Pular para o conteúdo principal

AGORA COM AMPLO ESTACIONAMENTO



Bem-vindo. Retire seu ticket de estacionamento e boas compras. 

- Ali era o banheiro da suíte, bem onde está o Santana prata. Quando é que o Doutor Ribeiro, fazendo a barba ou tomando banho, lá pelos idos de 1976, iria imaginar que uma porcaria de uma lata velha acabaria atropelando a sua banheira de granito e o bidê da sua senhora... É um carro antigo hoje, né? Mas em 76 essa geringonça ainda nem existia. Coisa doida. Dá nó na cabeça e angustia a gente.
- Você conhece bem a planta. Até parece que fez o projeto da casa.
- Não, eu era só um amigo da família. Aliás, esse carro, o Santana, é quase do tempo do Opala. Nos últimos anos eles tinham um Opala lindo na garagem, só vendo que beleza de automóvel. Eu era colega de classe do Serginho, filho do casal. 
- Tudo acaba, queridão. De pouquinho em pouquinho, a vida vai matando tudo o que encontra pela frente. Não poupa nada nem ninguém.

Oferta-relâmpago imperdível pra você aproveitar: margarina Doriana, pote 500 gramas, só R$3,78.

- Alguns lugares não poderiam ter direito ao fim. A casa dos Ribeiro era uma instituição da cidade. É uma amputação urbana, uma coisa antinatural e desrespeitosa ela não existir mais. Está vendo aquela Pajero, do lado do Onix? Ali ficava a sala de jantar, que dava em "L" pra de televisão. Um pouco mais pra lá tinha a porta principal, ladeada por enormes vitrôs de correr, que do ponto de vista dos meus oito anos aparentavam ter uns quinze metros. Olha, vou te falar... pra quem entrou tantas vezes naquela casa linda, era mais fácil ver tudo em ruínas do que dar com isso o que estou vendo agora.  Esse pátio imenso de cimento, com essas faixas amarelas demarcando as vagas, esse barulho horroroso de carrinho de supermercado vindo pra lá e pra cá. Não é justo. Não é digno do que foi aquela família, nem da história que viveram nesse chão aqui, sabe?
- Ih, caramba. A gente aqui conversando e olha só... o Pinho Sol vazou bem em cima das peras.

Omo Dupla Ação. Deixa o branco mais branco, tira as manchas mais difíceis. Remove toda a sujeira sem estragar suas roupas.

- Tem tantos anos tudo isso, já era pra ter apagado da lembrança. Daqui a pouco o Doutor Ribeiro vai ser só um nome de rua. E mais um pouco, ninguém vai saber quem foi o Doutor Ribeiro e porque a rua tem esse nome. É triste. 

Para sair, insira o seu ticket de estacionamento. Volte sempre!


Imagem: http://www.photos-public-domain.com
© Direitos Reservados

Comentários

  1. Viagem mental do ontem simbolizado no hoje... Valores em metamorfose vital! Não há como fugir.
    Abraços natalinos, Marcelo.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

O DESPERTADOR HUMANO

Junto com a Revolução Industrial – período de 1760 a algum momento entre 1820 e 1840 – vieram os empregos. Para não perderem a hora, existia o despertador humano, um profissional responsável por acordar as pessoas para que comparecessem ao trabalho pontualmente. O primeiro relógio-despertador foi criado em 1847, mas só se popularizou décadas depois. Assim, era comum ver pessoas com bambus ou varetas batendo nas vidraças ou atirando pedrinhas nas janelas daqueles que as contratavam.
(fonte: universoretro.com.br)





Fico imaginando o que seria dessa cidade caso eu tivesse escolhido outra coisa para fazer na vida. Se bobear, você mesmo pode ter sido acordado por mim hoje. 

Não há quem não precise de meus préstimos. Muitos podem pensar que não faz nenhum sentido um arrumador de pinos de boliche, por exemplo, necessitar dos serviços de um despertador humano. Ele não tem que acordar cedo, pois geralmente trabalha à noite. Só que ele troca a noite pelo dia, e se não houver ninguém para acordá-lo m…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …