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Mostrando postagens de Setembro, 2017

SAUDAÇÕES, POBRES MORTAIS

CRIÔNICA: PROCESSO DE PRESERVAÇÃO EM BAIXAS TEMPERATURAS DE HUMANOS QUE NÃO PODEM MAIS SER MANTIDOS VIVOS PELA MEDICINA CONTEMPORÂNEA, SUPONDO-SE QUE A REANIMAÇÃO SEJA POSSÍVEL NO FUTURO.


Errou. Essa não é mais uma ficção envolvendo congelamento de cadáveres que a evolução científica consegue trazer de volta à vida num futuro distante. 

Enquanto cadáver congelado eu mantenho-me lúcido e pensante, tenho consciência do que quis que fizessem comigo e da minha condição de hibernante por tempo indefinido. Não respiro, meu coração não pulsa, mas o cérebro funciona e a memória permanece tão intacta quanto todos os órgãos do meu corpo, inerte e imerso em nitrogênio líquido. 

A primeira e desesperadora constatação é ter perdido a noção de quanto tempo se passou do óbito até aqui. Tudo é um breu à minha volta, provavelmente há décadas. Talvez séculos. Não o presumível breu da cápsula fechada, pois minha visão e todos os demais sentidos estão inoperantes. É a escuridão interna, o apagão generalizad…

QUEBRA DE SERVIÇO

Com a riqueza e a fama, a gente se acostuma fácil. Duro mesmo é se readaptar ao inferno depois de uma bela temporada no paraíso. Mas agora é assim, e não há nada que se possa fazer a respeito. Material esportivo novo e à vontade? Foi-se o tempo. Enquanto um calção está em jogo, o outro - emprestado - ficou em casa de molho com sabão de ação concentrada para ver se sai uma mancha de saibro, causada por um escorregão feio na última partida. A queda, na quadra e no ranking, abriu um rasgo nos fundilhos, mas nada que uma tia velha que costura pra fora não possa resolver.

Troquei o treinador pelo paredão, e essa miserável alternativa consegue ser pior do que praticar com aquelas máquinas lançadoras de bolas (que, aliás, precisei permutar com 12 tubos de bolas Wilson, já que as três últimas que tinha estavam carecas e rachadas). Os bons tempos das nove raquetes novinhas e embaladas em plástico por partida, de 4 materiais diferentes, agora se resumem a uma filha única, de aro entortado e enco…

NOME AOS MAÇOS

Meninos colecionavam maços (vazios) de cigarros na década de 70. 
Quem tinha "Chesterfield", ainda que esfarelando, tinha uma preciosidade, já que estávamos em 76 e a marca desapareceu do mercado brasileiro em meados dos 60. Enquanto vagava pelas ruas, sarjetas e bocas de bueiros à cata de algum maço que ainda não possuía, ensaiava estúpidas deduções semânticas. No caso do "Chesterfield": "Chester" para mim era a ave das ceias de Natal. Já "field", o escasso inglês dos meus 12 anos conseguia traduzir como "campo". O que resultava em "campo de chesters", algo um tanto surreal para um animal criado em confinamento e anabolizado com hormônio. 

A marca "Kent" tinha esse nome por causa da temperatura da brasa e da fumaça do cigarro, evidentemente. Nunca poderia me passar pela cabeça que aquele fosse o nome de um Condado no sudeste da Inglaterra. Aliás, o predomínio de nomes ingleses nas marcas de cigarro era absoluto: Alba…