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SHANGRI-LÁ É SÓ AQUI



Que ninguém alegue ignorância sobre o castigo que espera quem conhece o lado de lá das nossas montanhas. A ira divina cairá como um raio sobre a cabeça dos desobedientes, assim que chegarem ao topo das fronteiras do reino. Conhecerão a desgraça de uma sociedade injusta e defeituosa, onde prevalece a carência em todos os níveis e onde a alegria é a exceção da regra. Ser curioso, no caso, trará desastrosas e irreversíveis consequências.

Se por aqui nossos orgasmos duram doze miseráveis minutos, lá é ainda pior. Dez segundos, quando muito. Pensem bem: quem é o maluco que vai se dar ao trabalho de se arrumar para sair, conquistar alguém do sexo oposto, adular a presa durante semanas ou meses para tudo acabar no tempo que se leva para dar um espirro?

Sabemos que não há nada de extraordinário em ter 16 narizes. Diria até que, para a maioria de nós, seria muito difícil imaginar a vida com apenas 15, como é o caso de algumas crianças com má formação congênita. Que dirá viver com apenas um? Pois esse é o caso dos povos além-montanhas. O mínimo que se poderia aceitar como razoável seria uns três narizes no rosto e mais uns dois nos ombros ou nas costas - jamais um só, na parte da frente do corpo. A coisa é mesmo estranha e funcionalmente limitada. Além disso, os sovacos tendem a ficar peludos se não forem raspados, as unhas precisam ser cortadas de vez em quando e há quatro dentes que nascem apenas para serem extraídos.

Pela enfadonha e inútil repetição de tarefas, a rotina deles dá pena. Saem de casa toda manhã, se metem em filas intermináveis de automóveis, passam raiva o dia inteiro, se estressam, amaldiçoam patrões e governos, entram de tardezinha em outro comboio de carros para voltar à casa e fazer exatamente as mesmas coisas no dia seguinte. Tudo isso para conseguir juntar um dinheirinho e passar uma semana por ano do mesmo jeito que nós passamos a vida toda: deitados à sombra dos coqueiros, comendo camarão e tomando caipirinha.

Mais ou menos por essa época, nossos desafortunados vizinhos comemoram o réveillon como se algo, finalmente, fosse mudar. Esvaziam seus sacos de cólera e frustração à beira-mar, para enchê-los de novo até a boca nos doze meses seguintes. E assim sucessivamente, até morrerem em seus pijamas, aos cuidados de desconhecidos e com incontinência urinária. Sim, porque estranhamente esses humanoides vão perdendo saúde com a idade, e seus órgãos não se reconstituem como os nossos. O resultado é que não chegam nem mesmo aos 150 anos, idade em que nós celebramos o início da adolescência. Agora, me digam: para viver tão pouco e tão mal assim, vale a pena o trabalho de nascer?


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Comentários

  1. É para se pensar seriamente no assunto... Seríamos "os burrinhos do presépio"... Vivemos dizendo "Amém" para tudo e postergando?
    Abraço.

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  2. Amanhã, segunda-feira, vai ter muito homem comprando cronômetros. Cronógrafos é a palavra mais exata.
    Abraço, Marcelo.

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  3. Marco Antonio Rossi2:47 AM

    Bom dia Marcelo e uma ótima semana.
    Realmente, só vale a pena se abrirmos uma fábrica de fraldões, ganharmos o primeiro milhão trabalhando(sonho) e curtir os camarões.
    Abraço
    Rossi

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  4. Bem,então fiquemos poro aqui mesmo.

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  5. José Hamilton Brito3:53 AM

    O Shangri lá é só aqui....mas fiquei curioso. Quem sabe se tendo três narizes elas tenham também...deixa prá lá

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  6. Sabe que eu também me pergunto isso?
    Porque quando vamos tendo noção de alguma coisa neste mundo já estamos alcançando a data de validade e precisamos partir?
    Ótimo texto para pensar mais um pouco, meu amigo Marcelo.
    Boa semana e bom mês que entra...

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  7. Carlos Florence2:39 AM

    Marcelo

    Ótimo. Parabéns.

    Carlos Florence.

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  8. Zé Mirto, você sai de Araçatuba é vai lá pra Shangri lá fazer zueira com o restante da composição da shangrilenses? ainda bem que esse lugar é só aí, e não aqui.
    Oh, Marcelo, você já foi lá, foi?

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  9. Carlos Edu Bernardes2:59 PM

    Gostei muito, Marcelo! Tem a ver com a minha fase atual, caso você percebeu minhas últimas postagens... Abração!

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  10. André Albuquerque3:00 PM

    Parece que viver é sobretudo, insistir.Belo texto,Marcelo Pirajá Sguassábia.Forte abraço.

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  11. Leda Valéria Suppa Basile3:01 PM

    Texto supimpa , Marcelo Pirajá Sguassábia, como sempre. Não me canso de admirar sua criatividade. 12 minutos?????

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  12. Claudio Melo3:02 PM

    Boa...

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  13. Antonio Carlos Antoniazi3:03 PM

    Essas suas informações, meu caro Marcelo Pirajá Sguassábia, me trazem la do fundo da memória, se é que ela tem fundo, aquela história das diferenças entre o "inferno inglês" e o "inferno brasileiro".

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  14. Jorge Domingos de Freitas3:03 PM

    Cada um com seu inferno...o Diabo não é tão feio quanto o pintam, depende do pintor...

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  15. Fernando Dezena3:04 PM

    sempre inspirado ! Muito bom!

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