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BANHEIRO RIMA COM DINHEIRO




Ele, particularmente, não via sentido nenhum nessa história de ler no banheiro. Seja no fato de ir ao WC para ler, ou de ler enquanto  não se resolvem pendências fisiológicas de naturezas diversas.

Ainda que até hoje se desconheça exatamente o porquê de se transformar vaso sanitário em poltrona de biblioteca, a verdade é que o hábito parece inerente à raça humana. Dessa constatação, veio a pergunta: como ganhar dinheiro com isso?

Uns quatro dias depois apareceu a resposta, no banho, ao ensaboar o sovaco esquerdo. "Lógico!, gritou ele. Histórias no papel higiênico!!!"

Enquanto negócio, a coisa era realmente promissora. Não só pelo ineditismo do produto, mas também pelo previsível aumento desenfreado do consumo. Se, para uma pessoa, cinquenta centímetros de papel é medida suficiente para determinada função, com a novidade a metragem média poderia multiplicar-se de maneira espetacular, dependendo do interesse do usuário e da capacidade da história em segurar sua atenção. 

A "plataforma de leitura" mostrava-se suficientemente versátil para os mais diversos perfis de público. Pessoas não muito afeitas à leitura poderiam adorar charges de dois ou três quadrinhos, mais visuais e com pouco texto. Os amantes de obras-primas da literatura universal teriam à disposição a versão integral do "Dom Quixote" condensada em um rolo de 30 metros, ainda que em letra de bula. Já os praticantes de leitura dinâmica ficariam à vontade para devorar a Encyclopaedia Britannica em uma sentada. Literalmente.

As possibilidades de adequação seriam infinitas. Para motéis, desenhos e fotos pornográficas, relatos picantes e classificados de sexshops e casas de swing. Para asilos, figuras com pontos de crochê e táticas invencíveis no dominó. Para colégios, colas prontas para provas de todas as matérias. Pensou também em uma versão com palavras cruzadas, mas desistiu do intento pela necessidade de caneta e pela fina espessura do papel.

Mais tarde, pesquisando no Google, descobriu que seu lampejo genial não era tão inédito quanto imaginava, nem tão lucrativo quanto parecia. Três ou quatro visionários já haviam se aventurado pela empreitada, sem grande sucesso. Um dos projetos, que chegou a ser implementado nos Estados Unidos no final dos anos 70, contemplava um mecanismo perverso de fidelização do consumidor: a história chegava ao auge do suspense no final do rolo e terminava nos primeiros metros do rolo seguinte, coagindo o usuário à compra de fardos extras. Na época, os gringos acharam que ficariam milionários, mas erraram feio. E estão até hoje enxugando as lágrimas com o estoque encalhado de papel.



Imagem: geektoypia.com
© Direitos Reservados


Comentários

  1. Marcelo, ótimo texto, como sempre!
    Eu adoro ler, mas foram raras as vezes que fiz isso no banheiro..rs Sempre achei graça dessa história. Até tentei deixar algumas revistas por um tempo, mas a verdade é o hábito não pegou..rs

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  2. Fico imaginando não conseguir a sequência da história, pois outro entrou logo em seguida, e lá se foi a história... A não ser que cada um tenha o seu rolo de papel higiênico!! Bem, há certas leituras que merecem tal finalidade! Haja intelecto!! rsrs...
    Abraço.

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  3. Sim, um vício de família ler jornal nas quatro paredes da intimidade, mas realmente cada um precisaria ter o seu rolo ou durante o jantar cada um faria a sinopse do pedaço que lhe coube. Talvez até fosse um momento imperdível de convivência. E por falar em papel higiênico me apaixonei pelas incontáveis cores dos rolos à venda na entrada do Louvre (pelo Shopping) em Paris. Deixei para comprar depois e não voltei lá, sniff, sniff.
    Adorei o texto. Parabéns; como sempre despertando lucubrações nos leitores...
    Boa semana.♥♥

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  4. Vai inventar assim lá na China, quero dizer, no banheiro! O camarada na roda de leme do veleiro sou eu sim, Marcelo. Abração.

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