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VENDO ESTANTE POR MOTIVO DE MUDANÇA



I
Só quem foi geração coca-cola naqueles entediantes 80 sabe o quanto custava juntar dinheiro para levar um LP da loja. O jeito era apelar para o compartilhamento de arquivos da época - pegar os discos emprestados e gravar em fita cassete, de 45, 60 ou 90 minutos. Você cedia os seus xodós para o vizinho, e ele os bolachões que tinha para você. Com mútua promessa de voltarem sem riscos nem barulho de lenha crepitando na lareira.

II
Antes do três-em-um National que ganhou no Natal de 82, um que fazia a proeza de gravar direto para a fita equanto o LP tocava, o procedimento era outro. Colocava-se o disco na sonatinha portátil e posicionava-se o microfone do gravador bem perto do alto-falante da vitrola. Só que o microfone aberto captava, além da música, todos os outros sons que fossem emitidos nas imediações. Gritos da mãe chamando para o almoço, canto de cigarra, chuva caindo, latido de cachorro, a perua vendendo pamonha de Piracicaba e o que mais fosse auditivamente perceptível no ambiente doméstico.

III
Quem não tivesse vizinho nem disco para compartilhar, que ficasse o dia todo esperando a única FM que pegava num raio de 150 km, até que o DJ resolvesse tocar a música que você queria. E apertar o play a tempo para a gravação não comer um pedaço dela. 

IV
Bem-vindo à era do compact-disc, o revolucionário CD. Som puro, sem riscos, espetacular capacidade de armazenamento. Nunca mais ficar mirando a faixa no acetato para não errar a música. Nunca mais caneta bic na fita cassete. Chegamos ao ponto máximo da tecnologia. O que de mais moderno poderia aparecer depois disso?

V
Está tudo na rede, é só ter tempo e paciência para garimpar. Dê a busca pelo nome da música ou do álbum e vá conferindo as ocorrências. Alguns perigosíssimos sítios virtuais já entregam, numa baixada só, discografias inteiras. A raiva é quando está tudo certo, clica-se em "download" e aparece a mensagem dizendo que o arquivo foi removido por violação de direito autoral. De 2002 a 2013, foram mais de dois mil álbuns baixados e dois milhões de cavalos de troia reunidos em um fabuloso haras no computador. O HD inteiro perdido, inapelavelmente. Uma saga de trabalho insano e murros sem conta em cima da bancada, mais de uma década de sacerdócio cibernético jogados no lixo.

VI
Ali estão todos eles forrando as quatro imensas estantes, produtos de milhares de horas a menos de sono. Metade das fitas oxidando, metade travando ou rompendo no rebobinamento. Metade dos discos com os sulcos perdidos de poeira, metade com os encartes devorados pelas traças. Metade dos CDs travando na terceira faixa, metade com os códigos binários estranhamente embaralhados.

VII
Você acorda com vontade de escutar o Réquiem de Mozart. Spotify, Mozart, Réquiem, pronto. Só em um dos vários serviços de streaming,  mais de duzentas extraordinárias versões diferentes para se ouvir de graça, quando quiser, liberando metros e metros de estantes só para livros e porta-retratos. Enquanto escolhe qual vai querer escutar primeiro, a incômoda sensação de que quem deveria estar na estante tomando pó é você mesmo.



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Comentários

  1. Saudade de ler teus textos. Colocando a leitura em dia. Bjs

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  2. Então, meu caro Marcelo... Passei por todas essas fases:- doei, contribui para lixo reciclável... e, hoje não vejo valor algum em uma estante... pois até os livros para o pó e as traças já eram... Dou vivas ao virtual.
    Abraço.

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  3. Seus textos me fazem viajar no tempo... passado, mas me faz ver que o futuro facilita tudo, confortavelmente, e com razão você, ando na contramão dessa evolução, envelheço. Ainda bem. Abs

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  4. No início, usava o microfoninho.., comprado no supermercado perto de casa que com o decorrer dos anos virou Carrefour. O setter irlandês (que, como cão, foi o primeiro que se apresentou na minha vida) adorava saudar a iniciativa com bons latidos presenciais. Por ficar até feliz já deveria saber que no futuro outros caninos estariam presentes. Em outros momentos, quantas vezes não apertei o REC feliz de pegar a tão esperada música no começo (RPM, The Police, tantas outras) e o locutor cortava a música na metade para entrar com anúncio da discoteca local!!! Ficava passada. E o pior é que o anúncio grudava mais do que qualquer outra coisa, gravado e reproduzido as tantas outras vezes que apertava o PLAY. Por outro lado, hoje que estou aqui escrevendo o comentário com uns tantos 40 a mais de tempo, com a tv ligada ouvindo sobre o impeachment do Cunha, penso que a propaganda no meio da música não era problema algum.

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  5. Marcelo, os bolachões eu os guardo em uma mala, as fitas K7 em outra. Certo dia minha filha me perguntou: "Mãe, que é isso?" - A distância do tempo do produto com a era em que a menina se encontra é tanta, que me deu uma dúvida danada , busquei na memória a palavra certa para explicar aquilo- demorei para lhe responder que aquilo era uma fita gravada com as músicas do Carequinha. Ainda a aconselhei a guardar para mostrar para os filhos dela. Isso tudo é ótimo.

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  6. Eita! Passei por isto tudo, dei um passeio no tempo. Obrigado pelo presente, Marcelo!

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  7. É, caro Marcelo Sguassábia, hoje não mais temos aquele famoso "conjunto musical" do passado, "pick-up e seus negrinhos", que agitavam as tardes de sábados e domingos nas famosas "brincadeiras".

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  8. Ao prezado Marcelo. historiador das peripécias dos modernos tempos (dos 3 em 1 da National, e dos moderníssimos bolachões de vinil, denominados de LP, às fitas K7 e aos CD´s), antes que se desfaça do seu museu-estante, conto que também passei por este drama. Não foi fácil me esquecer das alegrias com o advento dos Lp´s, 33 1/3 rpm com agulhas de diamante substituindo os solavancos dos 78 rpm e suas precárias agulhas metálicas. Sou dum tempo que para ouvir o rock que nascia, era preciso sintonizar “Hoje é Dia de Rock” da Mayrink Veiga, PRK 30, distante 2.000km, ler as letras na Revista do Rádio, e procurar memorizar as melodias. rsrs. Mas depois tudo se sofisticou, os aparelhos com amplificadores Delta, à válvula, não competiam mais com os Garrard, e tudo pela música, compensava economizar os caraminguás. No refluxo, hoje os aficionados louvam a qualidade dos discos analógicos, melhores que os digitais, por não sofrerem os cortes nas mais altas e mais baixas frequências. O mercado americano para os bolachões cresceu em 50% em 2014. Nessa nova onda, meu filho comprou aparelhagem moderna e levou a minha estante pra sua casa. Felizmente. rsrs.

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  9. A isso se dâ o nome de via Crucis

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  10. Claudete Amaral Bueno12:39 PM

    Texto mais verdadeiro....impossível! Passei tanta raiva!

    Parabéns...e um bom domingo! Abraços!

    Claudete

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  11. Claudio Melo12:41 PM

    Muito bom. Parabéns Marcelo Pirajá Sguassábia.

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  12. Paulo Marsiglio12:43 PM

    assamos por tudo isso e no final o vencedor foi o streaming. Quando eles vão liberar o Fab 4, Neil Young, etc, etc...

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  13. Pepe Chaves12:44 PM

    hehehe sensacional, era isso mesmo! Boa nostalgia, os tempos mudaram! E estão mudando ainda... * Obs.: ganhei o tal 3 em 1 National num natal de meados da década de 80. O que me rendeu uma bela coleção de K7

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  14. André Albuquerque12:45 PM

    O caos que a tecnologia provoca "de repente, não mais que de repente" por razões que até a tecnologia muitas vezes parece desconhecer (rsrs).Excelente cronica,Marcelo

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  15. Clotilde Fascioni12:46 PM

    Tempos modernos. Ótima crônica que nos remete ao passado que está logo ali. Bom domingo Marcelo Pirajá Sguassábia com excelente fundo musical....♫♪♫♪

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  16. Lauro Augusto Bittencourt Borges12:47 PM

    Perfeita a linha do tempo do comércio/compartilhamento de música. E me fez lembrar quando a gente buscava músicas para gravar nas poucas FMs da época e, no meio da reprodução, a radio soltava uma vinheta e melava a coisa. Abraço e bom domingo.

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  17. Gislene Grazioli12:48 PM

    Como eu gosto do passado Marcelo Pirajá Sguassábia, saudades mesmo! Adorei tua crônica, vou compartilhar! Um abraço

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  18. Ana Jaeger12:49 PM

    Muito bom

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  19. Marco Antonio Rossi4:39 AM

    Bom dia amigo Marcelo.
    lendo, lembrei que tenho duas prateleiras com CDs, que já não fazem parte do meu arsenal musical.
    Vou selecionar as relíquias de família e doar o restante para abrir espaço.
    Sem pó nem piedade(desculpe o trocadilho...)
    grande abraço
    Rossi

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  20. Mara Narciso5:44 AM

    O que nos falta são pelo menos cem anos para ouvir o que gostamos e que está a nossa disposição.

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