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QUEBRA DE SERVIÇO




Com a riqueza e a fama, a gente se acostuma fácil. Duro mesmo é se readaptar ao inferno depois de uma bela temporada no paraíso. Mas agora é assim, e não há nada que se possa fazer a respeito. Material esportivo novo e à vontade? Foi-se o tempo. Enquanto um calção está em jogo, o outro - emprestado - ficou em casa de molho com sabão de ação concentrada para ver se sai uma mancha de saibro, causada por um escorregão feio na última partida. A queda, na quadra e no ranking, abriu um rasgo nos fundilhos, mas nada que uma tia velha que costura pra fora não possa resolver.

Troquei o treinador pelo paredão, e essa miserável alternativa consegue ser pior do que praticar com aquelas máquinas lançadoras de bolas (que, aliás, precisei permutar com 12 tubos de bolas Wilson, já que as três últimas que tinha estavam carecas e rachadas). Os bons tempos das nove raquetes novinhas e embaladas em plástico por partida, de 4 materiais diferentes, agora se resumem a uma filha única, de aro entortado e encordoamento frouxo. O pior é que não posso exigir muito dela nos treinos, caso contrário não sobra raquete para as partidas. 

O contrato com a Nike foi quebrado unilateralmente, e tive que assinar às pressas com a paraguaia Neki, que é quem custeia o sabão de ação concentrada para tirar as manchas dos calções - o meu e o emprestado. 

Na última partida ainda sob o contrato antigo, nem todos percebiam mas a inanição já minava a minha massa muscular, comprometendo a performance e distraindo minha atenção do jogo. Estávamos nas oitavas de final do US Open, e o juiz interrompeu a partida para dar uma raspança em um espectador que saiu do seu lugar para comprar um hambúrguer. O meu e todos os olhares do mundo voltaram-se para ele, já que ninguém pode se movimentar pela arquibancada com o jogo em andamento. A diferença é que, enquanto todos lamentavam a desconcentração causada pelo ocorrido, eu olhava salivando para aquele suculento sanduíche transbordante de recheio. Eu queria levar aquele Double Open Extra Burger para a cama e botar minha fome em luta corporal com ele. 

Até outro dia, eu só assinava autógrafos e meus assessores cuidavam do resto. Agora, vivo assinando promissórias e empréstimos bancários. O último autógrafo que dei como astro das quadras foi para o irmão de um agiota para quem penhorei todos os troféus de Grand Slam, e que ainda se lembrava vagamente da minha glória antes da decadência. 

Bem, depois prossigo este relato. O porteiro do prédio acabou de interfonar, dizendo que o representante da Laboste está subindo aqui para a minha kitnet. Veio falar sobre uma proposta de abandonar o patrocínio da Neki e assinar com a marca deles para a temporada 2018. 



© Direitos Reservados


Comentários

  1. Certo, certo. Pouco pior é para aquele competidor de tiro ao alvo. Para ser bom mesmo, a série deve ser de 25 disparos diários. Com o preço da munição, desentocou a velha e fiel atiradeira, guardada na gaveta de velhos troféus há mais de trinta anos!
    Abraço.

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  2. Esse deve ser o desespero de muitos... Por aqui nem o 'Laboste' pega o elevador para novas propostas... Ah! Mas fique frio, Marcelo, há 'um cara' dizendo que consertará o país... kkkk... Subestimam nossa 'inteligência' ainda que artificial...
    Abraço.

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  3. Claudete Amaral10:49 AM

    OI!

    Todos os setores....indo para trás!

    Que fazer, não? Melhor ficar com o Laboste...senão até esse irá perder!

    Uma boa semana pra vc!

    Claudete

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  4. Marco Antonio Rossi9:55 AM

    BOA TARDE.

    Ainda bem que a partida acabou no quinto set.

    Esse jogador e seus apetrechos parecem um país sul americano......

    Abraços

    Rossi

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  5. Mara Narciso12:31 PM

    Triste fim de Policarpo Quaresma.

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  6. André Albuquerque2:50 PM

    A irreverencia e o talento de sempre.Um abraço.

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  7. Antoniazi2:50 PM

    Já disseram Marcelo (Marcelo Pirajá Sguassábia), que quem nasce no topo, se cair, terá muita dificuldade para lá voltar. Se voltar. Mas quem já percorreu o caminho uma vez, se cair, com pouco esforço para lá irá novamente.

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  8. Clotilde Fascioni2:51 PM

    Amei! Bom findi meu amigo Marcelo Pirajá Sguassábia, com bolas carecas ou não...abraços...♥♥

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  9. Rita Lavoyer2:52 PM

    Então, quem ganha muito gasta muito e gasta bem.
    Tomara o novo patrocinador leve este cronista junto para fazer umas boas publicidades do craque em questão.
    Parabéns, Marcelo.

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  10. Daniel Santos2:52 PM

    Dizem que a necessidade é uma grande mestra, mas eu prefiro mesmo é a fatura. Eu e esse seu hilário personagem que, apesar dos pesares, me tirou boas gargalhadas. Grande crônica, caro Marcelo.

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  11. Luciana Sleiman2:53 PM

    Pobre Bjorn Borg :)

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