Pular para o conteúdo principal

AÍ VOCÊ DESCOBRE



Aí você descobre, fuçando naquela velha caixa de boletos religiosamente recolhidos desde 1995, que é usuário de TV por assinatura já há mais de 20 anos. Aí você descobre, assistindo a uma matéria em um dos seus 341 canais pagos, que os campeões de audiência na TV por assinatura são três emissoras abertas: Globo, Record e SBT, sendo que 60% do total de telespectadores só assistem a esses canais, que chegariam sem problemas até você com um chumaço de bom-bril. Aí você descobre que faz parte desses 60%. Ou quase, já que de vez em quando a empregada pede para assistir a missa no Santuário da Aparecida do Norte, transmitida em canal fechado. Aí você descobre, para compensar minimamente tanto dinheiro jogado fora, que o controle remoto lhe dá a espetacular opção de compor uma playlist favorite channels, o que significa economia de dedão, paciência e pilha do controle - por não ter que ficar pulando o tempo todo os canais que não quer assistir (por que você só se deu conta desse macete agora?). Aí você descobre que esses favoritos são, com muito boa vontade, uns oito. E isso incluindo o canal de meteorologia e aquele outro de leilão de gado. Aí você descobre que jamais poderá assinar só esses, pois a operadora não oferece opções de pacotes customizados. Aí você descobre que esses raríssimos canais a que de fato assiste estão disponíveis de graça e ao vivo, na internet. Aí você descobre, ligando para o Serviço de Atendimento ao Consumidor, que o lixo satelital disponibilizado 24 horas por dia não pode ser cancelado, sob pena de interromper também o sinal de telefone e a banda larga. Aí você descobre, fuçando um pouco mais na velha caixa de boletos, que tinha assinado um "combo" e que os três produtos não são desmembráveis, conforme consta no rodapé da página 12 do seu contrato. Aí você descobre que essa despesa mensal de que é refém há 20 anos é tão inútil quanto as cabines de telefone público de Londres. Aí você descobre que fica eleito o foro da comarca da sua cidade para dirimir quaisquer dúvidas relativas ao tal contrato. Aí você descobre que, se fosse 20 anos mais jovem, talvez ainda tivesse saco para comprar essa briga e tentar se livrar do que decidiu adquirir por livre e espontânea vontade.


© Direitos Reservados

Comentários

  1. Nesse país... tudo é possível! Descobre-se cada uma? E, o pior que tudo vira uma grande pizza! Somos reféns.
    Abraço.

    ResponderExcluir
  2. E aí você descobre que tudo isso que o Marcelo escreveu é verdadeiro.
    Abraço.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…