Pular para o conteúdo principal

YOU HAVE A NEW MESSAGE





1
Um quarto de lexotan, um quase nada, se você mastigar a calma vem na hora - como uma fada invadindo a sala entre tules e incensos. Eu disse, dei a dica, ela no fundo ignora cem por cento do que falo. Lá está, com seus dois olhos que nem piscam, vidrados no monitor do notebook e dando o comando de atualizar página a cada quarenta segundos. Ainda se esperasse algum resultado de biópsia, mas não. Era a ansiedade sem causa aparente, a mim e a quem mais chegasse e não soubesse o que exatamente ela aguardava. E dá-lhe doze emails do groupon, cinco das lojas americanas e suas black, blue, white and pink fridays. Adidas e sua coleção da nova temporada, o mundos é dos nets mas poderia ser dos pets, uma ninhada de beagles nessa campanha. Ela se ajeita na cadeira, respira fundo, faz um alongamento de cervical e fecha os lindos olhos muito mais meus que dela. E a mais certa de todas as verdades do mundo é que se trava agora um duelo entre seus lados - um ansiando para que a mensagem chegue e o envelopinho pisque e outro que desejaria tudo menos a angústia de abri-lo e deparar-se com a crueza cortante do que já adivinhava. Aquilo que não queria ver, se chegasse, mas que acabaria com a morte lenta dessa espera, esse desacontecer fatal. Definitivamente o Criador não desenhou suas criaturas para a paciência.


2
Leve três pares de sapatênis por 199,90. Assine a petição do Greenpeace pelo Santuário das Baleias do Atlântico Sul, shoptime, peixe urbano, tecnomídia, bradesco previdência. Alterna agora entre o "verificar emails" e o F5 do teclado, para variar um pouco. Olha pra mim um instante, vai. Que seja só de soslaio, mas dá um fiozinho de atenção e dormirei nas nuvens. Saiba do aflito que viro vendo a aflição sua. Agora ela cabeceia, começa a "pescar", rendida ao cansaço vão. Desperta com o apito da ronda noturna, limpa os óculos redondos. Parece estar rezando, mas será? Um milhão de caixas de bombons suíços em troca de cinco minutos dos seus pensamentos. Ser feliz pode ser simples: deixa que seja minha essa mensagem que não vem.



© Direitos Reservados
Imagem: stopthespeaker.com

Comentários

  1. ..."Ser feliz pode ser simples"...
    Nós é que complicamos... à toa... e a felicidade tão perto de nós!
    Abraço.

    ResponderExcluir
  2. o lamento paciente do narrador se contrapondo a agonia da ansiedade da amada. A busca nervosa por algo que acalme talvez possa ter fim num abraço, braços ninho feito da paciência de quem ama.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…