Pular para o conteúdo principal

ABRIDORES E FECHADORES



- Quando eu entrei por concurso no serviço federal, acumulava função. Olha o absurdo! Naquele tempo, quem abria tinha que fechar a porta também. Era uma escravidão, a gente ficava sobrecarregado. Depois de muita luta do sindicato, conseguimos criar a função comissionada de fechador de porta. Mas antes, não era mole. Tinha dia que encarava três, quatro maçanetas no horário do expediente. Dá pra imaginar? Chegava esgotado em casa, queridão. Só de lembrar daquela época, já me ataca a gastrite.

- Tenha dó, não queria estar na sua pele. Quatro maçanetas pra abrir num dia só, tem que ter Jesus na causa. É a treva.

- E além do desumano desgaste físico, já reivindicávamos mais segurança no desempenho da função. Isso sempre esteve na pauta da categoria. E convenhamos: nós, abridores, estamos muito mais expostos a riscos do que vocês, fechadores. É quando a autoridade entra em um ambiente novo que o risco é maior. Quando está saindo do recinto é tudo mais fácil. O evento, a audiência, a recepção ou sei lá o quê, já foi. É a hora da dispersão, se tivesse que ter algum atentado, já era pra ter acontecido. 

- Não acho, não. O risco é o mesmo. Nosso adicional de insalubridade tinha que ser igual ao dos abridores. Isonomia já!! E tem outra, que o senhor está esquecendo: o que mais acontece por aqui é reunião a portas fechadas. E aí quem tem que dar conta de hora extra atrás de hora extra, varando conchavo de madrugada sem pregar o olho, são os tontos dos fechadores. Vocês, abridores, já estão em casa faz tempo. 

- E a culpa é nossa? É o descanso dos guerreiros, meu amigo. Nós merecemos. Quantas vezes fizemos piquete na porta do Alvorada reivindicando puxadores de porta ergonômicos, para prevenir LER? E quantas vezes acampamos na porta da Presidência do Senado fazendo campanha pelo fim das portas automáticas, que tanto ameaçam o digno exercício da nossa função?

- E continuam ameaçando, né... Aquele senador, como é mesmo o nome dele? Vive falando lá na tribuna que a nossa função não tem cabimento, não tem amparo constitucional, não tem isso, não tem aquilo. Pois não é que o Dodô, o sub-tesoureiro do sindicato, levantou a ficha do bacana e descobriu que ele tem uma fábrica de sensores de presença, em Diamantina? Tá explicado o interesse do cara em querer acabar com a gente. Se ele ganha licitação pra automatizar portas, imagina quanto vai faturar só no Palácio do Planalto!!!

- Pensa que somos figuras decorativas. Imagina o Presidente da República, da Câmara ou do Senado ter que ficar abrindo e fechando portas por onde passa, e a vergonha para o país em ter essas imagens veiculadas pela mídia internacional! E no dia em que faltar energia elétrica? Serão centenas de portas que não abrem e  nem fecham.

- E nós, aposentados compulsoriamente, não estaremos lá pra resolver a parada. Aí sim é que eu quero ver!

- Não é só isso. Veja, por exemplo, a tal H1N1, essa gripe que vira e mexe ameaça todo mundo. Maçaneta de porta é um verdadeiro depósito desse vírus aí, e é mais um risco de vida que corremos. Tinham que criar a função de passador de álcool gel, para desinfetar tudo antes da gente chegar com a comitiva. 

- Escutou? Acho que estão batendo na porta. Será que tinha alguém escutando a nossa conversa?

- Abre logo de uma vez.

- Quem tem que abrir é você. Eu só fecho, esqueceu?





© Direitos Reservados

Comentários

  1. Só faltava esse cargo para completar a folha do RH do Planalto e do Senado... Quem fechará a última porta? Tá quase na hora...
    Abraço.

    ResponderExcluir
  2. Perigoso, este ofício de abrir e fechar portas. Pode acabar em Curitiba ou no Senado!
    Abração

    ResponderExcluir
  3. Nunca pensei que um par de maçanetas levasse à tantas reflexões.
    Adorei meu amigo Marcelo.
    Boa semana para vc e que as suas portas estejam sempre abertas.
    Boa semana.♥♥

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

O DESPERTADOR HUMANO

Junto com a Revolução Industrial – período de 1760 a algum momento entre 1820 e 1840 – vieram os empregos. Para não perderem a hora, existia o despertador humano, um profissional responsável por acordar as pessoas para que comparecessem ao trabalho pontualmente. O primeiro relógio-despertador foi criado em 1847, mas só se popularizou décadas depois. Assim, era comum ver pessoas com bambus ou varetas batendo nas vidraças ou atirando pedrinhas nas janelas daqueles que as contratavam.
(fonte: universoretro.com.br)





Fico imaginando o que seria dessa cidade caso eu tivesse escolhido outra coisa para fazer na vida. Se bobear, você mesmo pode ter sido acordado por mim hoje. 

Não há quem não precise de meus préstimos. Muitos podem pensar que não faz nenhum sentido um arrumador de pinos de boliche, por exemplo, necessitar dos serviços de um despertador humano. Ele não tem que acordar cedo, pois geralmente trabalha à noite. Só que ele troca a noite pelo dia, e se não houver ninguém para acordá-lo m…

PLASMEM!!!*

Eis que, entre tentativas e erros, feridos e mortos, a coisa – que é aquilo que mais se aproxima do sonho humano da eterna juventude, aparece finalmente em 2018 como algo plausível. Com 100% de eficácia em ratos, e ao que tudo indica em homens também.

Trata-se da transfusão de sangue de pessoas novas para mais velhas,  algo acalentado há séculos pela ciência. 

Mesmo ainda sem o aval definitivo dos pesquisadores envolvidos nos estudos, o pretenso milagre já está à disposição de quem tem bala para pagar. Nos Estados Unidos, há filas de gente, com 35 anos ou mais, sem dó de bancar 8.000 dólares por procedimento.  

Com a falta crônica de perspectivas de trabalho para os jovens do terceiro, do segundo e até do primeiro mundo, a nova técnica e sua disseminação trará, mais do que a perspectiva de rendimento, um doce meio de vida para a rapaziada até o momento tão sem norte.

Muitos sairão do desemprego para uma vida milionária, da noite para o dia. 
Não demora e aparecerão clínicas especializadas …