Pular para o conteúdo principal

O "PATRIOTA ELEGANTE" FECHA SUAS PORTAS



A notícia é triste e a perda é irreparável. Com lágrimas nos olhos, moradores dizem que não conseguem imaginar a cidade sem as coloridas vitrines do “Patriota Elegante”.

Há motivos para essa nostalgia. Rara era a casa que não tinha no quintal, entre uma jabuticabeira e um pé de graviola, um mastro para se hastear a bandeira nos dias cívicos - transmitindo aos nossos guris belos exemplos de amor à pátria. Havia sorteio na família para eleger quem teria a honra de ir puxando a cordinha até colocar o lindo pendão da esperança lá em cima, ao mesmo tempo em que um parente encarregado da sonoplastia mandava ver na sonatinha um compacto com o hino nacional, interpretado pela Banda dos Fuzileiros Navais. 

Mas nada é para sempre. A extrema sazonalidade da demanda (basicamente Proclamação da República, Dia da Independência e Dia da Bandeira), aliada à atual crise econômica em que antipatrioticamente nos meteram, explicam o fato do "Patriota" perder de vez a elegância, a freguesia e o fôlego para continuar na praça.

O 19 de novembro deste ano marcou o estrebuchamento final desse herói da resistência varejista. Cheia de dívidas com bancos e agiotas, a casa tinha como última esperança de salvação aproveitar o Dia da Bandeira para desencalhar pelo menos 950 unidades do nosso símbolo augusto da paz. É claro que nem implorando à alma do Duque de Caxias eles iriam conseguir isso, e a consequência aí está. 

O tempo áureo para o segmento foram os 21 anos do governo militar, especialmente quando dos festejos da Semana da Pátria. Todos os alunos das escolas públicas eram obrigados a alfinetar na blusa do uniforme uma fitinha verde e amarela ou uma espécie de broche semelhante a uma medalha, só que de pano. Eram centenas de milhares de quilômetros de fita assimilados compulsoriamente pelo mercado, que fizeram a fortuna dos proprietários das grandes redes de artigos patrióticos. 

À medida em que a demanda por esse tipo de produto ia perdendo força, maiores eram os lampejos criativos dos donos de lojas para tirar do vermelho a produção verde e amarela. Já não tinham grande saída os pins de lapela com o retrato de Floriano Peixoto, nem as gravatas modelo José Bonifácio de Andrada e Silva, nem as caixas de charuto baiano fumados por Getúlio Vargas. O upgrade veio com a inclusão de serviços voltados aos novos perfis de consumidor, como tatuagens com o brasão da República ou com a célebre frase de Tiradentes: "Dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria". Na tentativa de seduzir o público feminino, as lojas introduziram em seu portfólio a chamada "Nail Art", ou design de unhas, com a pintura de miniretratos da Imperatriz Leopoldina e da Princesa Isabel. Aproveitando o recente revival da barba cheia e bem cuidada, os rapazes passaram a contar com o Dom Pedro II Style como mais uma opção no catálogo patriótico. 

Nada disso, porém, adiantou. O "Patriota Elegante" sai de cena, levando à fila do seguro-desemprego cerca de 35 funcionários e deixando saudade em sua minguada clientela. Pelas esquinas da cidade, comenta-se que seu tradicional prédio da Avenida 15 de Novembro será locado para mais uma unidade da Pastelaria do China.



Imagem: clubedeartesanato.com.br 
© Direitos Reservados

Comentários

  1. Tempos muito bicudos... A voz cala-se... Imensa é a desfaçatez!
    Abraço.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…