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MINIMALISMO É O MÁXIMO



Até outro dia restrita ao mundo das artes, aos poucos ela vem virando a palavrinha da vez, nas rodas e nas bocas de emergentes-celebration, aqueles descoladíssimos que conquistaram seu lugar ao flash.

Em mínimas palavras, o minimalismo é a doutrina que entende a felicidade do ser humano como inversamente proporcional à quantidade de recursos ou bens materiais que se possui. Ou, numa definição despojadamente simples, à moda minimalista: quanto mais se livra daquilo que tem, mais rico e realizado o bípede se torna. Só o elementar é bom o bastante. Tão somente o essencial, a plenitude da existência compreendida como algo beirando a imaterialidade. 

Por essas e outras diáfanas definições, conclui-se que só tem estofo cultural e filosófico para praticar o minimalismo quem já foi um dia "maximalista", quem já teve do bom e do melhor vazando pelo ladrão. O endinheirado que entre uma festa e outra, por algum motivo, desencantou-se com tantos e tão confortáveis latifúndios, coberturas e iates onde cair morto. É assim que o minimalismo se entende como escolha - um voto de pobreza, e não o infortúnio de tornar-se pobre. Vá perguntar a um miserável que dorme debaixo da ponte se ele é minimalista por necessidade ou por convicção, e saberá o que estou dizendo. 

O minimalista legítimo é o que se empapuçou de excessos, jamais o que não tem nada de nascença. Se acha cool vivendo com pouco mas mora no Jardim América, não em Belford Roxo. Escassez para ele jamais será privação; será clean. Excentricamente clean. No seu apê, há paredes sóbrias e monocromáticas sem quadro algum pendurado, mas o projeto é assinado pelo Sig Bergamin. Acelga e água frugalmente se equilibram no microscópico cardápio da semana. A acelga já chega picadinha pelo Pão de Açúcar Delivery, a água é San Pelllegrino.  

Ter nada é tudo. O ouro que fique para os deslumbrados, para funkeiro-ostentação, para os que nunca entenderão que esconder é bem mais chic e valioso que mostrar.


Foto: www.conceito.de
© Direitos Reservados

Comentários

  1. Nessa fase onde tudo é investigado... ser 'minimalista' talvez, sair apregoando de que nada é meu... é do meu amigo... Não sei de nada... Não vi nada! Some-se para passeios em shoppings no exterior e boa... Que ninguém descubra! Aqui nada tem, mas lá fora...
    Abraço.

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  2. Interessante, eu lembrei da literatura daquele rapaz russo, o Dosto. Minimalista por excelência!
    Abraço, Marcelo.

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