Pular para o conteúdo principal

VENDO TELEFONE POR MOTIVO DE MUDANÇA



Resumo dos capítulos 1 a 94

O nome já explica mais ou menos o princípio da coisa: celular. O sinal de radiofrequência é repetido por células de transmissão, ou Estações Rádio Base - aquelas torres horríveis. As células têm um determinado raio de cobertura, e se comunicam umas com as outras para completar a chamada, seja lá em que parte do planeta o sujeito esteja recebendo ou fazendo a ligação. A cada 500 metros, uma antena. Ou melhor, a cada 350. Minto: a cada quarteirão. Para instalar o monstrengo metálico, 26 homens treinados na Finlândia. A torre abriga 2.358 componentes de extrema sofisticação tecnológica, com alíquotas de importação proibitivas. A instalação é de madrugada, para não dar na vista. Para não dar margem de contestação. Para não dar chance à vizinhança de tentar se defender do suposto risco de câncer. Aí começa. Vamos fazer um abaixo-assinado. Vamos lavrar boletim de ocorrência. Vamos reunir uma multidão para abraçar a antena e chamar a televisão para fazer reportagem. (Tudo bem que celular precisa de antena, mas não na frente das nossas casas!). Só que antes, algum Judas da comunidade teve de ceder espaço para a antena operar. O dono do terreno baldio estava mesmo com a corda no pescoço, e os 15 mil de aluguel por mês chegam em boa hora. Contrato de 8 anos. Mais 2 mil por ano de IPTU. Mais todos os outros tributos municipais, estaduais e federais. Mais a licença de operação. Mais os vigilantes, um por turno. Mais muro de quatro metros com cerca elétrica em cima. Mais a praça do bairro que teve de ser adotada em troca de uma momentânea trégua com os moradores. Tanto investimento precisa se pagar, o quanto antes, para não enfurecer os acionistas e manter em alta o preço das ações na bolsa de valores. Dá-lhe campanha atrás de campanha. Promoção atrás de promoção. Aparelho de graça. Programa de fidelidade com novecentas voltas ao mundo e um milhão de minutos de bônus para se esgoelar de falar. A qualquer hora, para qualquer número, de qualquer operadora. Patrocínio de futebol e marca estampada em tudo quanto é canto, do nome do estádio ao cadarço do tênis do gandula. Lobby em Brasília para garantir a perpetuação do cartel e a autonomia na administração do preço por minuto cobrado em cada região. Contestação jurídica. Queixas no Procon, por abuso de poder econômico, descumprimento de contrato, cobrança indevida na conta, propaganda enganosa, ausência de sinal.


Capítulo 95

WhatsApp. Sabe o wi-fi da sua casa? Então. É isso.




© Direitos Reservados

Comentários

  1. Por isso é sempre bom ficar "antenado". Bom domingo Marcelo, tudo de bom. ♥♥

    ResponderExcluir
  2. Fátima Borghi3:49 AM

    Perfeito, é isso tudo e um pouco mais. Adorei o "minto" para demonstrar o equívoco ou a falha da memória.... Vindo de você, sinto-me autorizada a voltar a usá-lo. Parabéns.

    ResponderExcluir
  3. José Carlos Carneiro4:25 AM

    Perfeito seu conhecimento sobre telefonia celular. A coisa aconteceu e evoluiu nos moldes que você colocou. Quando foi implantada em São João eu ainda trabalhava e a concessão do serviço era estatal e movida, portanto, a política. A inauguração do serviço em qualquer localidade era quase motivo de feriado local. Havia discursos, puxação de saco aos montes, essas coisas próprias da politicagem miúda. Participei de algumas dessas inaugurações e ficava estarrecido e cada vez mais convicto da necessidade de privatização. Não demorou muito e os espanhóis compraram as concessões das telefonias fixas e celulares e... adeus monopólio, engessamento administrativo, burocracia etc. Dois meses depois da privatização eu já havia cumprido tempo de contribuição suficiente para me aposentar, tanto pelo INSS como pela fundação de aposentadoria complementar que paguei desde que foi criada, felizmente. E me aposentei. Dois anos depois e após receber convite voltei ao batente, na iniciativa privada. Foram mais nove meses de trampo duro. Mas concluí que melhor eu faria estando ao lado da minha família. Então pendurei as chuteiras de vez.
    Abraço e boa semana vindoura.

    ResponderExcluir
  4. Joka Faria7:53 AM

    Enfim somos meros consumidores nada mais.

    ResponderExcluir
  5. Kkkkkkkk tenho o mais vagabundo e voltei a serr feliz

    ResponderExcluir
  6. Tenho um telefone celular. Sei como é o uso do catálogo e falar teclando os números desejados. Mais nada...

    ResponderExcluir
  7. è isso que é isso tudo ???? Ainda bem que nem tenho esse tal de whatsApp, zap zap, sei lá o que mais. Muito boa a sua aula, professor Marcelo.

    ResponderExcluir
  8. Olhe, a melhor comunicação deve ser a feita a base da fumaça... se esvai e não deixa nada para ser rastreado... Adoro desligar tudo e desaparecer...
    Abraço.

    ResponderExcluir
  9. André Albuquerque8:42 AM

    Saudade das fofoqueiras do interior,que divulgavam as novidades com custo zero e velocidade bem superior,sem queda de sinal,sem intervalo além daquele entre uma cachimbada e outra,rsrs.Valeu Marcelo

    ResponderExcluir
  10. Antonio Carlos Antoniazi8:43 AM

    Então, caro amigo Marcelo Pirajá Sguassábia. "Bão memo", como diz um outro meu amigo, era no tempo que, para se fazer uma ligação telefônica as pessoas pediam para a "telefonista". Contou-me, esse meu amigo, que o filho do "Seu Jacó" estudava em São Paulo e a família morava em Ribeirão Preto. Nos finais de semana o filho ia para Ribeirão lá ficando até a tarde do domingo quando retornava para SPaulo. Havia então um trato. Dizia o "seu Jacó": " Filho, quando chegar em SPaulo me telefone. Peça para a telefonista que faça a ligação "a cobrar". Não vou aceitar, mas terei a certeza de que lá você já chegou". Hoje, meu caro amigo Marcelo, praticar esse expediente do Seu Jacó não é mais possível.

    ResponderExcluir
  11. Mara Narciso10:58 AM

    Contra uma lista, apenas uma palavra juntada na outra: WhatsApp.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…