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CARTA DE PERO VAZ - A RESPOSTA



Meu caro Pero, 

Tua carta, relatando a descoberta de novas e tão ricas terras para a Coroa lusitana, causou grande satisfação ao nosso Rei, Dom Manuel. Fui testemunha bem próxima - muito mais próxima do que podes imaginar - dos pulos de alegria que dava a cada parágrafo lido. Era tanto contentamento que se mijava nas ceroulas, ora pois. 

Deves estar estranhando o fato de eu, tua esposa, estar a responder-te, e não o Rei. Mas explico-te em poucas linhas, que espero suficientes para que jamais voltes a pisar o solo português e nem olhes na minha cara novamente. 

Saibas que escrevo-te estas mal-traçadas no leito imperial, onde o monarca agora está a ressonar profundamente após uma alucinante noite de amor comigo. Peço-te o favor de não sentires ciúmes de mim. Como vês, não valho nada, nunca vali, e não sou digna nem mesmo do teu desprezo. Do mesmo modo, estejas certo de que nunca reclamarei direito algum se vieres a deitar, nas redes aborígenes que encontrares, com as índias nuas que te apetecerem. Mas aconselho-te a sempre teres contigo um farto e variado estoque de espelhinhos, apitos e outras quinquilharias a que os selvagens daí parecem gostar tanto. Primeiro, para tornares mais fáceis as tuas conquistas - já que não és nenhum modelo de formosura. Segundo, para acalmares os ânimos dos índios não acostumados a emprestarem suas mulheres para portugueses de segunda categoria como tu.

Afirmas em teu relato que, aí onde te encontras, em se plantando tudo dá. Assim, sugiro que por aí permaneças para iniciar uma nova etapa da tua vida e quem sabe fazer a fortuna que não conseguiste nestas paragens. Sim, Pero Vaz, estou a dar-te uma banana. E desejo que a transformes em abacaxis, palmeiras, cocos, carambolas, macaúbas e tudo mais que puderes cultivar na Terra de Santa Cruz (ou seria Ilha de Vera Cruz?). E que te tornes tão rico e poderoso quanto Dom Manuel I, meu amante desde os tempos em que ainda eras um reles aspirante à esquadra de Cabral. 


Esta é uma obra de ficção.



© Direitos Reservados

Comentários

  1. Que mulherzinha atrevida! Verdade que Pero era folgado mesmo, pediu nesta carta favores para parentes, mas manda-lo plantar bananas onde? Suspeito isso, muito suspeito. Esta carta deveria ser analisada pelo perito Molina.

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  2. Totalmente absolvido... Nada mais a declarar... Hoje, o combo é bem diferente e bem mais valioso... Malas & Malas... Escrever o quê? ... Grava-se conluios e, idiotas somos todos nós que, nem a pão e banana sobreviveremos...
    Abraço.

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  3. Maria Teresa Hildebrand1:39 PM

    Bom dia !!!

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  4. Marcos Pirajá1:40 PM

    Palmas!

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  5. Fabiana Bagarolli1:45 PM

    Mto Bom!!! ;)

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  6. Rita Lavoyer1:46 PM

    Ora, pois!! Que maneira mais meiga e gentil de terminar um falido casamento com um escritor/poeta tão descritivamente poético, !!!
    Pois não é que a sirigaita sabia desde aqueles 1500, que viver com quem se dá a escrever de forma rebuscada é o mesmo que dar com os burros n'água?
    Pois pois. Fizeste bem a traidora. Antes um rei na cama que um escritor na caravela lotada de homens fedorentos.

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  7. Márcio Ketner Sguassábia1:47 PM

    Muito bom, Coroné!

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  8. Daniel Santos1:48 PM

    Se a tal era, de fato, tão doidivanas, bem fez Caminha em se bandear para cá, onde as índias -ele relatou- eram mais asseadas que as finas damas da corte europeia. Melhor aqui mesmo, onde recebeu essa carta hilariante da esposa concubina do Rei. Uma carta que 'vazou', parece, e chegou aos teus privilegiados leitores, caro Marcelo. Parabéns e grande abraço.

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  9. Clotilde Fascioni1:50 PM

    Hahahaha... que furo em? E que loucura eram essas portuguesas que arrebitavam sem dó...
    Muito bom texto meu amigo Marcelo Pirajá Sguassábia, dei boas risadas... bom domingo... ai "botaqui" ai "botaqui" o teu pezinho...����������������

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  10. Antonio Carlos Antoniazi1:51 PM

    Então, Marcelo (Marcelo Pirajá Sguassábia). Nunca me habilitei a fazer a leitura "completa" da Carta de Caminha. Hoje, sábado, dia 05/08/2017, nos meus setenta e um anos e quatro meses de idade, conhecida a resposta por você postada fui induzido à leitura de "toda" a carta . Valeu.

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  11. Maria Angélica Bernardes1:52 PM

    Kkkkk.. muito Boa...

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  12. Maria Tereza Torres Mantovani1:53 PM

    Muito bom, como sempre! !!!

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  13. Betinha Loyolla Galli1:55 PM

    Kkkk

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  14. Mary Maia1:56 PM

    ''Segundo, para acalmares os ânimos dos índios não acostumados a emprestarem suas mulheres para portugueses de segunda categoria como tu.''... Não resisti a um ''kkkk''.... Muito bom, Marcelo! Grande abraço.

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  15. Claudete Amaral2:44 PM

    Sinceridade, hein???????
    Bela resposta!...uma verdadeira respostada!

    Desejo-lhe uma semana de muitas alegrias!
    Meu primo Guaraci Sguassabia, conversando comigo, disse que o último Sguassabia deveria ser ele!
    Falei que não. Que eu tinha um amigo que era tb primo dele. Ele me perguntou se vc era filho do Jairo...
    Disse que n/ fazia a menor idéia! Seria interessante vcs conversarem....Ele tem um carro a serviço do (a) UBER, em SP.
    Um abraço!
    Claudete

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    Respostas
    1. Tudo bem, Claudete?
      Que bom que gostou do texto.

      Não conheço Guaraci Sguassábia, deve ser primo distante - embora nossa família seja pequena aqui no Brasil. Há mais "Sguazzabia" na província de Verona, Itália, de onde nos originamos. Não sou filho do Jayro, sou sobrinho dele. Meu pai era João Batista, irmão do Jayro, filho de Miguel Sguassábia.

      Manda um abraço pra ele, Claudete. Se conversarem, passe meu facebook e email. Abraços agradecidos!

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  16. Mara Narciso1:31 PM

    Antigamente as mulheres seriam fáceis? Difícil era a linguagem de Pero Vaz de Caminha. Boas falas, Marcelo!

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