Pular para o conteúdo principal

MANUAL DE USO DO MANUAL



"Parabéns! Você acaba de adquirir o que há de mais avançado...". Se o seu Manual não começar assim, devolva o produto. Não o produto, o Manual dele, pois não é um Manual legítimo, como manda o figurino. Sua devolução ao redator responsável está prevista no Código de Defesa do Consumidor. Bem, se não está, deveria. 

Uma vez lido (pelo menos em suas principais partes) e estando o produto funcionando normalmente, use o Manual como calço de pé de mesa bamba ou outra utilidade do gênero. Isso porque já acabou a etapa em que você tinha que tê-lo à mão, ou seja, na instalação da geringonça. Se precisar de novo dele para alguma eventualidade, é mais fácil consultar na internet - que baixa no seu colo em PDF todos os manuais já redigidos pelo homem.

Há indústrias que alegam a obsolescência do Manual, e que a sua eliminação pura e simples como item constante na embalagem do produto poderia reduzir o preço final em até 3%. O argumento é que quase a totalidade dos consumidores lê e aplica apenas as instruções do guia de instalação rápida, adiando a leitura do Manual completo para o fim de semana seguinte. Acontece que o fim de semana chega e, com ele, coisas bem mais interessantes para ler do que o nosso injustiçado Manual.

É bom lembrar que todo e qualquer Manual sai de fábrica com garantia de um ano contra defeitos de compreensão. Se mesmo após sucessivas tentativas de leitura o problema persistir, ainda assim você poderá seguir alguns procedimentos antes de levar o seu Manual à assistência técnica:

. Verifique o tamanho da letra do texto e certifique-se de que ela é compatível com sua acuidade visual. Consulte seu oftalmologista para informações mais detalhadas.

. O problema pode estar na luminária - demasiadamente afastada ou com lâmpada de baixa potência. Na dúvida, leve-a ao seu eletricista de confiança e siga suas instruções antes de empreender nova tentativa de leitura. 

. Por ter esse nome - Manual - fica implícito que o mesmo não é automático. Se assim fosse, suas instruções entrariam no cérebro sem o esforço consciente da parte do consumidor. Assim, conforme-se com as limitações intrínsecas do mesmo e sua natureza enfadonha.


© Direitos Reservados

Comentários

  1. Adoro ler manuais. Bulas de remédio também. Ambos são muito fáceis de entender-se!

    ResponderExcluir
  2. Realmente, supérfluos tais manuais... Nos ensaios e erros, e nas tentativas, que fazemos "a geringonça" pegar no tranco mesmo!
    Abraço.

    ResponderExcluir
  3. Marco Antonio Rossi12:16 AM

    Bom dia, meu amigo e ótima semana.

    Como é bom tentar fazer os aparelhos funcionarem com nossos amplos conhecimentos técnicos e prática de muito anos, ao invés de usar o MANUAL......
    grande abraço
    Rossi

    ResponderExcluir
  4. Claudete Amaral Bueno12:18 AM

    Nota 10 p/ o seu artigo desta semana. Odeio os "manoeis" da vida!

    Vc os descreveu magistralmente! Mas.....é um mal necessário, digamos assim!

    Um abraço!

    Claudete

    ResponderExcluir
  5. Nicete Campos12:20 AM

    Excelente, Marcelo!
    Quer uma sugestão de outra porcaria que inferniza a todos nós? EMBALAGENS de alimentos.
    Quer outra? BULAS de medicamentos.
    Parabéns! Seus textos são ótimos.
    Nicete Campos/Anita Cimirro
    http://www.opusdissonus.com.br/anitacimirro/
    Jornalista, escritora e educomunicadora

    "A Ética como norteadora do SER" (Haspásio)

    ResponderExcluir
  6. Nelson Tangerini12:27 AM

    Tentei postar em minha página mas não consegui. NMT.

    ResponderExcluir
  7. André Albuquerque12:29 AM

    Nem com o Manual do sexo manual do Casseta e Planeta dei tanta risada.Parabéns,Marcelo

    ResponderExcluir
  8. Clotilde Fascioni12:30 AM

    hahahah, eu tenho dois Engenheiros Eletricistas na família que lêem absolutamente TODO o manual antes de montar ou ligar qualquer geringonça, daí que deduzo que só os engenheiros têm paciência para lerem os dito cujos e gostam do assunto que eles trazem. Sendo assim os fabricantes poderiam descontar os 3% dos que não lêm, o que vc acha? Adorei o texto, parabéns por ter assunto para toda semana, eu estou em recesso.... Abraços e Bom fim de semana.

    ResponderExcluir
  9. Jorge Cortás Sader Filho12:31 AM

    Circuito impresso com entrada de 5 A e saída de uma Dilma.

    ResponderExcluir
  10. Leda Valéria Suppa Basile12:32 AM

    Me acabando de rir, Marcelo Pirajá Sguassábia, você é genial, genial mesmo. Ô cachola inacreditável essa de tão boa!

    ResponderExcluir
  11. Antonio Carlos Antoniazi12:34 AM

    As instruções inseridas no seu "Manua.., digo, na sua "Crônica", realmente são esclarecedoras para o correto uso de um "Manual" que ofereça instruções para a adequada utilização de um "Manual".

    ResponderExcluir
  12. Sonia Maria Grisi12:35 AM

    Muito bom Marcelo!

    ResponderExcluir
  13. Mara Narciso2:40 AM

    Perfeito cujo clímax aconteceu quando o prazo de validade do Manual surgiu em cena: um ano.

    ResponderExcluir
  14. Tal qual a bula de remédios: terríveis leituras!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…