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IMPOSTO CELESTIAL



Aconteceu ontem, às 15h39 pelo horário de Brasília. E eu, como funcionário de carreira da Polícia de Fronteira da Nação Tupiniquim - PFNT - jamais publicaria esse relato se ele não espelhasse rigorosamente a verdade. 

Por uma manobra involuntária e desastrada do controle em terra, um dos nossos drones de vigilância atravessou uma espessa camada de nuvens e adentrou os domínios de uma colônia de desencarnados. Uma das hélices do aparelho rasgou a túnica de um anjo e depenou sua asa direita, o que provocou um alvoroço como não se via desde os tempos de Zebedeu. Milhares de outros anjos de diferentes escalões do paraíso foram cercando o drone, pálidos de espanto com a geringonça, como se presenciassem uma aparição de Nossa Senhora de Fátima. Foi daí que tivemos uma vaga ideia da imensa "extensão territorial" do pós-morte, ainda sem legislação que a regulamente e faça dela uma fonte de recursos para a União, os Estados e os municípios.

Assim, sugiro a criação, em regime de urgência urgentíssima, do ICEL - Imposto Celestial. Uma vez comprovada a vida após a emissão da Certidão de Óbito, como bem demonstrou o episódio do drone, o cidadão retoma automaticamente seus deveres de contribuinte, pagando pelo uso do espaço aéreo que lhe couber nos planos superiores. 

Não é porque morreu que se adquire o direito de não contribuir mais. Assim é fácil, certo? Basta o indivíduo se matar para não pagar mais imposto. Uma covardia com o erário público, quase um crime de omissão aos deveres cívicos e tributários. 

Se a moda pega, estamos falidos. A esfera pública e o mundo corporativo também. Outro dia mesmo saiu uma notícia dizendo que, em 2098, o número de perfis de mortos no Facebook será maior do que o de vivos. E aí, como fica? Será que a maior rede social do planeta deixará de existir por causa disso? Os mortos serão maioria, e o espertíssimo Mister Zucker irá rebolar mas encontrará um jeito de fazer dinheiro com o pessoal que não posta mais nada. 

Mas, voltando à ideia do novo imposto, há um único problema a ser contornado para regulamentar sua cobrança. Como ainda não há meios de instituirmos uma moeda oficial do Céu, por meio da qual o desencarnado recolheria o que deve aos cofres da nação, os herdeiros do mesmo ficariam responsáveis pelo pagamento, em terra e em reais, do ICEL em nome do finado - cobrando dele depois, se for o caso, da forma como julgarem mais conveniente. 




Esta é uma obra de ficção

© Direitos Reservados

Comentários

  1. Ah! Essa não, mortinha da silva e ainda "impostos a pagar"... Caramba! Melhor me mandar antes que essa moda pegue... ou seja aprovada... por mais uma PEC!!!
    Abraço.

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  2. Andre Albuquerque2:24 PM

    Se em muitos locais do Patropi os defuntos ainda votam,por que não cobrar-lhes o devido imposto ?Excelente Marcelo,forte abraço.

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  3. Jorge Cortás Sader Filho2:25 PM

    Imposto duvidoso, asa quebrada, anjo decaído, tudo isso eu pergunto ao meu advogado dr. Sérgio Cabral. O homem é bom, meu irmão!

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  4. Antoniazi2:26 PM

    CADAN, CND, CNPJ, COFINS, DACON, DARF, DIRF, FGTS, GRF, ICMS, IOF, IR, ISS, PIS, RAIS, muitas outras "siglas", e agora mais o ICEL. Isso é simples. Simples? Ah é. Tem, também, o SIMPLES meu caro amigo Marcelo Pirajá Sguassábia. Grande abraço. Excelente.

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  5. Rita Lavoyer2:26 PM

    Não falta mais nada. Já pensou se a sua ideia pega, Marcelo?

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  6. Lúcia Gonçalves2:27 PM

    É, pois eh....mais uma maldade no ar....Excelente, Parabéns !!

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  7. Daniel Santos2:28 PM

    Após semanas desaparecido, em virtude de problemas de conexão na nova casa, cá estou de volta, caro Marcelo. É grande o prazer, mas levei um baita susto de cara com a criação de um novo imposto....kkkk....Mas é a sina do brasileiro, né? E vc sabe fazer a crítica com maestria inigualável. Sempre uma crônica de mestre. Parabéns!

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  8. Mara Rahal2:29 PM

    Tanto lá como cá. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. É isso, colega brasileiro.

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  9. Fátima Pedroso2:30 PM

    Muito bem pensado !!!! Faz sentido

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  10. Marina de Fátima2:31 PM

    Palmas, palmas, palmas!

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  11. Clotilde Fascioni2:31 PM

    Nem duvido meu caro Marcelo Pirajá Sguassábia, já estamos à caminho da cobrança do ar que respiramos. Valhamedeus! Abraços e bom domingo.

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  12. Toninha Moraes2:32 PM

    Imposto e mais imposto!

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  13. Gigio Vilasãopedro2:33 PM

    Show de bola!

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  14. Claudete Amaral2:34 PM

    Ótima ideia! Mas por, enquanto, n/ conta nada para o pessoal que "manda no Brasil"...porque daí, já viu, né?


    Bom Natal pra vc....um abraço!


    Claudete

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  15. Mara Narciso4:03 AM

    Os pagamentos dos impostos voltarão no tempo até os ancestrais macacos. Com tanto dinheiro, não acontecerá uma hiperinflação?

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