Pular para o conteúdo principal

MEU CARRASCO, MEU HERDEIRO




Ser o moleque de recados do maior agiota da cidade: o Criador não tinha posto ele no mundo para suportar essa vida por muito tempo. O boy de Villa Antiga montava em mula para as cobranças, e difícil era a vez que não voltava com o olho roxo ou o lábio cortado. Já andava cheio o embornal de desgostos, estava até a tampa de desaforo engolido. Não mais, agora é minha vez - decidiu. Entregou a mula e as promissórias resgatadas do dia ao tirano Tonzezão, que emprestava sem muita exigência de garantia, mas sabia buscar a mãe de quem não tinha mais nada. Chega de ser leva e traz, se entrasse em séria luta corporal com o destino poderia juntar para emprestar aos outros e ter o seu próprio moleque, correndo rua e dando a cara pra bater.

Só que não queria virar um Tonzezão mais novo, sem barriga, sem artrose e sem cabelo branco - tiraninho Tonzezinho metido a besta, coletor de suor alheio. Já conhecia bem a manha de ganhar dinheiro assim, mas não. Produzir e vender era mais decente que emprestar cinco e tomar vinte de volta. E sucedeu que foram anos sem lembrar o que era dormir e jogar conversa fora de domingo, porque todo dia era feito para gramar até que o negócio que abriu fizesse o favor de dar lucro. E como deu. A prosperidade veio e começou a ganhar barriga, artrose e cabelo branco como o Tonzezão dos velhos tempos, só que em paz à noite com o travesseiro. Rico pelo merecimento de trabalhar direito, não de tirar de quem quase não tem. 

Sua filha Cândida, a linda. Por 19 anos conseguiu guardar bem guardada a estonteante fêmea em casa antes de entregá-la a Orêncio, num rega-bofes que a Villa Antiga, agora promovida a Vila Nova, não ia esquecer tão cedo. Bolo cortado, foto tirada, buquê jogado e gravata de noivo retalhada, foram pra lua de mel que seria linda como a noiva, se o avião não tivesse caído. 

Acabado o luto, canalizou o bem querer para o Laércio, sobrinho um pouco distante na geografia e na árvore genealógica, mas o único. O velho, agora megaempresário e prefeito, morreu fazendo a sesta após pesado almoço em companhia do sobrinho, na casa grande de uma de suas fazendas. E Laércio se viu dono de tudo, sem esperar e nem saber o que fazer com tanto patrimônio. 

Deslumbrado e perdido ao mesmo tempo, fez rapidamente da namorada Sofia sua sócia nos negócios. Ambiciosa e cheia de má intenção, fingia-se de boazinha e só precisou de dois dias para fazer o serviço sujo. Na sexta, casou-se com Laércio. No sábado, envenenou o coitado e, mancomunada com um legista sem vergonha, arrumou atestado de óbito onde constava a salmonela da maionese de casamento como causa mortis. 

A nova herdeira de tudo, que do velho patriarca não tinha nem o sangue e nem o caráter, gastou três anos comprando o que via pela frente. Até que uma bala perdida veio se alojar na sua cabeça, enquanto veraneava em Cartagena. O patrimônio caberia, por direito, aos três irmãos da golpista. Ainda no meio do inventário, um grande banco caiu em cima do montante, por conta de uma dívida impagável em nome do trio. E lá se foi a herança para o banqueiro, neto do bom e velho Tonzezão. 


© Direitos Reservados

Comentários

  1. castigo ou coincidência...that's the quesion

    ResponderExcluir
  2. Parece história de político brasileiro. Do PT, é claro...
    Ô raça!

    ResponderExcluir
  3. Aff, que isso é uma novela mexicana bem abrasileirada! Quase uma Quadrilha de Drummond se não fosse uma quadrilha de muitas mãos - quase que rima! Quase parecido com as atuais circunstâncias bradrilha, brasilha, quasilha... sei lá, algo quase assim! .

    ResponderExcluir
  4. Não vale!
    Assisti a isso tudo pela mídia... E, em muitos e repetidos capítulos!
    Você fez a síntese. Gostei!
    Abraço.

    ResponderExcluir
  5. Gostei do "embornal de desgostos" ... muito bom! Beijo

    ResponderExcluir
  6. Nicete Campos5:07 AM

    Excelente texto que retrata muito bem essa coisa de herança. De qualquer modo, se o banqueiro não fosse parente, iria para ele ou para os parlamentares desse Brasil sem rumo.
    Parabéns!
    Nicete Campos/Anita Cimirro
    http://www.opusdissonus.com.br/anitacimirro/
    Jornalista, escritora e educomunicadora

    ResponderExcluir
  7. Fátima Borghi8:03 AM

    Parabéns. Tirando a desgraceira toda, mostra como esse mundo é pequeno demais... e não creio que haja um mínimo de coerência. E ai é que acho que está o inusitado. Então, resta viver, viver agradável o hoje, porque não sei o que está reservado nesse futuro tão incerto. Abs.

    ResponderExcluir
  8. A herança é o que sobra do morto para os herdeiros se matarem uns aos outros até não sobrar ninguém, dai vai tudo pra o governo que recebe tudo feliz e contente sem nenhum esforço. Abraços Marcelo. Ótimo texto.♥ Clotilde ♥ Fascioni

    ResponderExcluir
  9. Marco Antonio Rossi1:01 AM

    Bom dia e uma excelente semana.
    O mundo realmente escreve certo por linhas tortas!!
    Abraço
    Rossi

    ResponderExcluir
  10. Cristina Lebre1:03 AM

    Obrigada, Marcelo, bjs de poesia,

    Cris Lebre

    ResponderExcluir
  11. Claudete Amaral Bueno1:04 AM

    Esse.....coitado......n/ adiantou trabalhar honestamente.......rsssss
    Parabéns!

    Bom FDS
    Claudete

    ResponderExcluir
  12. Antonio Carlos Antoniazi1:11 AM

    Então, amigo Marcelo Pirajá Sguassábia. É isso mesmo. O dinheiro circula, circula, circula. Circula sempre no mesmo círculo.

    ResponderExcluir
  13. Luciana Sleiman1:11 AM

    Eita roda viva!!!

    ResponderExcluir
  14. Assim Caminha a Humanidade ...

    ResponderExcluir
  15. André Albuquerque1:14 AM

    Bem feito, quem manda veranear em Cartagena,rsrsrs.Muito bom, Marcelo Pirajá Sguassábia.Um abraço.

    ResponderExcluir
  16. Gilberto Pirajá1:15 AM

    Moral da estória: Tonzezão foi um dos resposavel pelo gordo lucro do banco.

    ResponderExcluir
  17. Marcelo... Sempre prendendo nossa atenção com suas histórias criativas. Abração, amigo!!

    ResponderExcluir
  18. Mara Narciso2:58 PM

    Humor negro para ninguém botar defeito. A queda do avião chegou rápida feito foguete. Fez-se justiça invertida. Como se diz: o rio corre para o mar.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…