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SAUDAÇÕES, POBRES MORTAIS




CRIÔNICA: PROCESSO DE PRESERVAÇÃO EM BAIXAS TEMPERATURAS DE HUMANOS QUE NÃO PODEM MAIS SER MANTIDOS VIVOS PELA MEDICINA CONTEMPORÂNEA, SUPONDO-SE QUE A REANIMAÇÃO SEJA POSSÍVEL NO FUTURO.


Errou. Essa não é mais uma ficção envolvendo congelamento de cadáveres que a evolução científica consegue trazer de volta à vida num futuro distante. 

Enquanto cadáver congelado eu mantenho-me lúcido e pensante, tenho consciência do que quis que fizessem comigo e da minha condição de hibernante por tempo indefinido. Não respiro, meu coração não pulsa, mas o cérebro funciona e a memória permanece tão intacta quanto todos os órgãos do meu corpo, inerte e imerso em nitrogênio líquido. 

A primeira e desesperadora constatação é ter perdido a noção de quanto tempo se passou do óbito até aqui. Tudo é um breu à minha volta, provavelmente há décadas. Talvez séculos. Não o presumível breu da cápsula fechada, pois minha visão e todos os demais sentidos estão inoperantes. É a escuridão interna, o apagão generalizado do organismo, à exceção do cérebro. Ninguém sabe dessa faculdade dos criogenizados, pois ninguém jamais foi criogenizado e voltou à vida para dizer como foi a experiência. Tudo indicava que a atividade cerebral, como as demais funções vitais, cessava com o procedimento criônico. Não consideravam a possibilidade do eterno estado de alerta dos neurônios.

O sono não existe por não haver cansaço. E mesmo que o pânico em vivenciar o nada me fizesse optar pelo suicídio eu não conseguiria cometê-lo, pois qualquer movimento é impossível. A cabeça poderia até dar a ordem, mas o corpo não obedeceria. Eu teria que estourar o crânio nas paredes da cápsula e torcer para que os miolos espatifados me libertassem enfim dessa odiosa lucidez. Mas não posso me mover. 

Quanto mais eu desejo não pensar, mais eu me desobedeço. São raros os "gaps" de consciência, parecem durar segundos, quando tenho a felicidade de experimentá-los. 

VOCÊ, QUE ME LÊ SABE-SE LÁ EM QUE PONTO DO TEMPO, ESTRANHARÁ O FATO DESTE TEXTO PODER TER SIDO ESCRITO, CONSIDERANDO-SE A MINHA PERMANENTE IMOBILIDADE E A IMPOSSIBILIDADE DE COMUNICAÇÃO. MAS SÃO IMPRESSÕES DE UM PERÍODO DO QUAL JÁ ESTOU LIBERTO. UM TESTEMUNHO, RECONSTITUÍDO, DE UMA AGONIA QUE JÁ FOI. ME DESCONGELARAM. VIVO PARA SEMPRE. 




© Direitos Reservados

Imagem: diariodebiologia.com


Comentários

  1. Uau... Você é eterno, Marcelo!? Ótimo, pois assim continuarei lendo-o!
    Prazer em reconhece-lo...
    Abraço.

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  2. Joka Faria12:28 PM

    Muito bom!

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  3. Mara Narciso2:38 PM

    Pegou-me parcialmente pelo pé. Não pensei nisso, na impossibilidade e só instantes antes do fim, foi que pensei, e exatamente no momento em que você fez o alerta.

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  4. Lúcia Gonçalves2:39 PM

    Heheheheh ......Adorei !!

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  5. Leda Valéria Suppa Basile2:42 PM

    Só em pensar...�� Muito criativo, adorei.

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  6. Roberto Bragagnollo2:43 PM

    Parabéns Marcelo

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  7. Clotilde Fascioni2:43 PM

    O pior é que esse texto inquietante me fez lembrar de que as vezes só meu cérebro acorda enquanto o meu corpo não obedece a nenhum comando; é um horror...
    Bom findi meu amigo Marcelo Pirajá Sguassábia e bom domingo ativo e descongelado...

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  8. Raymond Castro2:44 PM

    Criogenia!

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  9. Raymond Castro1:40 PM

    Marcelo Pirajá Sguassábia, quem sabe tenha havido a possibilidade de implante de um eletrodo bem no cérebro (na área da linguagem) e foi possível a expressão do inexprimível, por meio da mais avançada nanotecnologia.

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  10. Jorge Cortás Sader Filho1:41 PM

    Dá ideia vai. Lula também gosta do Facebook! Abraço, Marcelo.

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  11. Antoniazi1:41 PM

    Na década de sessenta, Marcelo Pirajá Sguassábia, falou-se muito que nos EUA corpos estavam sendo congelados para, num futuro incerto, mas com possível descoberta da doença do falecido, e sua cura, serem descongelados e, então, tratados/curados.

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  12. Claudete Amaral1:42 PM

    E....a crise tá feia! É necesssária muita criatividade! Você teve! Parabéns! Boa semana!

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  13. Rita Lavoyer1:43 PM

    Se eu for congelada, morro duas vezes. Sou alérgica a frio.

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  14. Luciana Sleiman1:45 PM

    Será que fizeram todo o tratamento odontológico necessário no sujeito durante o período de congelamento? Já pensou que máximo? Viver para sempre e nunca ter de passar pelas agruras de uma extração ou de um implante? Com certeza essa seria minha angustia pessoal e subjetiva rs. Texto muito bem bolado, atemporal, lembrei do "Todos os Homens São Mortais", da Simone de Beauvoir. Bjos, Marcelo, ótima semana!

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