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ANTES QUE A NOITE DESÇA

Imagem: lojavirus.com.br


Eu nunca mais vou comer um bife acebolado como aquele. Nem tudo o que vinha de guarnição, que era farta e servia dois, três ou até mais, dependendo da fome: um vinil meio empenado do Cat Stevens, uma jaqueta jeans com um botom pela paz e mais umas vinte páginas do "Diário de Dany" - que seriam devoradas logo após o bife. Já soava anacrônico o "Diário de Dany" naquele fim de linha permissivo para uns poucos e inocente para quase todos, o rincão que por costume amávamos por não nos caber nada melhor. Mas quem poderia, aos 14, parar de lê-lo? O Diário que era, além de livro, espelho das acnes minhas e da vizinhança inteira. Seria bacana se pudesse dar um jeito no All Star cano alto antes que ela chegasse, pois todas as estrelas da noitinha que ia descendo não ofuscariam, de jeito nenhum, a nhaca que não chegava a ser chulé, mas que tomava conta e poderia atrapalhar aquele beijo. Aquele longamente arquitetado e que não veio, mesmo com o All Star bem longe na hora em que ela apareceu e fincou estaca vitalícia com seu patchouli. A estaca dela fincada no drácula de mim, mas nem pensar a minha nela. Não era de se deixar fincar, sedentária e obediente, do jeito que vovó sonhava e mamãe fazia gosto. Ia e vinha, leve e livre, como a asa delta da abertura da novela. Asas ou velas, não lembro. Mas tinha um mar lindo de globopixels cocacólicos na tela da TV de tubo, tão calendário de quitanda, um avesso 100% de favela. De volume em volume da Barsa, de degrau em degrau de igreja à espera dos fiéis para mais uma protocolar cerimônia de batismo, era uma dormência distraída e inconsequente. De coçar até enjoar e ir pela enxurrada em pedras portuguesas, rolando com cuidado para não corromper inutilmente a vida quieta. Hoje fica claro que não havia razão nem propósito em desafiar o conformismo dos velhinhos de charrete, aguardando no ponto o que nunca vinha nem poderia chegar. Porque aonde se tentasse ir, tudo daria sempre no mesmo lugar.

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