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ALONELAND




É pouco provável que consigamos deter o processo de desertificação de Aloneland. Não a geográfica, mas a desertificação humana mesmo. 

Devagarinho vamos tendo a nítida confirmação de que há, em nosso povo, uma espécie de predestinação ao não-acasalamento. O que não significa um comportamento assexuado, mas um conformismo em lidar com a libido sem a necessidade de outrem.

A estonteante oferta de pornografia na internet, para grande parte das pessoas, é um convite irrecusável à autossuficiência. Com tantas e cada vez mais realistas variações de bem-bom virtual, para quê complicações de relacionamento, DRs até tarde da noite, novas responsabilidades e contas a pagar, papel passado em cartório, sogras, cunhados e congêneres?

É nessa conveniência que está o maior perigo. Um casal precisa ter dois filhos para que a população permaneça basicamente a mesma. Isso é aritmético e incontestável. Se entretanto, esse suposto casal gere apenas uma criança, bastará uma única geração para que o número de habitantes do país caia pela metade. Caso o casal em questão opte por não deixar descendentes, onde haviam duas pessoas por domicílio passará a haver nenhuma, a partir do óbito dos cônjuges. 

A prosseguir, no ritmo em que se observa hoje, a opção pelo celibato e a indiferença à conjunção carnal, estima-se que em no máximo 60 anos não restará um único alonelandino sobre o nosso território. 

Ciente da ameaça, o governo já implementa ações preventivas para evitar o pior. 

Primeira medida: toda as formas de acesso à internet em Aloneland serão interrompidas às 19 horas, nos sete dias da semana. 

Segunda: a iluminação pública será cortada e o policiamento afastado em lugares ermos e propícios à intimidade.

Os clubes e demais locais licenciados para a prática de nudismo receberão incentivos fiscais dos municípios, além de autorização especial para que possam funcionar 24 horas durante todo o ano - inclusive no inverno, recebendo empréstimos estatais subsidiados para a compra de aquecedores. 

Outros expedientes emergenciais já estão em curso, sem o conhecimento da população e com o aval dos mais altos escalões governamentais. São procedimentos eticamente reprováveis, mas de alta eficácia para combater a míngua obstétrica que vivenciamos. Dentre eles, o que vem apresentando resultados mais significativos é a sabotagem nas fábricas de preservativos, com a incisão proposital de microfuros nos produtos. Já as pílulas anticoncepcionais de farinha e açúcar, fabricadas até recentemente com o conluio e o apoio logístico da nossa indústria farmacêutica, teve sua produção descontinuada devido ao vazamento da prática para a imprensa local e internacional. 

Uma alternativa em estudo consiste na abertura de fronteiras para imigrantes de países com o problema oposto ao nosso, ou seja, de alta densidade demográfica e crescimento populacional em progressão geométrica. A ideia é que esse contigente, trazendo consigo um histórico de maior assiduidade sexual, procrie com os nativos e colabore para minorar o déficit de nascimentos. 




© Direitos Reservados



Comentários

  1. É isto! Pílulas anticoncepcionais de farinha de trigo e açúcar, sem sogra, sogro, cunhados. Nada de separações onerosas, acabou, fim! O mundo caminha. Os japoneses e suas infláveis fizeram a revolução. "A minha é muito mais bonita do que a sua". As famosas que se cuidem!

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  2. Estou contratando minha mudança para ALONELAND... Viver paradiasicamente é um sonho!
    Abraço.

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  3. Claudete Amaral12:52 PM

    Oi, amigo!
    Eu já fiz a minha parte! Tive três filhos, que por sua vez já procriaram também...(não muito mas....já!)............
    Agora essa Aloneland.......será que esses meios darão certo? Afinal, há tantas crianças jogadas no lixo (literalmente!).....
    Aí tb n/ vai adiantar! Será uma geração de pessoas problemáticas! kkkkkkk
    Um abração! Bom final de domingo!
    Claudete

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  4. Marco Antonio Rossi12:53 PM

    bom dia otima semana.
    Estou preparando as malas rumo a ALONELAND....
    Abraço
    Rossi

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  5. Antonio Carlos Antoniazi1:11 PM

    O, com certeza já finado, MacNamara, então Ministro norte-americano, deve estar se virando lá na tumba. Entendia, lá na década de sessenta do século passado, que o crescimento populacional tinha que ser contido. Na época em especial na Argentina, onde fez a declaração, meu caro amigo Marcelo Pirajá Sguassábia.

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  6. Clotilde Fascioni1:12 PM

    Mais um texto maravilhoso, ainda bem que em termos de criação literária a sua fonte está cada vez mais abundante meu amigo Marcelo Pirajá Sguassábia.♥♥

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  7. Mara Narciso11:14 AM

    Vendo a fila na porta das maternidades, vemos que esta ficção está longe de se tornar realidade, mas não deixa de ser uma ideia interessante.

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  8. Rita Lavoyer4:44 PM

    Que bom se Aloneland fosse o Brasil, ou se o mundo se espelhadas nos alonelandinos. Parabéns, moço de assídua produção literária . ��������

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