Pular para o conteúdo principal

ABDUZIDO



O abade Nathanael começou, de fato, a acreditar cegamente em Deus depois da primeira volta no disco voador. Até então, sua fé um tanto vacilante fazia-o crer burocraticamente no Ser Supremo em 3 pessoas, conforme os catecismos, sem maiores contestações. Mas no íntimo o incomodava saber que o que sentia estava longe de ser adoração convicta, a despeito dos 28 anos de abadia. Parecia estar enganando a Deus, se existisse, e a si, de cuja existência também tinha sérias dúvidas. Até que o pequeno ser ocre e pegajoso lhe apareceu no claustro, lhe tomou pela mão e o levou, por entre nuvens, ao cerne de todas as perguntas até então sem respostas.

Cada pequena luz do painel da nave disparava uma lembrança. O machado rachando a lenha para mortificar a carne e elevar o espírito. O ofício em oração e canto, o banco duro, a geada emudecendo o sino, o genuflexório. O olhar do ET era para ele uma homilia muda, havia um sermão interminável sendo dito e escutado naquele silêncio solene e sem gravidade. Atravessavam os dois, em segundos, nebulosas inteiras. A abadia, em todo o seu esplendor, cheirando a vela e incenso, talvez fosse um delírio de madeira e mármore, e toda sua vida uma distração momentânea da qual acordava agora. Talvez fosse a vida de verdade um voo a esmo junto ao ET, e que tudo o que imaginava ter vivido não passasse de uma soneca tirada ali, na poltrona de co-piloto. Mas explicar como aquele o hábito puído, o crucifixo e o olhar contrito refletido nos instrumentos de bordo?

Assim foi aquela volta, a primeira de tantas. Entre uma lua e um sol qualquer do calendário, lá estava o serzinho ocre, como que cumprindo uma missão celeste, pronto para de novo levar consigo o abade. 

Um belo dia, foi a vez do abade tomar o ET pela mão e levá-lo, escondido debaixo do hábito, para assistir à missa matinal. Desobedecendo a recomendação de ficar calado, ele soltou um sonoro "Ele está no meio de nós" após o padre dizer "O Senhor esteja convosco". Lançou um olhar cúmplice para o abade e sacou da algibeira extraterrestre um retratinho de família, com ele pequenino na pia batismal, rodeado pelo pai, a mãe e os padrinhos. Todos ocres. Todos boa gente como ele. 


© Direitos Reservados

Comentários

  1. Que cena hilariante... Sabe que me sentia um pouco ET quando arrastada por minha mãe às missas dominicais?
    Abraço.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…