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NOME AOS MAÇOS



Meninos colecionavam maços (vazios) de cigarros na década de 70. 
Quem tinha "Chesterfield", ainda que esfarelando, tinha uma preciosidade, já que estávamos em 76 e a marca desapareceu do mercado brasileiro em meados dos 60. Enquanto vagava pelas ruas, sarjetas e bocas de bueiros à cata de algum maço que ainda não possuía, ensaiava estúpidas deduções semânticas. No caso do "Chesterfield": "Chester" para mim era a ave das ceias de Natal. Já "field", o escasso inglês dos meus 12 anos conseguia traduzir como "campo". O que resultava em "campo de chesters", algo um tanto surreal para um animal criado em confinamento e anabolizado com hormônio. 

A marca "Kent" tinha esse nome por causa da temperatura da brasa e da fumaça do cigarro, evidentemente. Nunca poderia me passar pela cabeça que aquele fosse o nome de um Condado no sudeste da Inglaterra. Aliás, o predomínio de nomes ingleses nas marcas de cigarro era absoluto: Albany, Derby, Winston, Carlton, Advance, Belmont, Pall Mall, Benson & Hedges, Dunhill and hundreds more.

Ainda no inglês, "Minister" para mim era intraduzível, não associava com "ministro". Da mesma forma que "Parliament", na minha mirim ignorância, não vinha de "parlamento". Eram nomes criados do nada, que se bastavam pela nobreza da sonoridade. "John Player Special" era ultraelegante e esportivo, com o preto, o dourado e a tipologia idênticos à Lotus patrocinada pela marca. E quando certo dia o locutor da Fórmula 1 anunciou na narração que o motor da Lotus estava fumando, minha lógica infantil não viu nada de incoerente nisso. Analisando particularmente o nome vertido para o português, não via lá muito sentido em "João Jogador Especial". Seria melhor "João Piloto Especial", já que a marca era ligada ao automobilismo...

A marca "Fulgor" talvez fosse a mais valiosa e cobiçada, fazendo páreo em raridade com "Yolanda" e "Petit Londrinos". Vendidas nos anos 30 e 40, o acesso da meninada a estes tesouros só era possível via coleções de pais ou avós. Que legavam aos pequenos herdeiros o vício do colecionismo. E, frequentemente, o do fumo também. 




© Direitos Reservados
Imagem: www.olx.com.br

Comentários

  1. Ser colecionador, ótimo, mas ser fumante carrega-se um alto ônus...
    Abraço.

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  2. Comprei muito "Petit Londrinos" para o meu pai, quando era menino. Esta de saudade...
    Abraço.

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  3. Marco Antonio Rossi11:00 AM

    Bom dia e otima semana.
    Meu amigo até cintos forem feitos com essas embalagens.....
    Fumei 80% desse mostruário....
    Me livrei há mais de 35 anos, ainda bem senão ja não estaria mais aqui para ler esse texto.
    Grande abraço
    Rossi

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    Respostas
    1. Agradeço o comentário, Rossi!

      Ainda bem que se livrou do vício. Eu, por enquanto, ainda não estou livre totalmente. Dois ao dia ainda são indispensáveis - um de manhã e outro à noite...

      Abraços.

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  4. Beth - Entrementes11:03 AM

    A minha lembrança é do cigarro de palha... nasci na roça e os meus tios e avó, sempre escolhiam a melhor palha e depois, com o canivete, cortava o fumo de rolo em pedacinhos. Ajeitava o fumo cortado na palha e enrolava com cuidado e arte. Então, sentavam na área e soltavam as baforadas, como aqueles índios americanos, com seus cachimbos da paz. Era um ritual bonito de se ver. E lembro dos maços de cigarros, modernos, bonitos e brilhantes com os nomes que citou no texto.

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  5. Antonio Carlos Antoniazi11:32 AM

    Você não falou de preços, Marcelo Pirajá Sguassábia. Mas vejo que nessa coleção da foto não tem o mais barato deles, da época que você menciona: o Macedônia. Como diziam, um verdadeiro "arrebenta peito".

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  6. Mary Chirnev11:32 AM

    Meninas também. Eu colecionava.

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  7. Clotilde Fascioni11:34 AM

    Juntei muitos maços pela rua para a coleção dos meus meninos... só você mesmo para "desencavar" tantas lembranças Marcelo Pirajá Sguassábia...

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  8. Jorge Sader Filho11:35 AM

    Comprei muito "Petit Londrinos" para o meu pai, quando menino! Esta deu saudade! Abração, Marcelo!

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  9. Marli Caron11:36 AM

    Gostei muito do texto

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  10. Luciana Sleiman11:41 AM

    Eu colecionava os selinhos dos maços... difícil de conseguir do fumante antes que abrisse o maço. Quanto mais inteiro, mais difícil rs

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  11. Nicete Campos11:42 AM

    Eu também colecionava, e o Minister era o meu preferido. Parabéns pelo texto .

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  12. Maria Adélia Horvath11:45 AM

    Meu avô fumava Fulgor ...

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  13. Acho que fui um pouco machista no início do texto... Peço desculpas à melhor metade da humanidade!!!

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  14. Luciana Sleiman11:47 AM

    Tive de voltar lá pra verificar...

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  15. Celia Gnan de Carvalho11:48 AM

    gostei do texto
    eu ajudava meu primo procurar
    colecionava número d caixinha d chicletes também

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  16. Maria de Fátima Pedroso11:49 AM

    Tinha tbem o Bervely !

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  17. Sandra Del Greco11:51 AM

    Meu pai fumava CAPRI

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  18. Caio Henrique Bezerra11:53 AM

    eu tive uma coleçao gigantesca durante 15 anos.
    ai minha mae se irritou cmg e jogou td fora.
    mais de 20 países e seus cigarros.
    a raiva foi tanta que hj soh coleciono desgosto.
    kkk

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  19. Viviane Corso11:54 AM

    O meu irmão tinha uma coleção

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  20. Mônica Hazama11:55 AM

    mostra pro Nanão..... A coleção dele era Top :D

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  21. Alvaro Oliveira11:57 AM

    Eita rapaiz...isso faz tempoEita rapaiz...isso faz tempo

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