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Mostrando postagens de Setembro, 2016

DUBLÊ DE CHAPLIN

O cara nunca teve graça nenhuma. No começo era até meio gordo, desajeitado, nem sabia segurar a bengala direito. A criação do personagem foi dele, sim. Mas entre a concepção do vagabundo e a tentativa de dar vida a ele, vai uma desastrosa diferença. Charles bem que tentou, mas Carlitos na pele dele foi, essa sim, uma ridícula piada. 

Não é que eu substituía eventualmente o Carlitos, em uma ou outra cena, como os dublês geralmente fazem. O Carlitos era eu, cem por cento do tempo. Vinte e quatro quadros por segundo. O acordo estabelecido com Chaplin me rendeu extraordinária independência financeira, que perdura até este entendiante 1936. Mas chega uma hora na vida em que dinheiro já não significa tudo. Melhor dizendo, chega uma hora em que ele passa a significar nada, onde o relevante mesmo é tão imaterial e provisório quanto uma comédia muda projetada numa tela rasgada de um pulgueiro de Varsóvia. 

Não me interessa qualquer outro pacto lucrativo com ele hoje, nem com seus herdeiros daqui…

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…

DINHEIRO, SEU SUMIDO!

Acabou o dinheiro. Talvez uma das frases mais ouvidas no mundo, provavelmente a mais falada por aqui. Só que o assunto agora não é o caraminguá minguado, a escassez do saldo, o orçamento no vermelho. É o fim do papel-moeda mesmo. Não tem mais coisa que você entrega em troca de outra coisa. Aqueles papéis retangulares que o agiota emprestava para quem estava com a corda no pescoço, em maços amarrados com elástico e outrora feitos de átomos, hoje não passam de bytes. 

O dinheiro que você tem, se tiver a sorte de ter, é um atestado eletrônico de veracidade validado pelo banco em que você tem conta. As notas mesmo, inexistem. Se você cismar de querer levar o que tem, e se o que você tiver ultrapassar os dois ou três mil reais, precisará avisar com 48 horas de antecedência para que o montante possa ser provisionado. 

Vamos rastrear, a esmo, uma sequência qualquer de operações. Dutra & Póvoa Associados Serviços Administrativos S/C Ltda. deposita no dia 30 o salário de Benedito Orestes da …

SEM MEIAS VERDADES

Lá se vão mais de quatrocentos e oitenta invernos desde que McElysteen e Richards travaram duro embate pelo reconhecimento da invenção das meias. Embora muitos questionem a legitimidade de direitos autorais tanto de um quanto de outro, afirmando que os primeiros exemplares remontam ao ano 600 a.C. e teriam sido usados por mulheres gregas, o fato é que esses dois ingleses parecem ser os mais sérios candidatos à patente.

É bem verdade que McElysteen jamais contestou a invenção dessa indispensável peça de vestuário como sendo atribuída a Richards; mas sustentava que Richards havia inventado a MEIA, no singular, sendo ele, McElysteen, o inventor das MEIAS, no plural - concebidas para cobrir e proteger ambos os pés. Dessa forma, a Richards caberia MEIA patente, por ser o pai de meia invenção. Já o PAR, conforme atestam os croquis e o primeiro protótipo apresentado a alguns empresários ingleses do ramo têxtil, seria de fato ideia de McElysteen. E foi essa, incontestavelmente, a forma de uso …