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CONTA COMIGO!

Imagem: papelex.com.br

Contar os milhares de maços de dinheiro guardados em casa era ao mesmo tempo seu trabalho, sua diversão e sua paranoia. Cada maço perfazendo dez mil, em cédulas de valores variados. Quando a contagem chegava ao fim, cismava que alguém - não se sabe quem, já que nem faxineira entrava em seus domínios - poderia ter mexido nos primeiros montes conferidos, e a contagem recomeçava do primeiro bolo ao último, num ciclo doentiamente interminável. 

Banheiro rima com dinheiro. E não por acaso, dizia ele. Pisos e azulejos eram apenas revestimentos de fachada, que escondiam cofres e mais cofres milimetricamente alinhados e abarrotados de bufunfa. Os quartos e a ampla sala em L jamais viram cor de tinta. Sobre o reboco dos cômodos, ele mesmo foi aplicando um peculiar papel de parede, feito de lindas e sortidas cédulas, capazes de levar o Tio Patinhas a orgasmos múltiplos. 

O bloco de notas próximo ao telefone era literalmente um bloco de notas, com recados e lembretes escritos sobre o dinheiro. As anotações se referiam, invariavelmente, a questões financeiras: o total amontoado em junho, julho, agosto, setembro e assim por diante - mês a mês, ano a ano, ao longo das décadas de acumulação. 

Tinha, é claro, dinheiro rendendo no banco em diversificados fundos. Tão logo creditados os juros do mês ao saldo, ia até a agência, sacava a quantia relativa aos rendimentos, contava para ver se conferia com os índices divulgados nos jornais e corria em seguida para devolver a dinheirama ao caixa, a fim de  juntar o juro devidamente aferido ao total acumulado. Desconfiava que o banco pudesse um dia lhe passar a perna. E dá-lhe esponjinha molha-dedo, dia e noite, noite e dia.

Quando achava que a inflação estava corroendo demais o poder de compra do seu feudo de dinheiro, pegava uma boa parte e operava como agiota, emprestando em espécie e recebendo também em espécie, com acréscimo de juros imorais. Sua montanha monetária ganhava então valores a mais, a serem contabilizados assim que recebidos.

Em quase meio século de desmedida poupança, havia testemunhado várias trocas de moeda. Cada ocasião dessas era para ele motivo de imensa satisfação íntima. Juntava tudo o que tinha em comboios de caminhões-baú, alugados exclusivamente para o transporte dos valores, e procedia à troca pelas cédulas novas, mesmo que as antigas continuassem valendo ainda por um bom tempo. Tinha com isso o pretexto para contar tudo outra vez, agora em papel novinho e cheirando a tinta fresca. Em questão de poucos dias seus cofres ganhavam novo suprimento, o papel de parede do lar-rico-lar era atualizado e o bloco de notas, gasto e todo rabiscado, modernizava-se em cédulas virgens. 

Tudo ia muito bem, até o dia em que, após meticulosa contagem, deu pela falta de R$1. Descartada a possibilidade de que houvesse entrado alguém em casa, ele começou a desconfiar de sua própria capacidade de contar com exatidão e eficiência. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, essa hora iria chegar. E junto com ela o impasse insolúvel de não poder confiar em ninguém para levar adiante a compulsão. Além de uma certa confusão aritmética, que subjetivamente atribuía à idade avançada, notava também um tremor anormal nas mãos, já sem impressões digitais de tanto contar dinheiro. Mas não procurou ajuda médica: teria que se desfazer de algumas notas para isso.


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