Pular para o conteúdo principal

O QUASE



Entre o vegetariano inflexível e o carnívoro inveterado, desponta uma nova categoria de comensal. Fica a meio caminho de uma coisa e outra. Trata-se do quase-vegetariano, aquele que já assumiu a validade filosófica de não comer bichos defuntos, mas que ainda não consegue evitar eventuais recaídas.

Considerando que o refogado de acelga é oito e o churrasquinho grego é oitenta, proponho aos quase-vegetarianos uma alternativa conciliadora: a opção pelo miúdo, entendendo-se por miúdo o rim, o coração, o bucho, a moela, o fígado, o miolo, a língua e outros ítens não tão miúdos no tamanho e na forma. Digo conciliadora porque tudo isso que elenquei é órgão, e não carne.

Ninguém engorda porcos, abate rebanhos inteiros ou extermina quilômetros de granjas para arrancar miúdos. Eles são subprodutos. Que acabam sendo aproveitados para engrossar embutidos, fazer ração de cachorro, despacho de macumba e outras variadas coisas, que até Deus duvidaria se não estivesse vendo tudo. Além, é claro, de abastecerem as partes menos nobres dos balcões dos açougues. O fato é que a crueldade se dá para extrair a carne e saciar o pitecantropo que resiste bravamente no engravatado do século 21. Aos órgāos nāo cabe culpa, porque a carne era o alvo dos matadores (ou matadouros). Não fosse isso, continuariam cumprindo regularmente seus papéis de vísceras, até os animais morrerem de velhos.

Há outras vantagens em dar preferência aos miúdos. De maneira geral, os órgãos têm maior valor nutricional que a carne - um saudável motivo para que mereçam um julgamento mais complacente. Depois tem o preço, que é muito menor. Dependendo do tipo de miúdo, o quilo chega a custar dez vezes menos que a carne de primeira do bípede ou do quadrúpede morto.

Temos que admitir que muitos sentem nojo pelo caráter funcional do órgão. Carne é carne e pronto, parece algo ancestralmente admitido para se comer. O órgão não: ele processa alguma coisa, tem um papel fisiológico na vida do animal.

Veja a moela, por exemplo. Ela faz parte do sistema digestivo das aves, uma espécie de bolsa musculosa que tritura mecanicamente os alimentos ingeridos, especialmente os grãos. Talvez esse singelo esclarecimento lhe trave o apetite quando se deparar com uma porção acebolada da dita cuja à sua frente. Mas pode ser também que essa definição deixe um pouco mais tranquila sua consciência quase-vegetariana, por estar comendo algo que ia ser desprezado por quem matou o frango para devorar-lhe apenas o peito ou as sobrecoxas.

Bem, fica a ideia. Vai um miúdo aí?



Direitos Reservados
Foto: cozinhafacil.blogspot.com


Comentários

  1. Hum... ficarei com o refogado de acelga...
    Abraço

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…