Pular para o conteúdo principal

SAUDADE DOS MILHÕES*



Se há uma coisa que não falta para este humilde fardado da Guarda Municipal é experiência. Sou macaco velho, dos idos da radiopatrulha de fusquinha. Já sonhava em trabalhar na polícia desde o tempo em que a minha única munição era bala Chita. Isso lá no Belenzinho, meados dos anos 50. Minha coleção de revólveres de espoleta era famosa em todo o quarteirão. Me desfiz dela aos prantos, ao receber uma proposta irrecusável de um governador do Acre para equipar os coldres daqueles guardas-manequins-fakes vestidos com uniforme policial, que ficavam nas vias expressas e próximos aos camelódromos de Rio Branco. 

Lembro como se fosse hoje da Operação Propi-Corn, uma das primeiras de que participei. Os milhões eram escondidos disfarçados de inocentes piruás no fundo de saquinhos de pipoca, servidos sem mãos a medir nas festas juninas da Granja do Torto. Gatunagem da grossa. Chegamos com os cães farejadores e os meliantes engravatados, alguns deles com ridículos bigodes de carvão e remendos nos ternos Armani, foram pegos de surpresa com a propina ainda quentinha, saindo da panela. Dois ou três ainda tentaram, sem sucesso, se evadir subindo pelo pau de sebo. Mas recuperamos os milhões. Não digo tudo, mas a maior parte, já que um terço das espigas acabou virando curau e pamonha naquele malfadado São João brasiliense.

Depois foi a vez de desmantelarmos uma organização criminosa que fabricava e distribuía bafômetros com selos falsos do Inmetro. A ideia dos bandidos era fornecer bafômetros descalibrados para menos, no intuito de aprovar no teste tudo quanto era bêbado, mesmo aqueles beirando o coma alcoólico. A engrenagem da quadrilha era toda financiada por grandes marcas de bebidas destiladas e fermentadas. Com todo mundo passando no teste, a confiança dos cachaceiros nos bafômetros complacentes aumentava – junto com o consumo, naturalmente. 

A repercussão foi enorme no dia em que fizemos o flagrante. Deu até Jornal Nacional. Todos do nosso grupo foram entrevistados, e dias depois fomos condecorados com medalhas de bravura. Fechamos uma churrascaria na Marginal pra comemorar, bebemos além da conta e, ironia dos ironias, fomos pegos numa blitz de bafômetro. Em fila indiana e trançando as pernas para passar pelo aparelho, nenhum de nós estava em condições de explicar ao pessoal da Patrulha Rodoviária que éramos guardas também, o que poderia nos dar a prerrogativa de escapar do exame. A sorte é que os bafômetros eram do lote falsificado e fomos embora felizes e ziguezagueando, tirando fina de pedestres, ônibus, postes e muretas de concreto. 

É, meu querido. Bons e bucólicos tempos, em que perseguíamos quadrilhas que mexiam com milhões. Pobres e minguados milhõezinhos. Dinheiro de pinga, se comparado aos bilhões de hoje. E pinga tão fraquinha que bafômetro nenhum pegava.



*Esta é uma obra de ficção.


© Direitos Reservados


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…