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MUSEU EM CÁPSULAS




Há o museu das cápsulas do tempo e seu acervo fabuloso. A cápsula do tempo enterrada em 1712 e aberta em 1812. A cápsula montada em 1901 e só violada na virada do século seguinte. A réplica da cápsula enviada ao espaço em 1964 e sabe-se lá quando e por quem será encontrada. Estas e muitas outras cápsulas abastecem o inusitado museu. Uma das mais recentes aquisições foi descoberta por esses dias, próxima a uma aldeiazinha banhada pelo Tejo, e data de 1340. Muito provavelmente, uma das mais antigas cápsulas de que se tem notícia. E também das mais franciscanas: guardava apenas alguns poucos e desinteressantes utensílios domésticos, dois capuzes monásticos, uma roda de alguma estranha traquitana e uma moeda tão gasta que mal se distinguia a cara da coroa.


As que compõem o museu são as encontradas e abertas a seu tempo, diante dos olhares incrédulos das gerações futuras a que eram destinadas. Mas há milhares delas para sempre enterradas e intactas, a menos que o acaso ou algum incidente não previsto venham a atrapalhar seu sono. Dessas o museu jamais terá notícia, embora sejam tantas espalhadas por toda parte.


Daí a pergunta: como alguém se dá ao trabalho de reunir livros, jornais, fotos, filmes, documentos e os mais diversos objetos, para em seguida acondicioná-los, lacrá-los e enterrá-los sem deixar um mapa onde o futuro tesouro poderá ser descoberto? Esses anônimos e abnegados montadores de cápsulas provam com sua tarefa um amor sem medida à raça humana. Justamente por conhecerem bem a curiosidade daqueles a quem tanto amam é que mantêm em rigoroso sigilo a localização de suas arcas históricas. Não querem correr o risco de um vândalo bisbilhoteiro botar tudo a perder antes da hora e acabar com a graça e a utilidade da coisa.


Alguns montadores de cápsulas são egoístas ao extremo e fazem delas investimentos de longuíssimo prazo. Sabem muito bem esses gananciosos que, ao fim de 200 ou 300 anos, tudo o que colocarem em suas caixas blindadas valerá bastante dinheiro. Assim, deixam testamentada sua intenção em documentos e mapas detalhados de localização, guardados nos cofres de suas mansões, para serem abertos no momento oportuno exclusivamente por seus descendentes. Tão logo abertas, tais cápsulas são imediatamente negociadas pelos tataranetos junto aos mais sofisticados antiquários e casas de leilões do mundo. Dessa forma, perpetuam suas fortunas familiares e ao mesmo tempo   prejudicam a missão a que o museu se destina, destruindo cápsulas de valor histórico e científico incalculável.


Fotos do museu das cápsulas do tempo, mostrando o seu acervo no estado em que se encontra hoje, estão anexadas a este documento. Fica assim criada a cápsula que registra a saga das cápsulas, com instruções para ser aberta apenas no ano de 2115.





© Direitos Reservados

Comentários

  1. Élide Signorelli12:11 AM

    Marcelo
    Realmente curioso esse comportamento do homem de encapsular objetos para a posteridade. São realmente preocupados com o tempo, em deixar história, em documentar.
    É um museu em capsulas mesmo. Se a moda pega......
    A única capsula que não consegue conservar é o caixão fúnebre.
    Quem sabe um dia alguém ainda vai inventar caixões que conservem o defunto.
    Eu prefiro uma capsula que me conservasse jovem. Tem?
    Parabéns
    Beijo
    Élide

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  2. Acho melhor observarmos os acontecimentos em Mariana/MG... onde nada ficou pra contar história... Nem capsulas, nem tesouro algum... Apenas "lama" que corre nas veias de muitos mortais...
    Abraço.

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  3. Marco Antonio Rossi10:29 AM

    Bom dia e ótima semana, amigo Marcelo.
    Por favor reserve um lugar ao seu lado em 2115 para eu acompanhar a abertura da cápsula.
    Abração
    Rossi

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  4. Claudio Melo10:32 AM

    Muito bom. Tem uns políticos mandando cápsulas para a Suíça.

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  5. Antonio Carlos Antoniazi10:33 AM

    Há uma cápsula sob o piso da Igreja Presbiteriana da rua Benjamin Constant, meu caro amigo Marcelo Pirajá Sguassábia. Ali "enterrada" quando do lançamento da "pedra fundamental" da construção do novo Templo, contém jornais/revistas e objetos da época, além de nomes e assinaturas, com outras identificações, das pessoas que na oportunidade ali estavam. Lá estive, nessa oportunidade, como responsável pela área de jornalismo da Rádio Piratininga de SJBVista.

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  6. Se mandarem a descrição dos fatos que estão ocorrendo em 2015, as capsulas não devem ser abertas nunca!

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  7. José Hamilton2:53 AM

    O meu nome está numa dessas cápsulas em uma basílica la em Lins. Eu era seminarista quando lançaram a pedra fundamental. No fiuturo estarei lá comoo famoso senhor quem....

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  8. Não dá para beber essa cápsula com leite e café , pão e manteiga no café da manhã... sei lá, ando com mania de capsulas... Melhro não descartá-las no solo, são prejudiciais ao meio ambiente.

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  9. Mara Narciso10:54 PM

    Quanta imaginação. Aliás, como sempre. A sua caixa de surpresas mantém-se inesgotável.

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