade rara entre seus contemporâneos. O bom e velho Danny, idólatra da TV dos tempos em que domingo de manhã passava o programa do pastor Rex Humbard, “Imagens do Japão” e o “Caravela da Saudade”, que com seus fados levava aos prantos 9 em cada 10 donos de padaria no Canindé.

Estou aqui com o epitáfio prontinho. Está pronto em linhas gerais, ainda falta um acerto ou outro de ortografia e de colocação de vírgula. As seis alças do caixão já têm dono, e evidentemente você é um dos escalados. Pega numa perto do pé que o esforço é mais leve, a região da barriga deixo para uns parentes que tenho em baixíssima estima. Que eles sirvam pelo menos pra isso, já que nunca me emprestaram um tostão quando a lavanderia estava mal das pernas. Está tudo esquematizado, fiz um croqui em papel vegetal com as alças, puxando umas setinhas com o nome de cada um. Deixei na gaveta do criado-mudo, junto com umas outras orientações e providências que devem ser tomadas”.

Ameacei desligar o telefone, nauseado com tanta morbidez, mas ele dizia que ficaria na minha consciência se morresse de mal comigo. E continuava:

“Agora o que tá pegando é o jeito de liquidar a fatura. Estou aqui na cama caraminholando qual a modalidade mais prática e menos ortodoxa. Nada de ligar o gás, enforcamento na jabuticabeira, deitar na linha do trem, Ginsu na jugular ou lexotan com soda cáustica. Pensei em injeção de ar na veia, o modus operandi predileto dos nazistas no holocausto, o que me diz?”

Foi quando caiu a ligação, depois aconteceu o que todo mundo já sabe. A famosa reviravolta que o fez viver lúcido e sacudido até os 94, à frente do grupo de empresas que até hoje leva o seu nome.

© Direitos Reservados

Comentários

  1. Lexotan com soda? Morre dormindo... Linha de trem, nem pensar!

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  2. Anônimo7:38 AM

    Para variar, mais um texto excelente! Parabéns! Nicete

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  3. Qualquer semelhança... é vero - desde a ilustração! Mané, é o protótipo dos dias atuais...
    Abraço.

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  4. Percebe-se que o desabafo higieniza mentes. Quantas vontades passamos de encontrar quem nos possa ouvir em nossos piores momentos. Sorte do Mané!

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  5. Num dia de um mês de um dos anos da década de sessenta subi a avenida Dona Gertrudes, por volta de meia noite e quinze, conversando com um amigo que manifestava, na conversa, o seu inconformismo com o suicídio praticado algumas horas antes por um nosso amigo comum. Dizia ele que não conseguia entender, e não se conformava com aquilo. Como alguém pode por fim à própria vida, indagava ele, seguidamente.. Nos separamos no final da avenida, cada um se dirigindo rumo à sua residência. Soube, logo pela manhã, quando saí para o trabalho, que naquela madrugada aquele amigo havia se matado. E, ainda, que comigo foi com quem por último ele conversou. Quanto àquelas indagações é evidente que nada a ele eu respondia.

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  6. Marco Antonio Rossi2:38 PM

    Bom dia e uma ótima semana!!

    Conheci dois grandes Manés: o Garrincha eum bicheiro no Cambuci em São Paulo, quase ficaram ricos....
    abraço
    Rossi

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  7. Claudete Amaral Bueno2:40 PM

    Esse Mané tem a imaginação ótima! Só perde pra vc!

    Gostei do texto! Parabéns!

    Boa chuvinha!

    Claudete

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  8. Wagner Bastos2:42 PM

    Bão demais

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  9. Martha Tavares Pezzini2:43 PM

    Oi Marcelo Pirajá Sguassábia, coloque in box um endereço para eu mandar seu livro! Depois quero comentário!Rs

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  10. José Hamilton Brito2:44 PM

    Uai, que problema ocorreu com o seu link? Xápralá. Por que será que todo Zé e Mané são saudosos?

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  11. Clotilde Fascioni2:45 PM

    Amei, muito engraçado. Me surpreendi ao relembrar da programação de domingo, assisti muito aqueles três programas que tenho certeza hoje não consiguiria nem ficar o tempo de uma piscadela assistindo, hahaha. Abrçs Marcelo, Bom domingo..,

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  12. Olá Marcelo, texto bem humorado e criativo.

    Abs,
    Dino

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  13. Mara Narciso1:38 AM

    Mais um pseudossuicida. Ficou horrível, mas pesquisei aqui e parece que é assim mesmo.

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  14. Já está mais pra lá do que pra cá....

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