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DEVORADORES DE ORELHA



Somos os devoradores de orelha, e viemos livrá-lo do mais avassalador infortúnio do mundo pós-moderno: a falta de tempo. No caso, falta de tempo para ficar up-to-date com o universo literário daqui e d'além mar. Nem que seja aquele leve e basiquinho verniz cultural.

Os lançamentos editoriais são tantos que, ainda que fosse feita a leitura só das orelhas, o tempo dispendido seria enorme. Como conhecimento é o ouro do século 21, surgiu dessa necessidade a ideia do nosso negócio.

Nossos leitores de orelha, hoje totalizando 314 profissionais intensivamente treinados, alternam-se em turnos estafantes de 12 ou mais horas e têm de recorrer a técnicas de leitura dinâmica para darem conta de suas cotas diárias de resumos. Lidas, cada orelha gera uma mini-sinopse que é enviada ao cliente via eletrônica, com o básico que ele precisa saber para não passar vexame numa conversa. Claro que o assinante do serviço determina as áreas de interesse sobre as quais necessita manter-se atualizado.

Suponha uma saia justa numa festa, onde perguntam a você o que achou de determinado livro. Basta simular que o celular está chamando, você se afasta um pouco, consulta o resumo de orelha correspondente e volta dominando o assunto. Em linhas bem gerais, mas o suficiente para não chutar a bola para fora do estádio. 

O serviço é eclético nos gêneros e inclui também os resumos de orelha daquelas obras fundamentais, que dão estofo à cultura geral do indivíduo. Grandes clássicos, como "Em busca do tempo perdido", "A montanha mágica", "Dom Quixote" e "Crime e Castigo" estão disponíveis para pronta entrega. Não só na forma de e-resumos, mas de falso livro também. Em volumes novíssimos, de capa dura, ou artificialmente manuseados por processo industrial de envelhecimento. O recheio é em isopor, proporcionando leveza e facilidade na remoção quando for a hora de tirar o pó da estante. 

Oferecemos também uma sensacional novidade, vinda há poucas semanas da Europa: o isopor com capa refil. O cliente adquire a princípio apenas os isopores e vai trocando periodicamente as capas com novidades e best-sellers da indústria editorial, simulando uma pretensa atualização com o que de melhor vem chegando às livrarias. É sua decisiva oportunidade de postar no Instagram e em outras redes sociais fotos suas em frente à biblioteca-cenário, legando à sua extensa rede de amigos a imagem de um erudito com sólida formação literária e artística. 

Como em todo negócio inédito e de sucesso, não demorou muito para que começasse a surgir concorrência desleal. Alertamos a todos que o referido concorrente, o qual por razões éticas não iremos citar o nome, deixou recentemente um ex-Presidente da República em situação diplomática vexatória numa cerimônia de entrega de título de Doutor Honoris Causa. Assinante do serviço, o popular ex-ocupante do Alvorada precisou recorrer à mini-sinopse de uma obra de Santo Agostinho e deparou-se com a orelha de "50 tons de cinza". Uma falha imperdoável, que atribuímos à incompetência dos leitores de orelha desse relapso colega de mercado.


© Direitos Reservados


Comentários

  1. Sou devedora de livros... não me daria bem com "isopor"... Quem se deu mal, hoje vira boneco ambulante inflado nas passeatas de quem está de saco cheio de ouvir baboseiras e promessas mentirosas... Nossas orelhas físicas foram transformadas em penicos!
    Abraço.

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  2. A estante com livros de isopor eu conheci. Trabalhava na TV Bandeirantes em São Paulo e um dia, andando por lá,dei de cara com o cenário de um programa de entrevistas que ia ao ao aos domingos, depois da meia-noite (já segunda-feira, né?). Fiquei mais impressionado ainda porque as lombadas não tinham nada escrito, eram só rabiscos que, de longe - em tinta dourada sobre o vermelho das "capas" - pareciam pomposos títulos de obras imprescindíveis.

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  3. Bom, no facebook temos muitos devoradores!! Beijo, querido!

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  4. Onde eu consigo "A Divina Comédia" em isopor digital? Não estou encontrando.

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  5. kkkkkkkkkkkk
    Não sei se dou risada do texto, ou dos comentários aqui postados. Logo, não dá para ler somente a orelha do blog do Marcelo, Temos que ler o miolo também. Vai inventar um blog de isopor virtual, Marcelo?

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  6. Nanô Avancini2:00 PM

    Tive a honra e o prazer de trabalhar com esse cara de ouvido atento e olhar discreto. Saudade de vc, Marcelo Pirajá Sguassábia. beijo da Baeeeeea!!!!!

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  7. Clotilde Fascioni2:01 PM

    hahaha, maravilha de texto. Também gosto das orelhas quando visito livrarias, a maioria é "saborosa". Bom domingo Marcelo Pirajá Sguassábia

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  8. Mary Maia2:02 PM

    Rsss... Que fantástico! Bom domingo. Abraço.

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  9. André Albuquerque2:04 PM

    Alguns resenhistas merecem o troféu Van Gogh pelo que escrevem.Excelente crônica,Marcelo Pirajá Sguassábia

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  10. Maria Helena Dix Carneiro2:05 PM

    Muito bom, excelente! Suas idéias,para elaboração de um texto, são ímpares!

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  11. Lauro Augusto Bittencourt Borges2:06 PM

    Meu amigo, preciso do serviço para ter na manga algumas obras "fundamentais" que tentei, mas não as digeri na íntegra. Engraçada crônica e uma sacada que pode rolar nestes tempos em que a superficialidade impera. Abraços setesetêmbricos, pra plagiar sua linha de neologismos.

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  12. Marco Antonio Rossi2:08 PM

    Carissimo amigo Marcelo
    uma ótima semana e cuidado com as orelhadas do governo, devoradores de impostos...
    Abraço
    Rossi

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  13. Claudete1:13 AM

    kkkkkkkkkkkkkk

    Deu uma bem no fígado do Lula, hein??????
    Ótimo texto! Uma boa-noite! Abraços!
    Claudete

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  14. Mara Narciso12:49 AM

    Preciso ler orelhas urgentemente. Sei pouco demais.

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