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Mostrando postagens de Junho, 2016

COMO É QUE É A SUA LETRA MESMO?

Ninguém sabe mais como é sua letra. Nem você. Por mais intelectualmente articulado que seja e por mais Pós-Doutorados que possua, se tiver que escrever alguma coisa você vai se pegar desenhando as palavras. De um jeito desengonçado, como se estivesse aprendendo a andar de bicicleta.
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O teclado da máquina de escrever, e depois o do computador, foram os primeiros culpados. Acabaram matando aos poucos o meio físico que ligava o que se quer dizer ao que saía escrito, ou seja, a caneta ou o lápis. Mas ainda havia algo entre a intenção e o resultado: o teclado. O frio e insípido teclado, essa coisa infestada de migalhas de bolacha entre as letras. Por questões de conforto nos textos de longo curso, ele ainda resistirá um pouquinho mais, embora tecnologicamente já esteja liquidado.
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Do toque ao touch na tela, diretamente no vidrinho sensível do tablet ou do celular. As teclas de pixels, espremidas. Esbarrões frequentes nas letras vizinhas resultaram no amaldiçoado corretor or…

CABELOS AO VENTO

Nem todo mundo sabe, mas o cabelo, se bem conservado, é eterno (não se animem os carecas, a eternidade é do dito cujo fora da cabeça, e não em cima dela). Pura proteína, pode manter-se intacto com o passar dos séculos, mesmo debaixo da terra e exposto aos vermes. Mais: tanto o cabelo quanto as unhas continuam crescendo após o sepultamento, por períodos que variam de organismo para organismo. Melhor dizendo, de cadáver para cadáver.

Com apogeu no século 19, o hábito de guardar mechas de cabelo vem da Grécia antiga. O mais comum era acondicionar em caixinhas, envelopes ou no interior de camafeus um cacho do primeiro corte ou do último, já da pessoa defunta, como recordação. Namorados também enviavam madeixas às suas caras metades, para diminuir saudades e distâncias. Enfim, era uma relíquia sem prazo de validade que entes queridos presenteavam-se mutuamente, e que literalmente significava ter a posse de um pedaço da pessoa. 

Alguns, mais espertos, tinham acesso a defuntos ilustres e, disf…

DESVIO DE FINALIDADE

Viver em comunidade é viver com responsabilidade. Como nem todos pensam assim, abusos sempre acontecem. Mas chega uma hora em que é preciso colocar ordem na casa, para que prevaleça um mínimo de civilidade e observância a normas de boa e saudável convivência. E essa hora chegou para o nosso condomínio. Mais especificamente, refiro-me a irregularidades na utilização segura do playground, e à necessidade de estabelecermos a quem ele de fato se destina. 

Não é novidade para ninguém que o gira-gira existe para turbinar o efeito da bebida, por isso está estrategicamente instalado próximo ao lazer dos adultos. É insano permitir que crianças se aproximem dele. Se a força do equipamento em alta velocidade pode derrubar gente de noventa quilos, que ali espairece responsavelmente entre uma mão e outra de carteado no salão de festas, o que dizer de gurizinhos mais leves que um saco de arroz Tio João? O desastre é tão certo quanto as horas de choro que o sucedem. E, em ocorrendo acidente, os condô…

PREFÁCIO AO LIVRO INEXISTENTE

"Quando é que sai o livro?", perguntam-me isso sempre. Minha resposta, definitiva e inapelável: nunca. Se Deus quiser nunquinha, pelo menos no que depender de mim esse equívoco não será cometido.  

É confortadora a ideia de que a publicação virtual pode ser editada a qualquer momento, e que a coluna de jornal, tão logo seja lida (se é que será), passará a forrar gaiolas de papagaio. Eu vejo uma espécie de segurança nessas plataformas, de reversibilidade da obra e, consequentemente, da reputação de quem a assina. Nada de volume, de editora, de noite de autógrafo, de virar adorno de  prateleira ou encheção de linguiça no currículo.

O livro é um tijolo à prova de arrependimento, é obra catalogada na Biblioteca Nacional, passa de mão em mão e espalha-se mundo afora, ainda que seja pequena a tiragem. Se o escriba renega a cria, não há chance de reparar o erro. A menos que faça um recall, oferecendo recompensa por exemplar devolvido. Uma espécie de errata da obra toda. 

Um livro é um…