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MONOCHROME

Foto: Theatro Municipal de São João da Boa Vista


Tento derramar cores sobre a foto de família: o resultado soa falso. Uma coisa desalmada, sem pulso e temperatura. Cria-se uma inadequação, um ar postiço, não caberia cor ali de forma alguma. O mundo de 1941 da foto com margem branca e cantoneira, tirada de um álbum de madeira marchetada, é natural e necessariamente em preto e branco. Há propósito, graça e sentido em ser assim.

No entanto, quem estava lá posando para a pesada câmera, num vestido estampado e eternizado no clique em paupérrima escala de cinza, jura que o mundo era mais colorido que hoje. As cores mais vivas e intensas, flores e gramados sem a fuligem - essa sim monocromática - das chaminés e escapamentos. Sim, as hoje muito velhas gentes garantem que o branco e preto das fotos não fazia justiça ao variadíssimo pantone da vida real. Por mais que os ternos de linho fossem impecavelmente brancos, e as largas saias das beatas de respeito invariavelmente negras, havia cores intensas por todos os lados. 

A mulher do vestido estampado, enquanto ensaia a melhor posição para o clique, flerta com os olhos azuis do moço do reluzente Cadillac verde, tinindo debaixo do sol. Logo mais, à noite, a fila no cinema dobra o quarteirão para assistir Cidadão Kane. Honrando o preto e branco da obra-prima, só mesmo o preto e branco da plateia. Não pode ser de outra maneira, gente colorida assistindo seria profanar o monumento de celuloide. 

Há foto de cemitério na penúltima página do álbum marchetado. O lugar onde faz mais sentido ainda o black and white se bastando, o preto dos enlutados e o branco do mármore de carrara dos túmulos. Complementam-se divinamente o pesar dos que ficam e a leveza angelical dos que se foram. Negra é a escuridão embaixo da terra, alva é a asa de anjo, promessa da Bíblia e do padre. 

Aquele retrato do Guevara de olhar posto em horizonte incerto, Carlitos em filme ou foto, Einstein mostrando a língua, o beijo do final da guerra em Times Square: qualquer cor banalizaria instantaneamente esses monumentos imagéticos, tiraria deles a autoridade mítica. 

Decerto que a cor é uma ilusão do olho, que a Terra de azul não tem nada, é quando muito um ponto branco e minúsculo no negro imenso do cosmo. A mim já está mais do que claro que a madeira marchetada, do álbum aqui no colo, tem seus tons amarronzados só dentro dessa cabeça. Incerta massa cinzenta, de cinzentos pensamentos que ficam indo e voltando enquanto não viram cinzas.


© Direitos Reservados

Comentários

  1. O colorido tira muito a arte de certas fotos. Nunca duvidei disto. Escreveu muito sério hoje, Marcelo. Gripado?
    Abraço.

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  2. Certamente tinha mais cor aquele mundo do álbum de madeira marchetada. Nele havia os entretons e os encantos escondidos. É, talvez devêssemos voltar ao mundo preto e branco.

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  3. Seria preconceito ao preto e branco? Ou o preto no branco? Não se chateie por tão puco, Marcelo... Qualquer coisa nominemos as ditas fotos que, muitos de nós as temos, de fotos "afrodescendentes" e politicamente, por incrível que pareça, ficaremos corretos! Pelo menos uma coisa havia: - nenhum artifício ou photoshop... As matronas e sua prole apresentavam-se "in natura" mesmo!
    Abraço.

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    Respostas
    1. Se a alma está em preto e branco, mais preta que branca, não haverá cor que dê jeito. Mas eu gosto de fotos em preto e branco, como aquelas daquele fotografo, acho que Sebastião Salgado,,,é isso mesmo?

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  4. Deve ser foto de algum corintiano fanático. Depois que a Fifa entrou na parada, a bola da terra de azul não tem mais nada. Vai ficar tudo roxo... de hematoma.
    Brincadeiras à parte, as fotos eram verdadeiras em preto e branco.

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  5. Também gosto das fotos em P&B e as vezes fico imaginando as cores originais. Mesmo assim tudo era muito sombrio antigamente, talvez porque eram as penumbras mais "acolhedoras e intensas", sei lá. Gosto do ontem no lugar dele, o ontem apenas para visitas ocasionais, como a sua, que viajei junto até no cemitério...
    Abraços Marcelo...

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  6. Marco Antonio Rossi1:02 AM

    Bom dia, pensei que voce iria falar dos 50 tons de cinza.....
    Mas mudando de pato pra ganso, voce esta um verdadeiro atleta subindo a avenida com as compras nas mãos.
    Grande abraço e ótima semana.
    Rossi

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  7. Claudete Amaral Bueno1:04 AM

    Eu gosto muito de fotos em preto e branco! São mais nítidas!
    Parabéns pelo texto!
    Uma boa semana
    Claudete

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  8. Ademir Cabelo1:05 AM

    Mto bom, manda os links pra minha filha tbm Marcelo: camila.porfirio@gmail.com
    Abç

    Cabelo

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  9. Marieta Pirajá Sguassábia Domingues1:14 AM

    Adorei, mano bjs

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  10. Anette Sguassabia1:16 AM

    Adorei e compartilhei.

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  11. André Albuquerque1:17 AM

    Uma bela homenagem a essa magnífica ilusão que nos enternece até hoje.

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  12. Mary Maia1:18 AM

    Que belo texto! Perfeito! Adorei! Abraços.

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  13. Mara Narciso1:19 AM

    ♫ ♫ ♫ Daltonismo não, o negócio é P&B.

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  14. Leda Valéria Suppa Basile1:20 AM

    Amei, amei, amei!!!

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  15. Antonio Carlos Antoniazi1:21 AM

    Muito bom !!! Daltonismo.

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  16. Colorizar uma foto qualquer já é uma violência. Fazer isso numa imagem icônica então, é crime. Ainda que o mundo seja colorido, a foto sem cor merece permanecer assim, em P&B. Só posso concordar com sua viagem no tempo.

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